O RESPEITO DEVIDO AOS MORTOS


Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


O sofrimento da morte pode se fazer mais suportável quando se retém em mãos firmes seu sentido. Centenas de milhares de óbitos por Covid poderiam ter sido evitados no Brasil? Não há dúvida que sim. Diante do fracasso, que significado ele assume? O que a sociedade civil poderia ter realizado, no passado recente, para evitar o morticínio? Encontrou-se o objetivo concebido ao se destilar tanto ódio na vida política? Logrou-se com isso eleger um líder competente para gerir uma crise sanitária de proporções globais? Foi prudente fazer de um caso de saúde pública objeto de hiperpolitização?


Eis as questões que podem não apenas conferir valor simbólico correto às mortes, mas também honrar o nome de cada vítima, engendrando positividade futura. Se doravante os brasileiros abandonarem a acrimônia para, fazendo-se povo, dialogarem sobre as necessidades reais do país, nossos inumeráveis irmãos não terão morrido em vão! Importa conceder-lhes o devido respeito, assumindo a necessária gravidade de atitude que os tempos exigem. E existem evidências de que isso ocorrerá!

Tenho a impressão (meramente subjetiva, é verdade) de que nossos profissionais de saúde, renunciando à própria segurança, nunca lutaram de modo tão enfático por preservar vidas! Por vezes, ventilando literalmente com as próprias mãos pulmões adoentados, em meio ao pesadelo da falta de oxigênio. Estou longe de sugerir que não o fizessem antes. Mas a proximidade da morte faz cair por terra o verniz dos privilégios nobiliárquicos do diploma, igualando, pela verdade da fragilidade humana que a ilusão do prestígio distinguira, paciente e médico.

A própria categoria do magistério a que pertenço, talvez jamais tenha considerado tão seriamente as limitadas condições econômicas para o aprendizado de seus estudantes quanto agora, sob o regime remoto domiciliar! As abstrações cognitivas exigidas pelos conhecimentos curriculares dependem de meios de sublimação da energia psíquica que incluem a garantia dos recursos mínimos de subsistência biológica. Ora, os fundos das imagens de cada jovem, estudando em casa, durante uma vídeoconferência, não falam apenas sobre suas realidades habitacionais; eles gritam a desigualdade social que se replica em cada bem material ou simbólico, concentrado ou mal distribuído, sem qualquer respeito às leis de simetria! Pela primeira vez na história, mesmo aqueles professores que desprezam as Ciências Humanas em suas licenciaturas não podem cegar-se frente ao horizonte comparativo da precariedade estampada em sua tela!

Na semana passada, outro braço do Estado – qual seja, do extermínio racista, que forma par com a mão paralítica do desdém frente à pandemia – nos subtraiu 28 vidas, no Jacarezinho, que partiram deste solo ingrato junto às baixas por Covid. Mais um fracasso de responsabilidade coletiva! É a este povo cotidianamente visitado por carontes fardados que a classe média escolarizada exige medo da morte e Lockdown. A estes cujos direitos constitucionais à habitação, saneamento, trabalho, lazer, saúde, educação e assistência social são sistematicamente negados!

A indiferença frente ao genocídio secular da população negra e pobre aqui não é apenas do presidente (sic) ou de seu séquito; é de toda a sociedade civil brasileira! Quando manifestações de mães das vítimas não são ridicularizadas ou farisaicamente criminalizadas (como novamente ocorreu), é a banalização o modo regular de tratar as notícias sobre massacre policial nas favelas. Mesmo quando o estado de exceção atinge o asfalto ou lideranças políticas e justiceiros trocam provas por convicções, a indiferença segue incólume – ao menos até que os ventos da barbárie soprem na sua própria direção. Argumenta-se com falsídia que não haviam inocentes entre os assassinados, olvidando-se que a civilização se caracteriza pela supressão da pena de morte e pela garantia de um julgamento idôneo ao criminoso.

O que dizer a estas mães? Há um meio de mitigar sua dor? Uma ideia poderosa é com frequência mencionada pelos que choram por justiça. Os filhos destas mães são os Cristos crucificados de hoje! Tais qual Jesus, são contados entre os malfeitores. E, no entanto, é o país inteiro que lhes perpetrou o crime de lesa humanidade, fechando-lhes todas as portas, com exceção das portas largas do comércio incumbido de suprir o ópio das elites brancas. Ou as portas, igualmente dignas do mercado, dos falsos templos e dos falsos profetas, sacerdotes da idolatria do falso Messias.

Mas os crucificados do Jacarezinho serão honrados pela história humana! Cada vez menos os mártires brasileiros, deserdados de sua pátria, passarão em silêncio! As vozes que se erguem para os reverenciar se farão mais numerosas que o número dos que foram levados pela indiferença e pelo ódio! E seguirão crescendo, até que a vacina da igualdade vença o vírus do escravismo, que nos traz incontáveis óbitos há mais de meio milênio!


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