UMA REVOLUÇÃO CULTURAL LATENTE


Práticas populares podem ser ferramentas de ascensão social


Cleber Dias


Josué Ramalho da Silva é um matador, mas não daqueles que causam asco. Josué, mais conhecido por seu apelido, Baianinho de Mauá, é um matador de bolas nas caçapas de uma mesa de sinuca. Ajudante de pedreiro na infância, Baianinho de Mauá descobriu ou inventou um meio de vida próspero na sinuca, que mudou o rumo da vida dele e de vários outros com quem partilha as mesas de jogo: Cobrinha, Tripulim, Dentão, Cobrador, Gladiador e outros mestres da picardia e do desacato. Para muitos, Baianinho é o maior jogador de sinuca do Brasil atualmente em atividade. Para alguns, ele é o maior de todos os tempos, “o Bruxo da sinuquinha”.


Recentemente, Baianinho sagrou-se campeão da I Copa do Mundo de Sinuca, consolidando-se como a principal estrela desse esporte. Sim, para muitos envolvidos, a sinuca é um esporte, que por isso mesmo conta inúmeras competições realizadas semanalmente por todo o Brasil. A I Copa do Mundo de Sinuca foi transmitida pela internet e acumulou mais de meio milhão de espectadores ao longo de seis horas de transmissão.


Na condição de superstar da sinuquinha, Baianinho de Mauá cobra no mínimo 3 mil reais para se apresentar em competições. No mínimo 3 mil reais. Em geral, Baianinho participa de quatro competições a cada final de semana. Patrocinado por uma fábrica de tacos de sinuca e uma fábrica de biscoitos, ele já não é apenas um jogador. Ele é um artista do pano verde.


De fato, algumas partidas de sinuca são performances memoráveis. O vídeo com uma partida entre Baianinho e Catrina, por exemplo, disponível no canal “Mundo da Sinuca”, um dos principais veículos de transmissão de jogos na internet, sintetiza vários elementos marcantes dessa subcultura underground.


Catrina veste o uniforme padrão do jogador de sinuquinha: boné, camiseta, bermuda e chinelo. Baianinho, em conformidade com a sua estatura dentro do esporte, é mais formal: veste camiseta, tênis e calça jeans, embora se dê o direito de usar o boné com as abas voltadas para trás. Ele pode. Ele é o rei da sinuca. O ambiente do jogo também é bastante típico: espectadores ao redor da mesa, bem próximos dos jogadores, dentro de um bar qualquer, em local nunca identificado, onde apenas homens podem ser vistos.


Um dos pontos altos dessa partida se dá por volta dos quatro minutos do vídeo, quando Catrina tenta desestabilizar Baianinho, depois de empatar o placar do jogo. “Aqui as palavras são fortes”, ele diz, e então bate na mesa com vigor. “Você errou pelas minhas palavras. Você escutou as minhas palavras. Elas têm poder. Minhas palavras têm poder. Tem que respeitar”. E então ele caminha de maneira desafiadora em direção a Baianinho, apontando-lhe o dedo em riste. “Você agora vai ter que caprichar. Essa daqui é a minha regra. Eu é quem fiz essa regra. Você está me enfrentando. Você escapou em Nerópolis. Você escapou em São Miguel. Escape aqui hoje, escape”, ele segue desafiando, aos berros, e bate com uma bola de sinuca na mesa, possuído, insano, descontrolado. É um espetáculo fascinante.



Com a frieza dos campeões, Baianinho reage com um único gesto. Com um sorriso irônico e um tanto constrangido no rosto, ele apoia seu taco de sinuca no chão, segurando-o com as duas mãos e responde com uma pergunta, fitando Catrina firmemente nos olhos: “Você já ganhou, já”? Afinal faltava ainda a última e derradeira partida da disputa. Baianinho parecia planejar algo, talvez prevendo movimentos que mais ninguém ali poderia antecipar.


