SOBRE PASTORES E INTELECTUAIS


Wecisley Ribeiro do Espírito Santo

Cleber Dias


Houve um tempo em que nossos intelectuais de esquerda eram orgânicos. Os movimentos pelas reformas de base que antecederam 1964 os conheceram. Haviam os intelectuais da educação, inspirados pelo humanismo de Paulo Freire. Os da saúde, liderados por Sérgio Arouca. Haviam os teólogos da libertação, reunidos de modo improvisado ao redor de uma fogueira, em comunidades pobres, partilhando com o povo humilde refeições simples, dialogando com horizontalidade sobre a dura realidade de opressão.


Em certa medida, era a própria universidade brasileira que se fazia humilde. Em seus múltiplos departamentos testemunhava-se o emprego do que o sociólogo colombiano Orlando Fala Borda denominou “ciência modesta e técnicas dialogais”. A compreensão da realidade constituía preocupação relevante; mas não mais que a comunicação dos resultados das pesquisas. Havia um esforço para gestar condições de identificação entre trabalhadores da ciência e as demais categorias de trabalhadores.


No bojo das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) o método intitulado “ver, julgar e agir”, democratizava o pensamento e a prática. Via-se a realidade das injustiças sociais a partir da perspectiva dos injustiçados. Julgava-se dialogicamente os fatos observados, promovendo encontros entre ciência popular, teologia, sociologia, economia, antropologia e história acadêmicas (tudo assim, com minúsculas). Finalmente, cooperava-se na prática – desde a faxina na sala das reuniões, passando por mutirões comunitários, até as ações especificamente políticas. A eficácia desta simetria radical nas relações entre trabalhadores do pensamento e as demais categorias profissionais se evidenciou na fundação do PT, da CUT e do MST, todos filhos das CEBs e dos Círculos de Cultura do Movimento de Educação de Base.


Lula é, sem dúvida, filho deste movimento que compreendeu quase três décadas de diálogo genuíno. Processo que, de tão virtuoso, gestou em duas escalas os exemplos mais completos da noção gramsciana de intelectual orgânico. Na escala do que o filósofo italiano concebia como intelectual coletivo, emerge o Partido dos Trabalhadores. Na escala individual forma-se, no bojo dos processos formativos populares das ações pastorais e da Pedagogia do Oprimido, o maior líder popular da história do país. E, ironicamente, ele não enverga os vícios intelectualistas que costumam ser incorporados ao longo do processo de escolarização “bem sucedida”.


Não se trata de idealizar o passado. Existiam problemas nos idos dos anos 1960-80, por certo. Professores da educação básica, de tão identificados com o senso comum pedagógico das famílias e dos monastérios, empregavam os mesmos castigos físicos perpetrados naquelas instituições contra seus alunos (concebidos assim mesmo, como desprovidos de luz). Na universidade também coexistia com as tendências mais democráticas o verniz aristocrático e o elitismo (menos intelectual que nobiliárquico) herdado dos filhos dos coronéis escravocratas. Estes que retornavam das universidades de Coimbra vazios da substância mesma das graduações que cursavam e, no entanto, cheios de presunção investida no diploma que seguravam. Lula é o inverso simétrico deles; esbanja substância e economiza verniz. É povo como o povo; aqui não há relação de identificação, mas de pertencimento.


Nos anos 1990 chega ao Brasil a Renovação Carismática Católica. Secundada então pela Teologia da Prosperidade neopentecostal, o fato representa um primeiro golpe na democracia cognitiva que vigorou nos movimentos populares brasileiros (majoritariamente interconectados com a igreja progressista). O primeiro afastamento parte, pois, das bases populares, é verdade, as quais se veem vítima do deslumbramento estético e emocional estimulado pelas tendências religiosas recém chegadas dos EUA.


A partir de 2003, observa-se uma ampliação inédita do investimento público em Ciência e Educação no país. A profissionalização da pesquisa produz efeitos sociais desastrosos no terreno da interação ciência-sociedade. E mais um passo é dado no processo de afastamento entre povo trabalhador e intelectuais (cada vez menos auto concebidos como trabalhadores). A internacionalização da ciência desenterra aquele fantasma de Coimbra; e o verniz do diploma ganha escala na universidade brasileira.


Nas escolas da educação básica os castigos físicos cedem espaço ao sadismo intelectual. Mimetizando os filhos dos coronéis, professores criminalizam a pobreza e condenam os que mais necessitam de seus serviços à evasão, ao encarceramento e ao extermínio policial. Passam da condição de intelectuais orgânicos à de olheiros dos agentes penitenciários e funerários; de educadores a profetas do genocídio. Na arrogância dos intelectuais se situa o ponto nevrálgico do Brasil contemporâneo. Seus filhos rebeldes chamam-se bolsonarismo, obscurantismo, negacionismo.


