O QUE É LAZER AFINAL?


Cleber Dias


Um dos primeiros assuntos usualmente abordados nas discussões sobre os estudos do lazer é o seu conceito. O que é lazer afinal?


Discussões sobre esse tópico tiveram início junto com a própria formação de um campo de estudos especializados sobre o assunto, entre as décadas de 1950 e 1960. Nessa época, depois de atuar em investigações sobre o trabalho, pesquisadores foram notando a importância de considerar o lazer para uma compreensão mais ampla e adequada não apenas do trabalho, mas também das dinâmicas sociais de modo geral. Conforme percepção desses pesquisadores, já naquela época, o lazer afetava o trabalho, tanto quanto o trabalho afetava o lazer, de tal modo que seria insuficiente tentar analisar um desses aspectos, sem analisar o outro. Assim, como estratégia para ampliar e aprofundar o entendimento sobre o mundo do trabalho, foi surgindo uma crescente disposição entre esses acadêmicos pelo aprofundamento em pesquisas especialmente dedicadas ao lazer.


No momento em que tais conclusões eram apresentadas, porém, o lazer não era ainda um objeto de pesquisa com direito próprio, mas apenas um desdobramento do mundo do trabalho. Nessa época, conforme aponta a socióloga Lucie Tanguy (no livro “A sociologia do trabalho na França”), o trabalho era visto como “matriz dos fatos sociais”, isto é, o índice fundamental a partir do qual supunha-se poder deduzir o funcionamento de toda a estrutura social.


Em 1956, porém, durante um congresso da Associação Internacional de Sociologia, realizado naquele ano em Amsterdã, pesquisadores propuseram a criação de um Comitê de Pesquisa em Lazer, no que é considerado um marco histórico importante para a formação de um campo de estudos autônomo e especializado no assunto. Desse momento em diante, um conjunto de problemas especificamente voltados ao lazer seria crescentemente abordado por diversas pesquisas. Como consequência, a definição de um conceito para o lazer parecia cada vez mais urgente, pois pesquisas comprometidas com objetos tão particulares acabam por impor perguntas sobre fronteiras e especificidades. No que exatamente um comitê de pesquisa em lazer diferenciava-se de um comitê de pesquisa em trabalho? Onde e quando terminava o trabalho e começava o lazer?


Todo campo de estudos precisa definir o objeto que é capaz de distingui-los dos demais, bem como circunscrever os limites de suas conclusões. Isto é especialmente importante diante de tentativas de criar um domínio de estudos especializado. O que difere o especialista em lazer do especialista em trabalho por exemplo? É preciso um fundamento para que esses especialistas não façam parte da mesma especialidade, justificando, assim, a própria existência de campos de estudos autônomos, cada um dos quais com suas respectivas comunidades, associações, periódicos, comitês de pesquisa, grupos de trabalho, canais de financiamento e esferas de consagração. Assim é que um esforço de definição conceitual tem lugar também no que diz respeito ao lazer.


Todavia, afora o fato de concordarem sobre a necessidade e a pertinência da existência de um campo especialmente dedicado ao lazer, os especialistas no assunto divergem bastante a respeito da definição conceitual do fenômeno que lhes ocupa. Muitas páginas já foram escritas a fim de oferecer uma definição de lazer, embora nunca tenha existido um conceito único, definitivo ou consensual. Antony Veal lista 20 definições diferentes de lazer (no artigo Definitions of Leisure and Recreation, no Australian Journal of Leisure and Recreation, v. 2, n. 4, p. 44-48, 1992). O número certamente pode ser ampliado.


Para alguns, tamanha pluralidade de definições equivale a inexistência de definições. Segundo essa perspectiva, na medida em que um mesmo conceito pode ser usado para descrever atividades tão diferentes, ao mesmo tempo em que os significados atribuídos as noções encerradas por esse conceito mostram-se tão variados, quase tudo pode ser lazer, ao mesmo tempo em que quase nada o é de fato. Diante de tanta diversidade de significados e ausência de consensos, não surpreende que vários pesquisadores tenham apontado – e continuem apontando – para a necessidade de estabelecimento de definições. A pergunta, portanto, segue animando a tribo: o que é lazer afinal?


