UM MODELO ECONÔMICO ASCENDENTE



Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


Um carroceiro atravessa solitário o Centro de Caruaru-PE por volta das duas horas, em uma madrugada fria de terça-feira. Todo o comércio da região está fechado. Em cerca de meia hora, contudo, o movimento de carros, ônibus e, sobretudo, motociclistas, carroceiros, pequenos produtores e comerciantes, alguns deles com suas sofisticadas Picapes, intensifica-se.



Perto da entrada do Parque 18 de Maio, atual sede da grande feira da cidade, uma banda com acordeom, zabumba, pífano, triângulo e pandeiro toca “A feira de Caruaru” – composição de Onildo Almeida, gravada por Luiz Gonzaga, no ano de 1957. Desvencilhando-se do sono, alguns feirantes e carroceiros recém-chegados juntam-se aos músicos batendo palmas e dançando. “A feira de Caruaru é uma festa” – dizem alguns.



A banda segue descendo a rua um pouco inclinada que conduz do Centro ao Parque, esquivando-se aqui e ali do vasto número de trabalhadores que há muito iniciaram sua jornada. Já aqui, antes mesmo de atravessar a ponte sobre o rio Ipojuca cuja margem oposta cede espaço à grande feira, uma quantidade incrível e capilar de feirantes com suas bancas, acumula-se, lado a lado, distribuindo-se pelos meandros e vielas estreitas das redondezas.



“Capilaridade” é bem o termo; não há via transversal ou paralela a esta principal que não seja também palco da feira. Mais ainda, grande parte das residências locais converte suas garagens e varandas em outras tantas bancas. Dir-se-ia que foram mesmo pontos de vendas deste grande mercado popular, antes de serem habitações.



À medida que vão passando, os forrozeiros conquistam o entusiasmo dos feirantes, que levantam as mãos, batem palmas e dançam. Um dos músicos entrega o triângulo ao feirante à sua frente. Este, sem ensaio, une-se ao grupo com harmonia espontânea. Ao seu lado, uma mulher – provavelmente da família – sorri.



Atravessando-se a ponte, antes ainda do pórtico de entrada, muitas bancas da sulanca. Este termo deriva das expressões helanca do sul ou sucata de helanca, que descrevem respectivamente as redes migratórias e de fornecimento de matéria-prima a baixo custo e as estratégias de reaproveitamento material que estão na base do advento do polo de vestuário do agreste pernambucano. À maneira das lojas do entorno, a mercadoria das bancas é exposta em manequins de plástico. Sacoleiros descansam sentados sob uma marquise, enquanto aguardam o funcionamento pleno da feira com a chegada de mais sulanqueiros. Uma moça, companheira da banda e cinegrafista, fala com um dos sacoleiros:



“E aí, vocês estão gostando?

“Eu to gostando, minha filha, muita animação, né?” – responde o sacoleiro.

“Gosta de animação?” – devolve a moça.

Ele – “E não é melhor rir do que chorar?”

Ela – “Muito!”

Ele – “Pois então, eu to rindo”.

Ela – “Tá gostando mesmo?”

Ele – “Eu tô, é maravilhoso!”

Ela – “Imagina se toda vez que tiver feira tiver forró?”

“Aí pronto. Aí é eu só dando risada e dançando!” – arremata o entrevistado.



De braços cruzados, sobrolho cerrado, um fiscal destoa da animação dos demais. Trata-se do agente do Estado; neste caso, a prefeitura. Voltaremos a falar dele.



A banda contorna o perímetro do Parque 18 de Maio. Alguns bancos da feira de artesanato, aguardando turistas, já se encontram abertos. Diferentemente das lojas do Centro, as do entorno da feira encontram-se em pleno funcionamento desde as 21h00min. É que, nas segundas feiras, estas lojas transferem seus turnos para a noite e a madrugada de terça feira, a fim de aproveitar o movimento dos sacoleiros.



Nas calçadas das ruas, mais bancos com roupas, mas também toalhas de mesa, de banho, roupas de cama, mosquiteiros, brinquedos, calçados de couro, tênis, aparelhos celulares de última geração, relógios de pulso que imitam as grandes marcas, panelas de barro, colheres de pau e outros tantos produtos para a casa. Uma miríade de cores vibrantes e formas se revela com o amanhecer sob a forma dos mais variados bens de consumo. A música da banda se mistura com o som das propagandas de promoções, entrecortadas por outras músicas e notícias, emitidas por autofalantes da feira.



