OS ESTUDANTES QUE NÃO ESTUDAM


Cleber Dias


Junto ao portão da principal entrada de uma das maiores universidades do país, a UFMG, uma associação estudantil manifestava seu desejo de não estudar: “estudantes da UFMG contra o ensino remoto”, dizia a faixa, já retirada. A faixa me deixou perplexo, confesso. Onde, quando e como se perderam os estudantes?


Aulas presenciais no campus foram impedidas por uma pandemia. O local é especialmente sensível a propagação de um vírus, dado as taxas de aglomeração e a ampla mobilidade de seus frequentadores, que vêm e vão para diferentes cidades e países. As universidades tinham então duas alternativas: cruzar os braços, fingindo que o problema não era delas, ou fazer tudo o que pudessem para seguir suas atividades de ensino e pesquisa, cumprindo seu papel social, econômico, político e civilizatório.


Não obstante as objeções de alguns estudantes, que abdicaram com espantosa facilidade do relevante direito à educação, a UFMG retomou as aulas remotamente, tal como todas as demais universidades do país.


Todavia, passaram-se mais de quatro meses entre a interrupção das atividades presenciais e a decisão de retomar as aulas remotamente, talvez pela expectativa, que afinal se mostrou errada, de que a crise demoraria menos do que demora. Foram mais de quatro meses de uma omissão equivocada. Visto em retrospecto, quando sempre fica mais fácil julgar decisões tomadas em meio a um cenário de confusão e incertezas, as aulas remotas deveriam ter sido iniciadas imediatamente após a interrupção das atividades presenciais.


Antes tarde do que nunca, porém. Apesar da demora, a decisão de seguir com as aulas e todas as demais atividades acadêmicas remotamente representa a eleição da educação e da ciência como serviços essenciais que não podem de forma alguma ser interrompidos. Aulas e pesquisas devem seguir acontecendo, seja como seja, custe o que custar.


Instituições de ensino e pesquisa estão para o Brasil como a torre de controle está para um aeroporto: não podem falhar nem por um segundo. Em outros lugares, cientistas e intelectuais talvez possam se dar ao luxo de interromper suas atividades por alguns meses na espera de uma vacina, ocupando-se, enquanto isso, de jardinagem ou palavras-cruzadas. Para nós, no entanto, ciência e educação são necessidades urgentes e cada vez maiores. Já eram antes da pandemia e serão ainda mais depois. Aqui, não podemos nos dar certos luxos. As universidades brasileiras e seus acadêmicos simplesmente não podem faltar.


Enquanto isso, as escolas do ensino básico da rede pública de ensino estão ainda fechadas. De todos os custos materiais e humanos dessa pandemia, possivelmente resultará daí uma das suas mais profundas consequências, embora agora, no curtíssimo prazo, quase não se note. Uma geração de filhos e filhas de famílias pobres estará mais sujeita do que já estava ao subemprego ou a criminalidade. Para nomear a tragédia, cientistas sociais brasileiros falam já da “geração covid”. Possivelmente conviveremos com essa geração por muitos anos, quando encontrarmos os entregadores, as empregadas domésticas, os vendedores ambulantes ou os assaltantes, em ocasiões onde poderemos relembrar a nossa inação e apatia geral com relação a educação.


A decisão de seguir com as escolas fechadas, sem nenhuma preocupação ou esforço para ao menos tentar e buscar maneiras de reabri-las parcialmente que fosse, representa a eleição da educação básica como o mais supérfluo dos serviços – depois dos bares, dos restaurantes, dos teatros, dos cinemas, dos clubes, dos salões de beleza, dos shoppings centers, das academias de ginástica e dos puteiros. Onde, quando e como se perdeu o entendimento, que já animou obstinadamente algumas de nossas melhores cabeças, de que educação é essencial?

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