Tanto as queixas e reinvindicações sobre a necessidade de se edificar uma definição conceitual de lazer, quanto as tentativas de fazê-lo, partilham da suposição de que é possível identificar, nomear e classificar a realidade social com precisão, distinguindo claramente fenômenos de diversas ordens. Nesses termos, acredita-se possível estabelecer uma fronteira clara e bem delimitada entre o que é lazer e o que não é. Costumo referir-me a essa suposição como “ilusão taxionômica”.


Uma crítica a essas abordagens é a de que, afinal, não é possível edificar fronteiras tão rígidas entre diferentes domínios da realidade social. Na prática, pode ser difícil, se não impossível, estabelecer o momento em que começa ou termina o lazer. Nem todo trabalho é organizado com estabilidade, rigidez e previsibilidade, de modo que as fronteiras entre os tempos sociais podem ser bastante fluídas, a ponto de não ser possível identificar claramente uma organização tão estruturada das diferentes ocupações. Dependendo do contexto, a organização dos tempos pode estar subordinada a lógicas onde haja fluidez entre trabalho, descanso e lazer. Nesse sentido, o fato das definições mais usuais e correntes sobre lazer estarem baseadas no estudo de universos bastante particulares, como trabalhadores do setor industrial dos países ricos por exemplo, as torna em certa medida incapazes de serem aplicados indistintamente a contextos e circunstâncias às vezes muito diversos.


Outra crítica relevante e talvez mais complexa a essas abordagens taxionômicas ou ilusionistas é a de que uma separação entre senso comum e definição conceitual “científica” não é apropriada. Em sentido contrário, de acordo com essas críticas, os conceitos que orientam a observação da realidade social não apenas podem, como devem ser fornecidos pelo senso comum, uma vez que é a apreensão e inteligibilidade desse tal senso comum o que está em jogo no esforço “científico” das Ciências Sociais. Nesse sentido, para levar a reflexão às suas últimas consequências, a própria oposição entre senso comum e conhecimento científico seria então inadequada.


Assim, sem supor que as definições de uso corrente ou de senso comum estão erradas por princípio, um estudo sobre o modo usual como o lazer é conceituado pode ser útil. De que maneira o lazer é definido segundo acepções usuais e corriqueiras da própria língua portuguesa? Segundo definições de dicionários, lazer é “tempo livre” ou “ócio”. Ócio, por seu turno, é definido como “folga do trabalho”, “repouso”, “lazer” ou ainda como “descanso”. Descanso, então, aparece como “ação ou efeito de descansar”, “cessação do trabalho”, “folga”, “repouso” e “ócio”.


Já aqui vemos que os significados de cada uma dessas palavras remetem umas às outras, criando uma espécie de circuito fechado, onde lazer é ócio, ócio é descanso e descanso é lazer. Podemos ainda ampliar este circuito, acrescentando-lhes outras palavras. Correlata ao descanso, pode-se citar a festa, definida como “solenidade”, “cerimônia com que se celebra um fato”, “comemoração” ou “dia de descanso”. Dentro ainda do universo de significados do descanso (portanto do lazer ou do ócio), pode-se citar também a recreação, definida como “ocupação agradável para descanso de um trabalho e recuperação de forças para a sua continuação”. Ainda no mesmo circuito, só que agora ligeiramente ampliado, incluindo já descanso-ócio-lazer-recreação, podemos seguir com divertimento, que aparece como “recreação”, “ato ou efeito de divertir”, “distração” ou “entretenimento”. Entretenimento, por seu turno, é definido como “ato de entreter”, “distração”, “divertimento” ou “passatempo”. Passatempo, de sua parte, aparece como “entretenimento ou ocupação ligeira e agradável”.


Assim, limitando-nos apenas ao modo como esse pequeno conjunto de palavras são definidas nos seus usos correntes, sem a pretensão de tentar inventar novos significados ou novas palavras, vemos que lazer é ócio, ócio é descanso, descanso é lazer ou também festa. Festa, por sua vez, é recreação, recreação é divertimento, divertimento é entretenimento, entretenimento é passatempo e passatempo é entretenimento. Seguimos no mesmo circuito fechado, só que agora estendido, abrangendo descanso-ócio-lazer-recreação-divertimento-entretenimento-passatempo, que poderia ainda assimilar as palavras jogo ou brincadeira, definidas como “entretenimento” ou “atividade recreativa que tem por finalidade entreter, divertir ou distrair”.