O cheiro doce que vem da banca de pamonha disputa olfatos e paladares com o vendedor de churrasquinho e com o ambulante que traz em sua caixa de isopor o salgadinho mais célebre de todo o agreste, a coxinha de galinha. Um feirante sem banco e carroceiro vende legumes expostos em seu carrinho de mão, estacionado na calçada.



Ao fundo, já nas dependências do parque da feira, uma sulanqueira comercializa tops da chamada moda fitness, todos exibindo a marca Puma. À medida que um caminhante transita por estas bancas, testemunha sempre mais a coexistência de tradição e modernidade que se encontra objetivada nas mercadorias e nos diferentes espaços de comercialização – grandes lojas, bancos de alvenaria, recobertos com telhas de Brasilit (marca registrada do revestimento que batizou um setor da feira), as bancas com estrutura de metal ou madeira, as carroças, os carrinhos de mão, o vendedor ambulante segurando um cabide com roupas. Coexistem relações tradicionais de reciprocidade, afinidade, confiança, ajuda mútua, com a vigência moderna da liberdade comercial. Com efeito, as feiras livres talvez compreendam os únicos territórios nos quais vigora plenamente a suposta liberdade do mercado, que resta alhures como a grande falácia do capitalismo.



Poder-se-ia também dizer, coexistência (nem sempre pacífica) entre os pequenos e os grandes – isto é, respectivamente, feirantes e lojistas ou (se nos concentramos antes sobre a produção que a comercialização) sulanqueiros e confeccionistas. Com efeito, esta multiplicidade de atores, objetos, cores, sons exibida na grande feira de Caruaru esconde suas condições precípuas de possibilidade – o trabalho na produção, complementar à esfera da comercialização que, com esta, constitui um universo social de grande complexidade. E, no entanto, se o observador adventício pode falar de uma “esfera de produção” e outra de “comercialização”, não é assim que os protagonistas deste cenário o concebem; produção e comercialização compreendem o trabalho dos feirantes e de suas famílias.



Famílias e vizinhos constituem as unidades básicas de uma economia ascendente que revolucionou a paisagem do agreste pernambucano! A distribuição do trabalho social nos bairros de trabalhadores caruaruenses é familiar e vicinal. Estão disponíveis nestes territórios, a um só tempo, residenciais e laborais, toda a infraestrutura necessária às cadeias produtivas que alimentam não apenas a célebre Feira de Caruaru, mas todo o circuito de feiras livres da região. Galpões com estoques de tecidos, unidades domiciliares de corte, de costura. Lavanderias, tinturarias. Lojas de aviamentos. Oficinas mecânicas de máquinas de costura. Todos os recursos disponíveis à mão, estabelecidos pela agência exclusiva dos próprios trabalhadores. Sem outro investimento público ou privado, que não o das próprias famílias. Variedade de recursos que reduz os custos de produção e transporte.



Os circuitos migratórios, por seu turno, oferecem os melhores canais de fornecimento de matéria-prima. Tudo com base sólida em vínculos familiares ou vicinais. E se as atividades econômicas levadas a curso na esfera das feiras se organiza a partir da troca de mercado, é o princípio da reciprocidade que integra as atividades produtivas que lhes precedem. Qualidade e preço que disso decorrem são competitivamente imbatíveis!



Sacoleiros do Brasil inteiro e mesmo de outros países seguem semanalmente para Caruaru, Toritama, Santa Cruz do Capibaribe ou cidades vizinhas, levando produtos eletrônicos de São Paulo e Ciudad del Este, para retornarem munidos de peças de vestuário. Não há cidade no país que não possua lojas de roupas de baixo custo provenientes do nordeste brasileiro. Quem tiver curiosidade basta ir à loja de roupas mais barata que conhecer e pesquisar o CNPJ (ou muitas vezes o CPF) das etiquetas. Encontrará, sem dúvida, endereços de arranjos produtivos domiciliares das cidades que mencionei. O documentário “Estou me guardando para quando o Carnaval chegar”, de Marcelo Gomes (2019), apresenta o cotidiano do trabalho em uma delas, Toritama.



