SOCIEDADE DO LAZER OU SOCIEDADE DO CANSAÇO?



Cleber Dias


Em 1930, Keynes apresentou seu famoso artigo com previsões sobre o futuro do trabalho. Ele supunha que a crescente mecanização da produção reduziria progressivamente o tempo dedicado ao trabalho, ampliando, assim, o tempo livre para o lazer. Ele previa que em 2030 trabalharíamos em média 15 horas por semana!


Nas décadas seguintes, vários outros pesquisadores repetiram o diagnóstico em outras palavras. De modo geral, acreditava-se que haveria cada vez menos trabalho a ser realizado e cada vez mais tempo livre a ser gozado. Viveríamos então em uma “sociedade do lazer”.


A formação de um campo de pesquisas especializado no estudo do lazer, algo que ocorreu entre as décadas de 1950 e 1970, é em grande medida uma resposta a essas inquietações. Diante da expectativa de uma vida de prazeres, o lazer insinuava-se como um novo “problema” – pasmem!


Visto em retrospecto, essas análises parecem hoje terrivelmente ingênuas. Muitos de nós têm a percepção de vivermos uma época em que se trabalha como nunca. O sonho da sociedade do lazer parece ter dado lugar ao pesadelo da sociedade do cansaço. Mas será mesmo?


Determinar se o tempo dedicado ao trabalho tem aumentado ou diminuído não é uma tarefa simples. Não por acaso, estudiosos do assunto divergem a respeito das conclusões sobre o assunto.


Alguns países dispõem de séries históricas com medições do tempo consumido pelo trabalho ao longo dos anos. Resultados obtidos a partir desses dados sugerem estagnação ou aumento do tempo dedicado ao trabalho a partir das décadas de 1960 e 1970. Depois das longuíssimas jornadas que marcaram o trabalho industrial no século 19, a redução do tempo de trabalho registrada ao longo da primeira metade do século 20 teria sido interrompida, o que faz daquele período uma notável excepcionalidade histórica. Desde então, estaríamos voltando ao punitivo mundo dos cristãos, do qual quase nos livramos, mesmo assim apenas por um brevíssimo período. “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão”, disse Yahweh Deus, no versículo 19, do capítulo 3, do livro Gênesis. É o castigo eterno pelo pecado original. Nunca antes e nunca depois uma maçã custou tão caro.


Por outro lado, transformações na estrutura etária da sociedade, notadamente o prolongamento da infância, retardam o ingresso de jovens no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, o aumento da expectativa de vida, associada a universalização de regimes de aposentadoria, garante alguns anos sem trabalho ou com menos trabalho na velhice. Assim, mesmo se considerarmos que a extensão das jornadas estagnou ou aumentou durante a idade produtiva, o tempo dedicado ao trabalho no curso de uma vida talvez tenha diminuído. Calculando o tempo médio dedicado ao trabalho ao longo de toda uma vida, seria possível que as previsões de Keynes fossem afinal mais ou menos acertadas. Os especialistas no assunto reconhecem que não é fácil estabelecer essas estimativas para o conjunto de uma população. Além disso, igualmente importante, há agudas diferenças entre os países.


Nos países detentores das vanguardas tecnológicas, a produtividade dos trabalhadores é elevada, o que aumenta também as suas rendas, diminuindo ainda os níveis de desigualdade, conforme consagrado pela “teoria do U invertido”. A elevação geral das rendas com taxas de desigualdade menores favorece a manutenção da demanda por consumo, ampliando as oportunidades de trabalho e retroalimentando um círculo virtuoso.