Cada uma dessas palavras e todas em conjunto remetem a um mesmo campo semântico, isto é, um universo de palavras relacionadas, que descrevem um conjunto de experiências comuns. A preferência pelo termo lazer, em detrimento dos demais, que são sinônimos afinal, explica-se tão somente pela existência de uma tradição acadêmica. Desde a década de 1960, aproximadamente, pouco a pouco constituiu-se um campo de estudos internacional e interdisciplinar especializado em lazer, mas não em ócio, em passatempo ou divertimento. A rigor, não há, nem nunca houve, estudos do ócio (idle studies), do passatempo (pastime studies) ou do divertimento (amusament studies), como há um campo dos estudos do lazer (leisure studies). Não há departamentos universitários, associações científicas, periódicos acadêmicos e congressos regulares especialmente dedicados ao ócio, ao divertimento ou a brincadeira. A tentativa recente de pesquisadores brasileiros, influenciados por estudiosos espanhóis do lazer, de tratarem o ócio (que é como se diz lazer na Espanha) como algo diferente, é apenas parte da mesma ilusão taxionômica, que só faz ampliar velhas confusões e criar outras novas. Tudo isso é desnecessário e desvia a atenção da comunidade dos assuntos realmente relevantes. Dito de outro modo, o campo de pesquisas dedicado aos modos de ocupação do tempo livre elegeu, de modo mais ou menos arbitrário, o termo lazer em detrimento de todas as outras possibilidades conceituais, que em tese e a princípio poderiam ter sido assimiladas, mas não foram.


Mais do que o significado meramente vernacular, entretanto, o que as pessoas comuns dizem entender por lazer reforça a compreensão desse termo como um sinônimo de diversão, sem a necessidades de distinções adicionais ou outros malabarismos. Pesquisa coordenada por Helder Isayama e Edmur Stoppa (no livro “Lazer no Brasil: representações e concretizações das vivências cotidianas”), que aplicou questionários em regiões metropolitanas brasileiras, tinha como uma das perguntas aos entrevistados o que se entendia por lazer. A maioria respondeu diversão. A representação majoritária sobre lazer no Brasil, portanto, é coerente com aquelas sugeridas pelos dicionários. Porque seria diferente? Brasileiros pensam, sonham e falam em português, não em dialetos forjados artificialmente por teorias sociais confusas.


O propósito de uma teoria é oferecer uma explicação para certos aspectos da realidade. Do mesmo modo, o propósito de uma formulação conceitual é descrever, sinteticamente, alguns dos aspectos mais relevantes ou proeminentes da realidade. Quando as teorias ou os conceitos afastam-se da realidade que deveriam explicar ou descrever, há nisso um problema grave, que está obviamente nas teorias, não nas realidades.


Nesse sentido, o entendimento de que há diferenças conceituais significativas entre lazer, recreação, ócio, divertimento ou qualquer outro desses correlatos, quando na verdade não há, deve ser abandonado em favor de uma definição menos presunçosa e mais próxima do senso comum. Lazer faz referência a um campo semântico que apesar de amplo e mais ou menos impreciso, é também facilmente discernível. Intuitivamente, mesmo sem a ajuda de glossários ou manuais de sociologia, todos nós sabemos quando estamos ou não gozando momentos de lazer. Lazer é o que se faz voluntária e deliberadamente para buscar diversão, entretenimento ou descanso, o que acontece muitas vezes, mas não sempre, fora dos momentos de trabalho. Trata-se de uma definição sumária e genérica para um conjunto heterogêneo de atividades, desde ir às compras como uma forma de passeio, estar no bar com amigos, receber em casa a visita de familiares, frequentar uma igreja, praticar esportes ou viajar. Dito de maneira simples e direta, lazer é tão somente sinônimo de recreação, ócio, descanso, diversão, entretenimento, passatempo, jogo, brincadeira e tempo livre. O resto é chorumela.

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