QUEM TEM MEDO DO TELE TRABALHO?


Cleber Dias


Grupos de direita olham para o tele trabalho no setor público como um privilégio de classe. A notícia de que milhões de servidores trabalham de casa durante a pandemia foi tratada por alguns desses grupos como mais uma mordomia do funcionalismo público.


Por outro lado, grupos de esquerda olham para o tele trabalho no setor público como uma ameaça tremendamente assustadora, mais um anúncio da apocalíptica precarização que se aproxima a passos largos. A notícia de que o governo federal prolongaria o trabalho realizado de casa até o mês de dezembro assombrou alguns desses grupos. A divulgação das elevadas cifras economizadas com água, eletricidade e outros gastos com a manutenção dos locais de trabalho, que certamente é uma parte essencial da decisão, apenas agravou os temores de que o temporário poderia se converter em definitivo. Para certos grupos de esquerda, afinal, qualquer tentativa de economizar dinheiro público parece uma maldição sem igual.


O tele trabalho no setor público, porém, não é privilégio nem ameaça, mas apenas mais uma oportunidade que pode ser aproveitada ou desperdiçada. A precarização, a modernização das relações de trabalho ou a oferta de serviços públicos mais eficientes através do recurso a novas tecnologias, quer dizer, com qualidades equivalentes e custos menores, não está de forma alguma garantida ou pré-determinada.


A iniciativa privada já notou as vantagens da modalidade. Várias empresas grandes e pequenas, poucos depois do início da pandemia e da adoção do trabalho remoto, anunciaram que o esquema seria em grande medida mantido após o fim da pandemia. Tal como no setor público e como seria de se esperar, as cifras economizadas na manutenção dos espaços de trabalho presencial atuaram como motivação mais que suficiente para justificar a medida. Além disso, no entanto, e esses dois pontos devem ser enfatizados, a produtividade do trabalho aumentou, ao mesmo tempo em que muitos trabalhadores dizem apoiar o regime de trabalho residencial (geralmente intercalando dias ou períodos entre a empresa e a residência). Os apoios e desejos dos trabalhadores nesse sentido não são de forma alguma destituídas de boas razões.


Como regra, a maioria dos seres humanos, ao longo de praticamente toda a história da espécie, sempre trabalhou perto de casa, em meio a família e relações de vizinhança e em atividades intermitentes, que intercalavam o trabalho propriamente dito com pausas para o descanso e outras obrigações domésticas, sociais ou comunitárias. As pesquisas do antrópologo James Suzman oferecem relatos fascinantes a respeito do modo de organização do trabalho entre grupos nômades ou semi-nômades que viviam ou vivem ainda da caça e da coleta. O modelo que predomina atualmente, semelhante ao de um presidiário em regime semiaberto, em que trabalhadores e trabalhadoras passam não apenas os dias, se não as vidas fora de casa e longe da família, é uma invenção bastante recente, que remonta ao século 19 ou mesmo depois.


Meu desejo e minhas expectativas são que essa invencionice contemporânea, que não é mais que uma tortura sádica e cruel, esteja em vias de desaparição. Graças a uma pandemia e as novas tecnologias de comunicação, ao invés de deslocarmos diariamente milhares de pessoas até o local de trabalho, agora podemos deslocar o trabalho até a casa de milhares de pessoas. É mais econômico, mais sensato e mais amigável ao meio ambiente.


O trabalho remoto não é nem mais fácil nem mais difícil do que o trabalho presencial; nem mais árduo nem mais leve; é apenas mais humano e mais de acordo com profundas disposições psicológicas herdadas de um longo processo de evolução cultural e biológica. Os requintes de perversidade dos métodos de tortura do capitalismo industrial – cujo eufemismo mais comum é administração científica – ainda não foram suficientes para solapar as bases da natureza humana. Ao menos não até agora.


Com essas afirmações fortes, não fecho os olhos para os inúmeros inconvenientes que podem surgir da situação. Sei bem das muitas desvantagens que podem acompanhar o trabalho realizado de casa: mensagens fora do horário do expediente, a diluição das barreiras entre trabalho e vida familiar e assim por diante. Um regime de trabalho mais vantajoso não equivale a um regime de trabalho perfeito. Regimes de trabalho perfeitos possivelmente não existem, exceto, talvez, para proprietários de cartórios e consultores financeiros.


Sei também que a possibilidade de trabalhar de casa está disponível apenas para poucos, tais como trabalhadores de escritório e outros empregos análogos, chamados geralmente “criativos”, que precisam ainda ter uma residência compatível com as exigências do trabalho, o que nem sempre é o caso. Sei ainda que essas desigualdades são especialmente dramáticas no Brasil, onde a maioria é ocupada (e nem sequer empregada) em atividades de baixíssima qualificação e inteiramente indisponíveis para essa sofisticação aristocrática chamada home office.


