O PROTAGONISMO COADJUVANTE E O YOM KIPUR BRASILEIRO


Wecisley Ribeiro do Espírito Santo



O grande dia do Jubileu brasileiro se avizinha no horizonte! O dia da repactuação! A festa da democracia, da justiça, do amor ao próximo! Do arrependimento pela rendição ao ódio e ao rancor! Era preciso que as energias negativas fossem levadas ao paroxismo para enfastiar a sociedade civil! Nosso povo, que apenas olvidou por um átimo histórico seu temperamento caridoso, anseia por pacificação! No cotidiano, na política, na economia, na cultura, na religião.



Gregory Bateson, antropólogo que gosto de lembrar com frequência, apontou dois fatores capazes de evitar uma cisão social – ou revertê-la acrescento por minha conta. Um deles é o advento de um inimigo externo. O coronavírus tem desempenhado este papel de modo infrutífero, em nosso país. Ao contrário, as estratégias para o enfrentamento da Covid-19, entre nós, se inscreveram no círculo infernal da hiper-política.



O segundo elemento pacificador, apontado por Bateson é um jubileu. Uma festa identitária, a comemoração de data histórica relevante ou a celebração de um valor compartilhado. E, de fato, estamos em vias de comemorar a grande festa da democracia! O ano marcado é 2022.



Três fatos políticos recentes nos oferecem os sinais precípuos do tempo. 1- O ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, admitiu que o Partido dos Trabalhadores pode não ter candidato próprio nas eleições presidenciais de 2022, em benefício do apoio a outra legenda. 2- Seu correligionário de partido, o governador do Estado da Bahia, Rui Costa, defendeu alianças até mesmo com o Partido da Social Democracia Brasileira e com o Democratas, em defesa da democracia. 3- A ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, e o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, concordaram que uma frente ampla, que reúna os partidos “ao redor da Constituição, pelo menos, ou da desigualdade” (FHC), deve ser desenhada desde este ano, visando 2022.



Os dois primeiros apontamentos, caso se concretizem, darão mostra de grandeza ética, política e reflexiva do Partido dos Trabalhadores! Sua condição demográfica, de legenda com a maior base eleitoral convicta do país, se revestiria de natureza qualitativa, incorporando densidade estadista e largueza de perspectiva histórica! Há mesmo quem cobre há tempos esta atitude do PT. Mas o gênero de renúncia que lhes querem impor de fora é para seres humanos muito singulares! A maior parte dos que assim pensam querem impor um fardo que, desconfio, não moveriam um dedo para erguer! É preciso tempo para convencer um partido desta magnitude, com os êxitos administrativos que obteve, a sair do proscênio.



Especialmente de Lula é exigido um desapego cujos proponentes estão longe de exemplificar; mesmo em esferas de micro-poderes insignificantes frente à cadeira presidencial! Mas Lula é, de fato, sujeito singular e pode, quero acreditar, ceder a outrem o espaço que soube ocupar melhor que os demais. Mais que isso, desejo ainda crer, pode desempenhar relevante papel de convencimento, junto a seus companheiros de partido, acerca da necessidade de adentrar um pouco, por assim dizer, uma penumbra luminosa. E há tarefa ainda mais difícil que talvez apenas Lula possa realizar – a saber, persuadir os segmentos mais à esquerda no espectro político da importância atual da humildade e da coalizão em torno do avanço possível da democracia. Como grande ator histórico que sempre foi, coube a Lula um protagonismo dos mais determinantes, no presente: qual seja, fazer-se coadjuvante.



Evadir-se da cabeça de chapa é condição de possibilidade da frente ampla e tarefa histórica transformadora que somente o PT pode realizar! De fato, a coalizão de amplos segmentos das forças políticas brasileiras deverá ter um efeito muitíssimo mais benéfico que a mera vitória em 2022. Trata-se de pacificar a vida social do país. De recuperar o sentido da política como arte de mediar conflitos de interesses por meios pacíficos e racionais. De finalmente vislumbrar o objetivo que deu vida a este site; o Anelo por Fair Play!



Há um risco nesta aposta. A frente ampla será aproveitada pelo marketing da situação como uma prova de que o atual presidente é o único diferente, o a-político não contaminado pelo sistema viciado, que não o permite governar. As forças democráticas precisarão aqui, antes de tudo, tomar o cuidado de não incorrer n“O erro estratégico da luta contra Bolsonaro”!



Mas há antídotos disponíveis na própria ideia da frente ampla. O melhor deles é o apelo aos valores cristãos que, sofisticamente foram instrumentalizados para constituir a base que elegeu o governo. Está em jogo a união, o diálogo pacífico, a anistia; em suma, o Yom Kipur do Levítico e do Deuteronômio, isto é, o dia do Senhor! O Yom Kipur dos textos bíblicos institui o perdão aos devedores, a reconciliação entre inimigos, a coesão entre as doze tribos de Israel. Trata-se de ciclos de sete (sete anos, sete décadas, sete séculos, sete milênios) ao final dos quais Deus perdoa os pecados dos humanos, exortando-os igualmente ao perdão recíproco. O maior Yom Kipur da Bíblia é a ressurreição do Cristo e a libertação da humanidade!


É precisamente os passos do Cristo que se trata de seguir e sentar à mesa com aqueles a quem julgamos “pecadores” – sejam eles do DEM ou do PSDB. Mais que disputar a exegese bíblica como se disputa as teses políticas – tarefa histórica que tenho defendido insistentemente, neste portal – será necessário viver a mensagem de respeito à alteridade que está no cerne das escrituras monoteístas! A base governista cimentou-se com o ódio instilado por falsos profetas. A frente ampla pela democracia ecoará nos corações e mentes envenenados, oferecendo-lhes o necessário antídoto.



Células cancerosas não sobrevivem por muito tempo em um organismo dotado de excelente capacidade de respiração celular. O sopro da democracia há de renovar o tecido social brasileiro! E, em 2022, a exemplo das milhões de fênix oncológicas que sobrevivem aos tumores e nos oferecem inspiração para os dias difíceis, nos ergueremos mais fortes e solidários, para celebrar a cura de um país continental!






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