A quem se pode comparar intelectuais que sustentam defender o povo, nutrindo desprezo por tudo que lhe diz respeito? Naturalmente, àqueles que sustentam defender o Cristo, nutrindo ações e palavras de desprezo a tudo o que seu objeto de falsa adoração pregou. Jesus renunciou às riquezas; seus pregadores, não. Renunciou ao poder secular; seus pregadores, não. Renunciou ao emprego da violência como forma de resolução de conflitos; seus pregadores, não. Renunciou ao ódio a quem lhe fez mal, perdoando-os; seus pregadores, não. Renunciou ao proselitismo, sentando-se à mesa e confraternizando com quem não compartilhava de suas convicções espirituais; seus pregadores, não. Renunciou ao etnocentrismo, interagindo fraternamente com estrangeiros e fiéis religiosos considerados inimigos de seu povo; seus pregadores, não.


Intelectuais de esquerda representam, no terreno da ética secular, o que certos pastores de algumas igrejas neopentecostais representam no terreno da ética religiosa. A despeito das grandes semelhanças que compartilham, há, contudo, um contraste político relevante que joga contra os intelectuais e a favor dos pastores.


Líderes religiosos preservaram uma única característica do cristianismo primitivo, que estava presente também na igreja progressista do Brasil, na segunda metade do século XX, a saber, a humildade. Ignorantes, doentes, desempregados, drogados, assassinos, corruptos, miseráveis, sujos, esfarrapados, mendigos são todos recebidos, ao menos na aparência, com a mesma dignidade de políticos e super empresários. Na igreja, são todos irmãos.


Intelectuais de esquerda, ao contrário, se orgulham de suas marcas de distinção. Adoram encontrar alguém que julgam ignorante para dizer, de peito inflado, que a realidade “é mais complexa do que isso”. Adoram também apontar o dedo em riste e dizer que não são culpados pelas consequências das escolhas eleitorais do povo que dizem defender, apenas ampliando, assim, o abismo que por várias razões já os separam da gente comum. Nessa chave, há um jeito certo e outro errado de pensar e de votar, onde apenas os intelectuais detêm a palavra final do que é aceitável e do que não é. Na prática, portanto, intelectuais de esquerda não se sujeitam a imaginar a si mesmos como parte da nação que querem reformar. O povo aparece sempre como “eles”, nunca como “nós”. Foram “eles”, afinal, quem elegeram este que aí está.


Este, pois, o dilema prático que enfrentaremos até 2022: retomar a humildade profética de um dom Helder Câmara, de um Paulo Freire, de um Sérgio Arouca, ou entregar mais quatro anos (e provavelmente muito mais) às forças tenebrosas que hoje nos governam. Bolsonaro é avaliado, no momento mesmo em que chegamos a um quarto de milhão de mortes por Covid, por trinta por cento da população como um governo ótimo ou bom. Some-se os que o consideram regular e você terá quase metade dos eleitores. Como explicar este fenômeno? Pelo ressentimento popular frente aos militantes da oposição, tão frequentemente subordinados aos ditames da moral universitária, mas alheios, indiferentes e até hostis às razões da gente comum.


Mesmo que Lula seja o adversário de Bolsonaro no segundo turno das eleições, não se pode ignorar as dificuldades que enfrentaremos. Se aquele é filho da adormecida Teologia da Libertação, este é o antintelectual orgânico da Teologia da Prosperidade, que está mais ativa que nunca! Os falsos profetas, cabos eleitorais de Bolsonaro, contam com espíritos obsessores que sussurram, nos ouvidos dos intelectuais de esquerda, a vaidade intelectual da qual se alimentam.


Ou acordamos agora, ou seguiremos na direção do abismo! Quando o mundo completar o processo de vacinação, o Brasil, com todas as barreiras que o governo ergue, será contemplado com o imunizante. Seguir-se-á uma retomada do crescimento econômico e dos empregos, como resultado espontâneo da recuperação de alguma normalidade do trabalho. Às vésperas da eleição, o bolsonarismo poderá propalar que está entregando um país inteiro economicamente, a despeito da pandemia.


E quanto às mortes – indagará a esquerda? Não se pode esperar que um povo secularmente assolado pela mortalidade precoce, pela sonegação do direito à saúde, à moradia, ao trabalho, à assistência social, à alimentação, à aposentadoria, à existência pacífica e protegida da violência perpetrada pelo braço armado do Estado policialesco, dimensione agora, de súbito, que a morte não é algo banal e pode ser evitada. Não é isso o que o cotidiano tem ensinado, dia após dia, à maior parte de nossa gente.


Para persuadir a sociedade de que um outro mundo é possível, será necessário mais que saber falar bonito. Será necessário saber ouvir; algo que se perdeu há cerca de trinta anos. A resiliência de Bolsonaro só se explica pelo fastio popular frente à palavra do intelectual. Precisamos dar dois passos para nos reconciliar: praticar o silêncio obsequioso para ouvir com sinceridade do coração e nos convencer de que o diálogo fraterno, simétrico e democrático de que necessitamos não se produzirá em uma barraquinha com bolo e café, às vésperas das eleições em 2022. Antes, é imprescindível seguir os passos do Cristo, conforme o capítulo 1 do evangelho de João, e armar tenda, e habitar no meio do povo.


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