A feira de Caruaru, patrimônio cultural imaterial brasileiro, é também um centro aglutinador de recursos financeiros atraídos de diversas partes do Brasil e até do mundo – há países da África que são grandes consumidores da sulanca. Trata-se do que o antropólogo Gustavo Lins Ribeiro chamou de Globalização popular e sistema econômico não hegemônico. E a base sólida de demanda agregada que os trabalhadores da feira da sulanca constituem, no agreste pernambucano, incrementa uma vasta diversidade de atividades produtivas e serviços de médios e grandes empresários. Testemunhamos aqui um modelo ascendente de desenvolvimento econômico, engendrado de baixo para cima, onde os pobres estão longe de ser o problema, como teima a ideia fixa escravista que não abandona o país. Eles são antes a solução, como Cleber Dias tem insistido neste site.



Duas forças centrífugas tentam desestabilizar a Feira de Caruaru. De um lado, imbuídos da mesma mentalidade suicida que caracteriza a elite econômica do Brasil, os grandes empresários locais. Estes tentam a todo custo converter o circuito democrático de feiras livres da região em Shoppings. Fazendo isso, aumentariam os custos para aquisição de um ponto de vendas e monopolizariam o mercado consumidor dos sacoleiros. E, no entanto, nenhum desses grandes empresários parece ter combinado com os sacoleiros para que aceitem os novos preços que fatalmente decorreriam da sofisticação do mercado.



De outro lado, as prefeituras, para cooperarem com os grandes empresários, lançam mão da criminalização do comércio popular. Além de não oferecer qualquer estímulo público a esta microeconomia exuberante, e de extraírem sua parcela de arrecadação mediante cobrança pelo uso do solo, na feira, para lá enviam seus agentes estatais, munidos de mil artifícios para inibir as atividades econômicas dos menores comerciantes.



Isso explica a expressão daquele fiscal, contrastante com a alegria à sua volta. Tudo se passa como se ele fosse vítima de uma intuição contra-intuitiva. Treinado para perseguir e inviabilizar as atividades que garantem a vitalidade econômica da cidade – e que são a razão de ser de seu próprio emprego – este trabalhador em condição ambígua parece perceber, entretanto, o que nem seus superiores hierárquicos do Estado, nem grandes empresários conseguem ver. A saber, que a Feira de Caruaru é o coração financeiro de todo o agreste. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto per capita de Caruaru cresceu de R$10.850,51 para R$17.880,19 entre 2010 e 2016. Não precisamos copiar os modelos de desenvolvimento dos países Nórdicos, Coréia, China, EUA ou o que quer que a mentalidade colonizada nos sugira como panacéia para nosso complexo de vira-latas! Podemos, sem dúvida, aprender lições valiosas da experiência alheia, mas nosso melhor modelo é a economia ascendente do agreste pernambucano!



Duas condições são necessárias para a generalização deste modelo. 1- Que o Estado não criminalize os mercados populares. Marx estava certo, mas incompleto. Para democratizar as relações econômicas importa não apenas que os meios de produção estejam disponíveis, mas que sejam acessíveis também os meios de distribuição. Se o Estado invertesse suas prioridades e coibisse os oligopólios comerciais, abrindo espaço aos mercados populares, o Brasil seria, aí sim, um país de classe média. 2- Que a universidade retire o véu do preconceito com a economia underground. A uberização ou precarização do trabalho é um lado da economia informal, de fato, mas não encerra toda a complexidade do fenômeno. A preferência dos trabalhadores brasileiros pelo trabalho por conta própria é secular, conforme nos apresenta a vasta literatura da Antropologia do Trabalho, no país. Quando a economia pragmática do povo trabalhador se combinar com os recursos da ciência e da tecnologia acadêmicos, ninguém supera este país!



Aqui a economia e cultura não constituem esferas separadas! E as oportunidades econômicas abertas pelas práticas populares de lazer se equivalem àquelas engendradas na esfera do trabalho. De fato, ambas se interpenetram e confundem as fronteiras e as classificações acadêmicas, como também tem notado insistentemente meu colega de site. Trata-se de um modo de viver que se diverte enquanto luta e do qual a feira de Caruaru é a melhor expressão objetivada!



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