TERRORISMO IDEOLÓGICO


Cleber Dias


Ao dizer em um vídeo no Instagram que não se sentia representada por nenhum dos extremos do espectro político, isto é, a direita e a esquerda, a atriz Juliana Paes tornou-se logo o alvo das patrulhas. Não bastasse, Juliana Paes pronunciou tal declaração enquanto criticava a maneira violenta como a médica Nise Yamaguchi fora interpelada por senadores durante sessão da CPI da Covid.


O ator Bruno Gagliasso rebateu escrevendo que quem afirma não ser nem de direita nem de esquerda, na verdade é de direita. Se o Bruno Gagliasso e outros militantes de esquerda assim determinaram, que assim seja. De acordo com essa visão, o centro do espectro político já não existe. Há apenas direita e esquerda. Além disso, pessoas como Bruno Gagliasso têm ou pensam ter o poder de determinar o lugar que cada um de nós ocupará no espaço político. Basta apenas saber agora se todo mundo concorda.


Seguiram-se então endossos de Patrícia Pillar e Letícia Sabatella, elevando o assunto à condição de uma guerra de estrelas. Criticava-se não exatamente as opiniões ou preferências eleitorais de Juliana Paes, mas a sua falta de engajamento político.


Os mais incisivos e também reveladores, porém, foram os comentários do ator Ícaro Silva, que desenvolveu um pouco mais seus argumentos contra a colega de profissão. As palavras de Ícaro, na verdade, parecem um sermão. “Gente, quem não tá falando”, ele disse, querendo referir-se com isso a quem não está criticando o governo Bolsonaro tanto quanto ele gostaria, “não é porque tá em cima do muro. É porque tá do outro lado do muro mesmo, o lado que dá vergonha de tá. Por isso silencia”.


O argumento do ator seguiu destacando que Juliana Paes não sabia o que era a fome, nem entendia o que era miséria, donde se podia explicar o que ele julgava ser uma “falta de empatia” e uma ausência de “senso antropológico”. Como bom missionário da política, que tenta converter os hereges e pagãos, Ícaro sentiu-se no direito de oferecer conselhos a colega, sugerindo que Juliana Paes mergulhasse em realidades que ela nem sonha que existam, conforme palavras dele, como a dos indígenas, que ele mesmo enfatizou estarem sendo massacrados agora.


Aparentemente surpreso por ter descoberto que vive em um país que massacra povos indígenas há mais de 500 anos, o ator termina tecendo observações sobre a inteligência brasileira. Segundo ele, “esse não é um país de pessoas inteligentes”, afirma, dado que elegeu Bolsonaro como presidente.


Curiosamente, Ícaro, o empático conhecedor dos índios, da miséria e da fome, morador da Barra da Tijuca, conforme ele mesmo anuncia, conhecido bairro de ricos emergentes do Rio de Janeiro, não demonstra nenhuma empatia e senso antropológico pelos eleitores de Bolsonaro, que talvez sejam seus vizinhos. A empatia que Ícaro reivindica parece limitar-se a pessoas distantes dele próprio: os miseráveis, os famintos e os índios. Para os que estão próximos, apenas ódio e ressentimento.


Todavia, acaso esses eleitores de Bolsonaro, tidos como destituídos de inteligência, forem também famintos e miseráveis, deveríamos olhá-los com as lentes da empatia ou do desprezo? Esse é o curto-circuito no qual a intolerância política da esquerda se enredou.

Em todas essas críticas à Juliana Paes, insinua-se que existem apenas duas opiniões possíveis, nunca três ou quatro, apenas duas. Conforme a metáfora empregada pelo ator Ícaro Silva, há um muro que divide o mundo em dois. Um lado é o certo e o outro é o errado. Um é bom e o outro é mal. Os que estão do lado mal e errado são naturalmente canalhas, pois apenas canalhas ficam do lado mal e errado.


Essa estrutura de pensamento, revelada pelos artistas simpáticos às bandeiras da esquerda, e por isso mesmo críticos vorazes de Juliana Paes, que ousou desafiar os dogmas que presidem os comportamentos e pensamentos, é rigorosamente idêntica à da extrema direita que eles dizem criticar, só que com polos ideológicos invertidos. Não por acaso, nos Estados Unidos de Donald Trump, desejou-se edificar um muro não apenas metafórico, mas verdadeiro, feito de pedra, cimento e tijolo, que separasse fisicamente os maus dos bons, os errados dos certos. Esse é o ideal de mundo dos extremistas da direita norte-americana, mas também da esquerda brasileira. Um mundo em que o convívio é possível apenas quando se está longe ou na medida em que se subordina à certas correntes de opiniões. Em geral, a esquerda brasileira é tão autoritária quanto àqueles a quem critica.


Militantes de direita e também de esquerda geralmente não pedem, ordenam; não acham, têm certeza; não convidam, convocam. Se você for uma ovelha obediente a um desses grupos, estará protegida. Se for insolente e rebelde, contudo, será atacado. Não por acaso, a palavra militante remete a militar e militarismo, quer dizer, uma estrutura pautada na hierarquia e na obediência.


Reforçando as semelhanças, militantes da direita também acusam apoiadores da esquerda de cafajestismo e falta de caráter, tal como fazem agora com Juliana Paes. Para ambos os grupos, um eleitor com preferências diferentes não é apenas alguém que pensa de outro modo, mas um cafajeste cheio de más intenções. Assim, converte-se a divergência ideológica em ódio político, onde adversários são inimigos.


Obviamente, tais julgamentos precisam abstrair a existência real e concreta dos indivíduos. Já não se tratam de amigos amorosos, colegas de trabalho competentes e dedicados ou pais de famílias responsáveis. Nada disso importa. Tudo está reduzido à política, mesmo que a política não seja tão importante para esses amigos, colegas de trabalho ou pais de famílias.


Pois ao contrário do que esse terrorismo ideológico propõe, ninguém é obrigado a se engajar com assuntos políticos, nem tampouco de eleger as preferências eleitorais como como fator preponderante para edificação de identidades. O mundo não se organiza apenas entre eleitores de direita e de esquerda. Há muitos outros critérios para se organizar identidades.


Há os gostam e se interessam por política, é claro, mas esses fazem parte de uma minoria. A maioria está ocupada demais com obrigações mais urgentes. Brincar de militante é um luxo disponível a poucos.

Por tudo, Juliana Paes é agora a voz da moderação e da sensatez. Ouçam o que ela diz. Ela fala de um mundo assolado por uma pandemia que angustia e desorienta a todos, onde simplesmente não existem respostas. Ela reivindica vacinas e também o direito de as pessoas trabalharem. Ela fala de “maniqueísmo imaturo” e de “desrespeito a individualidade”. Ela diz que uma trabalhadora não deve ser tratada com arrogância e desrespeito, independente dos erros e acertos profissionais que tenha cometido. Acaso apenas pobres merecem compaixão e tratamento digno?

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