O gráfico abaixo mostra a relação negativa entre renda e tempo de trabalho entre diferentes países. Quanto maiores os rendimentos, menos horas dedicadas ao trabalho. Holanda, Dinamarca, Noruega, Alemanha, Suíça, Suécia, Austrália ou França são os exemplos que costumeiramente admiramos nesse sentido. Na medida em que a estrutura produtiva desses países evolui ou pelo menos se mantêm nessas fronteiras tecnológicas, o tempo livre disponível do conjunto da população tende a aumentar, sem prejuízos aos seus rendimentos. Nos limites da vida mundana, isto é o que mais se aproxima do que chamamos Paraíso, onde as pessoas têm uma vida materialmente próspera, um trabalho produtivo e tempo para o lazer.


Apenas por precaução, dado que todas as turmas a quem apresento o gráfico fazem sempre a mesma piada, adianto-me em desfazer desde logo quaisquer fantasias: não é a diminuição da jornada de trabalho o que eleva os rendimentos, mas a elevação dos rendimentos o que permite a diminuição da jornada de trabalho. Não bastaria, portanto, decretar férias permanentes a todos os trabalhadores para fazer um país ingressar no seleto grupos dos “desenvolvidos”.


Relação entre horas anuais de trabalho e PIB per capita (2012)

Fontes: OCDE e IBGE, em elaboração de Daniel Resende, disponível no blog Vérios.


Nos países com acesso limitado a vanguarda tecnológica, porém, a produtividade dos trabalhadores seguirá estável ou diminuirá. As desigualdades, por seu turno, seguirão estáveis ou aumentarão, quase inteiramente a despeito de quaisquer esforços para transferências de renda agenciadas pelos governos. Na verdade, países concentrados na produção de produtos com baixo valor agregado, tais como soja, milho, carne e minério de ferro, oferecerão empregos com salários mais baixos, deprimindo a atividade econômica e comprometendo as arrecadações de tributos, o que limita a capacidade de investimentos governamentais, ao mesmo tempo em que aumenta os conflitos distributivos. Parece um filme conhecido, eu sei. Semelhanças com os noticiários não são meras coincidências. Nesse cenário, uma espiral de crise econômica e instabilidade política já não seria surpresa. Em resumo, não é o tipo de lugar que alguém sensato escolheria para criar os filhos.


A essa altura, sabemos todos qual o lugar do Brasil nessa divisão internacional do trabalho, o que torna nossa situação especialmente dramática: um país pobre e ao mesmo tempo escandalosamente desigual, que para completar é a economia que mais rápida e precocemente se desindustrializou nos últimos anos. Nesse contexto, tendemos a ter empregos cada vez piores e com remunerações cada vez menores, o que degradará ainda mais as relações sociais e possivelmente diminuirá a porção geral de tempo livre disponível. Ao contrário da mística de um país brincalhão e do preconceito que imagina um povo preguiçoso, os brasileiros, na verdade, vivem para o trabalho – geralmente degradante – e têm pouco tempo para o lazer.


Nada disso ocorre por perversidade de políticos ou empresários, mas apenas porque a estrutura produtiva do país se deteriora – por razões diversas que não caberiam aqui (pretendo voltar ao assunto outro dia). Em todo caso, nosso purgatório não decorre apenas de “falta de vontade política”, conforme certo lugar comum que vez por outra é apresentado nas conversas sobre o assunto. Diferente do que acreditam os crentes, contudo, a vontade ou a fé não movem montanhas. É preciso mais que isso para mudar um país.


Também nenhuma política de lazer será capaz de reverter esse processo. Ao menos não as políticas de lazer tal como conhecemos. Oferecer oportunidades de recreação, mesmo que houvesse recursos excedentes para tanto, definitivamente não é uma solução para problemas tão profundos e estruturais como os nossos. Museus gratuitos, ruas de lazer, aulas de ginástica para terceira idade, escolinhas de esportes para crianças e adolescentes não serão suficientes para frear e reverter a dinâmica dessas tendências. De outra forma, seria preciso uma coordenação de esforços vigorosa, decidida, criativa e bem informada para uma reelaboração radicalmente inovadora de políticas públicas. Seria talvez a nossa última esperança de tentar ascender ao Paraíso na Terra. Alguém aí se habilita?

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