PEDAGOGIA DO (ELEITOR) OPRIMIDO

Atualizado: Jun 12


Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


Quando se diz que a pedagogia sintetizada por Paulo Freire não pode ser reduzida a um método, o objetivo é enfatizar que sua contribuição é mais vasta que isso. Não devemos, no entanto, negligenciar a objetividade eficaz das etapas de cooperação intelectual sistematizadas pelo mestre brasileiro. Em sua origem, como se sabe, método significa caminho. O percurso delineado para a produção coletiva de conhecimento, nos "Círculos de Cultura" onde esta pedagogia se constituiu, é o mais eficiente de que dispomos. Apliquemos os procedimentos metodológicos freireanos ao itinerário educacional da sociedade civil brasileira, até as eleições presidenciais de 2022.


“Inventário dos temas geradores” é como Freire denominou a operação inaugural que necessitamos levar a curso. Se nos esforçamos por recrutar mais eleitores para nosso candidato estamos empenhados, em última análise, no estabelecimento de um processo educacional – às vezes, com intencionalidade pedagógica cruzada, com ambos os interlocutores aspirando à persuasão recíproca. Quando iniciamos uma interação social com tal objetivo são os valores, ideias, atitudes e práticas de nossos interlocutores que oferecem o ponto de partida para o diálogo. As categorias de pensamento e as disposições práticas deles precisam compreender o núcleo ao redor do qual o saber se amplia em gravitação espiral. “Corrupção”, “Roubo”, “Comunismo”, “Segurança Pública”, “Saúde”, “Educação”, “Emprego”, “Trabalho”, “Covid”, “Vacina”, “Cloroquina”, “Aborto”, “Homoafetividade”, “Religião”, “Empreendedorismo” e “Prosperidade” (estas duas últimas, para larga parcela dos eleitores, associadas a “Bênçãos de Deus”) expressam hoje alguns dos principais “temas geradores” – por que a partir deles pode-se entabular conversa que gere novas bases de compreensão política.


A segunda etapa enfatizada pelo patrono da Educação Brasileira se refere à “codificação dos temas geradores”. Trata-se da apresentação das ideias inventariadas sob um código sintético. Nas salas de aulas, é comum o emprego do código imagético, teatral, audiovisual. O importante aqui é suscitar o diálogo a partir de um padrão comunicacional que coloque o tema em termos concretos e existenciais; portanto, de modo mais vivencial do que os procedimentos analíticos do pensamento crítico poderia proporcionar. A evocação de um episódio da vida cotidiana que coloque em movimento os problemas éticos e políticos que serão avaliados no pleito eleitoral nos oferece um exemplo estratégico.


Diferente do Movimento de Educação de Base no interior do qual Paulo Freire praticou e formalizou sua proposta, em um período histórico no qual a política dificilmente era objeto de conversações cotidianas, a vida pública contemporânea dedica grande parcela do tempo aos assuntos de nossa polis continental, articulada pelas novas tecnologias. De modo que, o investimento no inventário e codificação dos temas geradores, que antes exigia grande esforço, é hoje substituído pela expressão espontânea das opiniões. E temos evoluído! Enquanto, entre 2015 e 2019 mais ou menos, os debates se assemelhavam a lutas de vale-tudo e terminavam com a eliminação virtual do oponente, nas redes sociais, e a inimizade doravante, tem se tornado agora mais comum uma introdução à réplica nos seguintes termos: “lhe respeito muito, mas...” A guerra civil cansa e oferece espaço ao diálogo.


Dialógico é o espírito da Pedagogia Libertadora. A “decodificação dos temas geradores” é o terceiro momento dela. Trata-se precisamente de dialogar em torno do assunto. Diálogo, lembremos, é comunicação entre dois interlocutores ativos, daí sua diferença com relação ao monólogo. Por definição, este modo de interação verbal – mas também gestual – precisa conferir o mesmo estatuto de direito às enunciações vindas dos dois lados. Paulo Freire insistiu muito no respeito ao saber e à inteligência do educando.


Decodificar aqui corresponde a analisar, considerar seriamente as implicações das opiniões, em todos os seus detalhes, mas de modo amoroso; jamais emitindo juízos de valor contra o sujeito da enunciação. Ao contrário, o educador genuíno compreende que poderia pensar igual ao opositor, caso submetido às mesmas condições de existência sob as quais este se encontra. A contribuição fundamental do estruturalismo de Lévi-Strauss foi tratar a diferença como caso particular da semelhança. A característica que nos incomoda em outrem pode ser reduzida a estruturas universais que presidem nossos próprios caracteres. Com efeito, somente mediante a ênfase sobre as semelhanças entre eu e o outro, diferente de mim, posso reduzir o campo das diferenças e produzir consensos – e esta é única forma de persuadir alguém a votar em meu candidato.


Penso que temos hoje dois, e somente dois, tipos de eleitores no Brasil; ambos oprimidos. Os da situação são oprimidos pelo temperamento necrófilo, conforme Pedagogia do Oprimido o descreveu, sob inspiração de Erich Fromm. Nem todos são necrófilos, bem entendido, mas possuem disposições práticas e sensoriais forjadas na onipresença da morte – das senzalas às favelas. Os eleitores da oposição se encontram oprimidos pela indignação desesperada e pela arrogância intelectual – sentimentos que paralisam seu potencial biófilo. Para todos, portanto, a campanha eleitoral precisaria ser estruturada a partir da relação educativa aqui recordada.


É bom considerar que à vacinação concluída se seguirá alguma recuperação da economia, a despeito do influxo demolidor de Paulo Guedes. A percepção geral plasmada pela combinação entre redução das mortes e elevação do nível de empregos pode garantir o segundo turno a um presidente que conta, no pior momento da crise e em meio a uma CPI, com 25% de bom e ótimo. Só a fraterna entre os derrotados e os arrependidos de 2018 pode encorajar novas transições da necrofilia à biofilia, para isolar quem precisa de fato ser derrotado.



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