A super exploração do trabalho, contudo, está longe de ser uma exclusividade dos que trabalham de casa. A natureza exploratória do trabalho não aumenta nem diminui apenas com a mudança do local em que o trabalho é realizado. Exploração é exploração em qualquer lugar.


As mensagens nos nossos telefones, por seu turno, não vêm apenas do trabalho. A sensação de cansaço após um dia com olhos fixos nas telas, lendo e respondendo mensagens, não é apenas por causa da natureza ou das condições do trabalho, mas do uso excessivo de tecnologias e suas crescentes demandas de atenção, algo relativo tanto ao trabalho quanto ao lazer. Esta situação, que é grave e que alguns dizem estar relacionada a muitos problemas sociais, emocionais e psicológicos atuais, não será contornada trancando milhões de pessoas em escritórios abarrotados de computadores conectados à internet. O buraco é bem mais embaixo.


A defesa do trabalho remoto tampouco idealiza relações familiares apenas como espaços para o convívio harmonioso. A casa bem pode ser um lugar para toda sorte de insultos, abusos e violências. Em defesa do trabalho residencial, entretanto, podemos dizer que o ambiente das empresas também podem ter tudo isso.


Ao invés da habitual postura reativa, que é contra tudo, mas a favor de quase nada, grupos e militantes políticos identificados como “progressistas” deveriam assumir a vanguarda das transformações e apresentar um conjunto de propostas concretas para ampliar e radicalizar tanto quanto possível o uso de novas tecnologias para modernização das relações de trabalho.


Nesse sentido, o setor público, ao invés de ser a última fronteira de inovações e aperfeiçoamentos, apenas a reboque do que fazem empresas da iniciativa privada, deve assumir o protagonismo na elaboração e implementação de novos modelos de organização do trabalho. Conforme ensina a economista Mariana Mazzucato, professora da Universidade de Sussex, na Inglaterra, o desenvolvimento tecnológico e o progresso material de uma sociedade, onde quer que este processo tenha ocorrido recentemente, sempre dependeu de um Estado empreendedor. Inovação e empreendedorismo criativo não são monopólios de empresas em busca de lucro, tampouco estão confinados a elaboração de produtos, se não também de novos processos. Os modos de administração do trabalho e de gestão de recursos humanos, portanto, também podem e devem ser objetos de inovação constante, onde o Estado deve ter um papel fundamental.


Lamentavelmente, contudo, nosso horizonte é pouquíssimo alvissareiro. Boa parte das camadas dirigentes dos órgãos públicos e mesmo os sindicatos dos servidores conformaram-se permanentemente, parece, como forças sociais conservadoras ou mesmo reacionárias. Os conservadores desejam literalmente conservar as relações sociais e laborais tal como são, sem mudanças de nenhum tipo. Já os reacionários desejam recuperar o passado no presente, talvez reabilitando as máquinas de datilografar, o que poderia, conforme parecem acreditar, evitar a ameaça da extinção de postos de trabalho por inteligências artificiais e ainda recuperar antigos empregos perdidos pelas datilógrafas.


Naturalmente, nada disso constitui alternativas viáveis. Não precisamos frear a difusão social de novas tecnologias – até porque isso não é desejável, além de ser provavelmente impossível, sendo um processo em grande medida alheio às nossas vontades individuais. Precisamos, isso sim, ser capazes de elaborar meios e ferramentas sociais de usar as tecnologias a nosso favor e em conformidade a projetos políticos igualitários, humanistas e desenvolvimentistas. A incorporação das tecnologias mais avançadas disponíveis, inclusive para automação crescente de certos trabalhos, não obstante a perda de empregos, é parte fundamental dessa agenda. Não está escrito na pedra ou em qualquer livro sagrado que a reinvindicação de uma política de pleno emprego é o único expediente possível para organizações populares e trabalhistas. O estreitamento do horizonte imaginativo para reinvindicações políticas é talvez o primeiro obstáculo que os progressistas precisam urgentemente superar.


Se o vislumbre e a imaginação do futuro parecer excessivo, a vivência do presente já seria bastante razoável. O uso de tecnologias do século 21, como os “pontos eletrônicos”, com o propósito de controlar os horários de chegada e de saída dos locais de trabalho, tal como prescrito pelos métodos de administração do século 19, não é um vislumbre do futuro, tampouco uma atualização do presente, mas apenas uma forma vulgar e antiquada de tentar inutilmente exercer um mando sádico e ineficaz sobre os trabalhadores.


Quando a pandemia passar – um dia ela haverá de passar – o simples retorno de todos ao mesmo antigo e obsoleto modelo de trabalho de antes não deveria ser aceitável aos que veem a si mesmos como progressistas.

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