Na partida final, Catrina abriu larga vantagem, faltando apenas uma única bola para vencer a disputa. Todos no bar olhavam com espanto. Um silêncio religioso invadiu o lugar. Pode-se sentir a apreensão na atmosfera. Sob o olhar incrédulo daquelas testemunhas, um mito parecia desmoronar. Eis que então o pequeno baiano se agiganta. O bruxo afinal pôs em marcha sua feitiçaria: matou seis bolas em sequência e venceu a partida. A plateia ao redor da mesa explodiu! Embasbacado, Catrina apenas observou. É tudo que lhe restava, antes de virar as costas e sair de cena. Todas as atenções eram para Baianinho de Mauá. Seria inacreditável, não estivesse registrado em vídeo.


Com o título “Diferença entre humildade e arrogância no jogo”, o vídeo com a partida tem mais de 20 milhões de visualizações! É um hit do You Tube. Eu teria vendido as joias da família para assistir aquela partida in loco – acaso a minha família tivesse joias a serem vendidas.


Em entrevista a uma reportagem da TV Folha, Baianinho de Mauá indicou que seria inconveniente para o espetáculo ganhar uma partida com rapidez e demonstrando muita facilidade. “Às vezes, quando o cara está mirando a bola, eu torço para ele acertar e o jogo não acabar”. Ele reconhece que o interesse de patrocinadores e apostadores depende da demonstração de um certo equilíbrio entre os jogadores, mesmo que isso não seja inteiramente verdadeiro. “Quando percebo que o jogo pode acabar rápido, erro de propósito para ter emoção”, ele diz. Baianinho de Mauá é um sábio.


O equilíbrio de forças entre os oponentes é um móvel fundamental de qualquer disputa. Baianinho sabe disso. A incerteza do resultado gera expectativas, alimenta as emoções, assegura o envolvimento com o jogo e incentiva o universo das apostas, um dos eixos de sustentação econômica da sinuquinha, um dos pilares fundamentais de todo o negócio de matar bolas em caçapas. As apostas ajudam grandemente a movimentar a pequena indústria constituída ao redor desse esporte. “Jogar sem apostar é como bater pênalti sem goleiro”, resumiu certa vez Kalango, um conhecido organizador de torneios de sinuca.


Já houve jogo que ofereceu premiação de 40 mil reais – atualmente disponível no acervo de vídeos do canal Beto Sinuca – além de haver rumores de partidas que valeram quase 200 mil. Quanto mais elevados os valores envolvidos, maior o número de apostadores e mais eletrizantes as partidas.


Nesse cenário, Baianinho de Mauá é de fato um artista de muito valor, que controla com hábil precisão o roteiro, o palco e a encenação dessa dramaturgia social que é a sinuquinha. Cada atuação de Baianinho de Mauá vale o que pagam. Ele é um gênio.


De certo modo, a sinuca é uma espécie de representação microscópica do que é o Brasil. Jogo popular, praticado e assistido geralmente por pobres e mulatos, incorporado como parte de eventos realizados nos rincões do país, uma mesa de sinuca desnuda parte do Brasil profundo. Vídeos de partidas disponíveis no You Tube exibem cenas onde espectadores passam diante da câmera, organizadores de eventos dão entrevistas bebendo cerveja e interrompendo a conversa para cumprimentar conhecidos que vão passando. A captação do áudio em ambientes um tanto caóticos nem sempre é perfeita. O enquadramento ou a qualidade das imagens também não. Não seria surpreendente ver um vira lata caramelo invadir o ambiente e se esparramar debaixo da mesa do jogo. Tudo é flagrantemente precário e improvisado.


Diferente do "snooker", "bilhar" ou “sinucão”, como é popularmente conhecido o jogo mais organizado, institucionalizado em federações, que ambiciona se tornar esporte olímpico e em que as regras exigem que os praticantes vistam gravata e colete, a sinuquinha não tem regras padronizadas. Excluída da pauta de preocupação das federações de sinuca, que cuidam apenas do sinucão, a sinuquinha, vista como um jogo de boteco, segue seu próprio caminho, simples e anárquico.


