O LAZER PODE SALVAR O MUNDO


Cleber Dias


Todo o edifício da teoria política é sustentado na suposição de que seres humanos são naturalmente racionais. Nesse sentido, reações passionais deveriam ser recalcadas da cena política. Não é o que vemos na prática, todavia. Tente persuadir alguém com opiniões políticas divergentes através do apelo a dados mais ou menos objetivos e ele provavelmente sequer tentará ouvi-lo. O escrutínio da razão não é o forte da política atual.


Em sentido contrário, o vocabulário político contemporâneo é saturado de palavras como ódio, raiva ou medo. O léxico das emoções não é fortuito. Alguns analistas têm falado em “políticas dos afetos”, a fim de descrever o uso dos sentimentos como estratégia privilegiada de mobilização. O psicólogo Manos Tsakiris, professor da Universidade de Londres, dá um passo adiante e fala de “política visceral”.


A noção de política visceral tenta sublinhar a importância das emoções na modulação do comportamento humano, incluindo aí a política. Crenças e comportamentos políticos, tal como qualquer outra atividade humana, são atravessadas por paixões e não há como ser diferente. Apenas robôs interagem com total frieza.


Nesse sentido, sentimentos e emoções afetam e são afetados pela política. Nosso corpo é literalmente um organismo interconectado com a política. Por um lado, as necessidades que julgamos ter são influenciadas pelos nossos sentimentos a respeito do mundo. Por outro lado, nossos sentimentos são modulados pelo mundo no qual estamos imersos. O mundo social, em suma, molda os nossos sentimentos, tanto quanto os nossos sentimentos moldam o modo como percebemos o mundo e a maneira como nos comportamos nele a partir dessas percepções.


Sem surpresa, grupos submetidos a ambientes de privação, violência e humilhação estarão também mais sujeitos a várias doenças e transtornos mentais. Pesquisas como as de Kate Pickett e Richard Wilkinson revelam as sólidas correlações entre o nível de desigualdade de renda e a incidência de inadaptações e transtornos, desde gravidez na adolescência até criminalidade juvenil. Com efeito, a ampla incidência de doenças como depressão, câncer ou hipertensão é o sintoma de falhas graves do sistema político. O entendimento, dito aqui e ali, de que a sociedade está politicamente doente é mais que uma metáfora. Tanto adoecimento é causado por um ambiente social e político disfuncional. As sociedades e os indivíduos que as compõem, de fato, adoecem juntos.


A noção de política visceral também questiona a dicotomia entre razão e emoção. Emoções são também formas sofisticadas de cognição, às vezes mais rápidas e eficientes que cálculos racionais. Diversas pesquisas recentes têm sugerido que aquela forma de conhecimento vago e impreciso que chamamos de intuição não apenas existe, como pode ainda operar com eficiência, embora também sejam falhas e imperfeitas. Em todo caso, emoções nos informam ou tentam nos informar sobre como e porque o mundo nos faz sentir da forma que nos sentimos, a partir do que agimos ou reagimos. Sentimentos como indignação fornecem uma poderosa motivação para a ação – nem que seja a ação de apenas apertar dois botões na urna eletrônica.

A capacidade de identificar o próprio estado d’alma, portanto, é parte fundamental da política. Tal como por vezes confundimos raiva e fome, podemos também confundir as emoções envolvidas nas nossas interpretações do mundo, no que tem consequências para os nossos comportamentos. Indivíduos ou grupos afetados por sentimentos de medo, raiva ou insegurança podem avaliar inadequadamente as causas dos problemas que lhes atingem. Indivíduos assustados, enfurecidos, ansiosos ou inseguros com relação ao futuro frequentemente desenvolvem a propensão de apoiar líderes autoritários, conforme documentam várias pesquisas de opinião em diferentes países.


Outra lição importante da noção de política visceral é que relacionamentos e interações sociais ajudam na adequada percepção das emoções e dos estados psicológicos, favorecendo, desse modo, a sofisticação da interpretação do mundo ao redor e dos processos de tomada de decisão decorrentes daí. O debate público ou o convívio social, em outras palavras, são recursos relevantes para a adequada compreensão de si mesmo, dos outros e do mundo em geral. Nesses termos, as bolhas a que estamos todos crescentemente confinados – alguns voluntariamente e ainda com entusiasmo – apenas agravam a indisponibilidade geral para o diálogo e para a busca do entendimento recíproco, sem o que nenhuma forma de convívio pacífico é possível.


É do cientista político Robert Putnam, professor da Universidade de Harvard, a observação, a princípio curiosa, de que a diminuição do número de sócios de clubes de boliche nos Estados Unidos indicava uma retração dos espaços para sociabilidade pública, no que predizia, segundo a sua tese hoje famosa, uma degradação mais geral da própria democracia. Quanto menor o engajamento em certas atividades de lazer, menos sólidos os laços de coesão social.


Trocando em miúdos, assim como a alegria é melhor do que a tristeza, a brincadeira é melhor que a sisudez, o convívio melhor que a solidão, o debate melhor que a indiferença, a empatia melhor que o ressentimento, as utopias melhor que as distopias e o amor muito melhor do que o ódio.

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