POR QUE É TÃO DIFÍCIL O DEBATE ABERTO E CRÍTICO ENTRE NÓS?


Cleber Dias


Tomo emprestado a pergunta do sociólogo Jessé Souza. A resposta, segundo ele, é que o principal esquema mental que orienta a ação no Brasil postula o predomínio dos afetos sobre a razão. De acordo com esse esquema, chamado de “teoria emocional da ação”, brasileiros dividiriam o mundo entre amigos e inimigos, onde apenas os vínculos pessoais e sentimentais seriam levados em conta. Esse modo de atuação tende a comprometer as possibilidades de cooperação mais amplas, necessárias para planos mais ambiciosos e de maior complexidade, o que poderia então explicar nosso subdesenvolvimento – caso fossem verdadeiras as suposições dessa teoria.


Certas ou erradas, as crenças compartilhadas ao redor de teorias como essa acabam por guiar nossos comportamentos, pois humanos não agem apenas por instinto. O comportamento humano depende de ideias a respeito da própria natureza do comportamento humano. Alguns cientistas sociais chamam essa dependência de “cerne cognitivo”. Assim, uma vez que teorias são disseminadas de maneira persuasiva, sendo consciente ou inconscientemente assimiladas por amplas parcelas, elas acabam modulando uma crença geral e compartilhada que influencia, em uma medida grande ou pequena, os nossos comportamentos. Ideias e teorias, em suma, importam.


Conforme argumentou recentemente meu parceiro deste portal, o que algumas teorias enfatizam como peculiaridades da cultura brasileira, na verdade são elementos encontrados em todas as culturas de que se têm notícia (veja aqui). Não há razões, portanto, para acreditarmos que brasileiros são corruptos por natureza ou incapazes de regularem seus comportamentos racionalmente e por meio de valores impessoais – ao menos não de forma que indivíduos de outros lugares também não possam.


Acadêmicos e cientistas, por exemplo, tanto no Brasil quanto em outros lugares, regulam seus comportamentos por valores racionais e impessoais de verdade, subordinando suas conclusões a argumentos lógicos e demonstrações públicas de evidências, escrutinadas por desconhecidos, muito frequentemente conectados entre si por interações impessoais. No dia-a-dia da prática acadêmica, elogiam-se ou criticam-se publicamente obras de autores desconhecidos, independente de quaisquer vínculos de amizade ou inimizade.


No Brasil, como em outros lugares, não passaria pela cabeça de um acadêmico sério se perguntar se este ou aquele autor seria mau caráter ou boa gente, ou ainda se suas ideias estariam em conformidade ou em contrariedade com as ideologias deste ou daquele grupo político. Em todos os lugares, isto é algo que simplesmente não vêm ao caso. Como aprendem todos os acadêmicos desde os primeiros dias de iniciação científica, discordâncias não são insultos e críticas não revelam deslealdades. Obediência e deferência são qualidades alheias ao universo da ciência.


Cedo ou tarde, todos os grandes mestres serão um dia refutados, por mais geniais que suas conclusões tenham parecido um dia. Não por acaso, uma brincadeira em ambientes acadêmicos é a de que uma carreira científica bem sucedida é aquela em que o reconhecimento antecede a morte. Pois a morte é a única garantia de que um acadêmico não verá sua obra ser superada por gerações mais jovens, dotadas de ímpeto e ambição, e ainda melhor equipadas. Ao menos em tese, portanto, importa apenas a pertinência ou impertinência das ideias, isto é, as suas capacidades provisórias de resistir ao implacável tribunal acadêmico das provas e verificações.


Tudo isso talvez parece banal, mas pode ser especialmente importante nos dias que correm. A chamada “cultura do cancelamento”, por exemplo, tão em voga, incentiva o rompimento dos laços de convívio com quem expresse convicções diferentes. É o sintoma de uma época, que não começou ontem. O resultado é a impossibilidade do confronto público e pacífico das divergências, o que empobrece nosso repertório argumentativo e estreita nosso horizonte intelectual. A degradação das condições para a sociabilidade democrática é apenas mais um efeito colateral inevitável. Nesse sentido, o ideal de impessoalidade racional e do confronto público de divergências que anima o mundo acadêmico oferece uma rica lição.


Por ser exemplo e lição, é importantíssimo que os ideais do mundo acadêmico resistam a espiral de politização exacerbada que afeta nossos tempos. A ciência e as universidades não têm partido, embora os professores e os cientistas possam ter. Em todo caso, porém, acadêmicos devem se esforçar o mais possível para edificar fronteiras entre suas convicções políticas e suas práticas profissionais. Conforme velhas palavras de um conhecido sociólogo alemão, ciência e política são duas vocações diferentes.


Tendo muitas ou poucas convicções políticas, sendo grande ou pequeno seu engajamento em quaisquer causas, o acadêmico não deve nunca ser um militante em tempo integral, sob o risco de subordinar a ciência à política, privando toda a sociedade de um dos nossos últimos bastiões de racionalidade. Seria uma dupla tragédia: para o mundo acadêmico, que renunciaria as próprias condições de possibilidade da ciência, mas também para o mundo político, que estaria privado das extraordinárias ferramentas que a ciência pode oferecer.

Parâmetros que presidem a vida política, enfim, não são e não podem ser os mesmos que presidem a vida intelectual. Mais que isso, é a esfera da política quem deve plasmar certos modos de ação da esfera acadêmica e não o contrário. Nenhuma conclusão é definitiva, assim como todas as opiniões podem e provavelmente serão revisadas. Isto é verdadeiro para a ciência, mas deveria ser também para as ideias políticas. Expor-se a ideias divergentes é um exercício geralmente incômodo, mas também sempre saudável.


Desarmado de convicções irredutíveis graças à exposição ao debate público, o ódio não tem remédio se não ceder terreno à tolerância fraternal e aos aprimoramentos graduais que apenas as ideias mais sofisticadas podem promover. A sofisticação das ideias, porém, depende de críticas e questionamentos, sem o que equívocos podem ser indefinidamente reproduzidos como acertos.


Se você é do tipo que rompeu relações ou cancelou pessoas das redes sociais por terem ideias divergentes das suas, fortaleça o espírito e reconsidere a decisão. Esta é uma atitude que prejudica a todos, cancelados e canceladores, que igualmente se privam do acesso recíproco a ideias e valores divergentes. Um mundo permeado de pensamentos homogêneos e consensuais pode ser mais cômodo e confortável, mas é também mais pobre, além de politicamente mais perigoso.

61 visualizações

Formulário de Inscrição

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn

©2020 por Temperança política. Orgulhosamente criado com Wix.com