A sinuquinha está para o sinucão assim como a várzea está para o futebol. O sinucão é a formalidade de gravata, enquanto a sinuquinha é a informalidade de chinelos. Na sinuquinha, cada jogo é único de certo modo, dependendo do tamanho e da inclinação da mesa, que variam de boteco para boteco, sem falar nas regras de cada uma das suas principais “modalidades” (“bolinho”, “carioquinha”, “mata-mata”, “bola lisa” e “par ou ímpar”).


Meses antes de falecer, Rui Chapéu, a lenda da sinuca brasileira, captou em entrevista para a TV Folha parte do dilema que afeta não apenas a sinuca, mas o Brasil de um modo mais geral, poderíamos extrapolar. “A sinuquinha está oferecendo prêmios de 20 mil. Agora, você acha que os jogadores vão sair da sinuquinha para virem para a sinuca grande? Toda semana a sinuquinha tem um torneio com 10 mil de prêmio, 15 mil de prêmio, 20 mil de prêmio”, ele explicou.


Enquanto as federações ignoram a sinuquinha com certo desdém elitista, jogadores, pequenos empresários, patrocinadores, apostadores, organizadores de eventos e entusiastas em geral, seguem dando vida a um universo vibrante. É nesta insubordinação que reside um dos modos como esse jogo simboliza o Brasil.


Tal como os eventos de sinuquinha, o Brasil é um país construído no improviso, aos trambolhões das lutas cotidianas contra as adversidades, onde o talento e a força de vontade são as verdadeiras forças que movem e sustentam a nação. Essa luta desenvolve-se à revelia de quaisquer apoios, subsídios ou incentivos, seja de instituições formais, governos ou universidades, que em geral viram as costas para essa gente, de quem na verdade têm vergonha, embora quase nunca admitam.


Muito sintomaticamente, não há nenhuma dissertação ou tese sobre o universo da sinuquinha. Quem toma parte desse jogo? Como se estruturam esses eventos? Qual o alcance disso tudo? Não sabemos. Também não há notícia de nenhuma forma de apoio governamental a organização desses eventos. Quando os estetas alegam que a cultura, o lazer ou os esportes devem receber apoios e subsídios do governo porque são um direito, além de serem economicamente importantes e gerarem empregos, não estão pensando na extensa e quase invisível cadeia produtiva de práticas como a sinuquinha.


Com ou sem o consentimento das elites, porém, a sinuquinha progride. Um seleto grupo de jogadores vive do jogo, produtores amadores se profissionalizam, as apostas na internet se multiplicam, organizadores promovem eventos cada vez melhor estruturados, o cenário nas partidas ganha já alguma sofisticação – se podemos dizer assim.


Há na sinuquinha uma revolução cultural latente, ou melhor, uma revolução cultural germinando já. Baianinho de Mauá, claro, está na vanguarda das transformações. Recentemente, Baianinho iniciou partidas contra jogadores estrangeiros na sinucona. Ele venceu. Fala-se em torna-lo representante do Brasil em competições oficiais internacionais. O Brasil parece ir ficando pequeno para Baianinho. Ele quer o mundo, e porque não? Para um garoto nascido no interior da Bahia e que por caminhos tortuosos ousou desacatar o destino pré-estabelecido, nada poderia parecer mais natural. Já não seria assombro. Um humilde pode muito.


Além da sinuquinha e em diferentes estágios, há muitas outras revoluções semelhantes em curso: a da indústria da música sertaneja, a do funk, a do gospel, a das festas de peão ou a do futebol de várzea, só para citar alguns – quase tudo devidamente ignorado pelos estudiosos da cultura, salvo as honrosas exceções conhecidas.


Rui Chapéu resumiu em uma frase o que poderia ser o lema a ser estampado na bandeira do Brasil: “Aqui a gente faz tudo na marra”.

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Devo a Rodrigo Silva a introdução no maravilhoso mundo dos vídeos da sinuquinha.

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