O HALLOWEEN JÁ ERA




Como sempre era dificílimo abandonar o banho! Toda a vida concebeu o chuveiro como equipamento doméstico de lazer. Durante a adolescência aquele mau hábito rendera junto aos pais discussões dignas da Ágora. "O gasto de água familiar, por pródigo que pudesse ser, era insignificante frente ao desperdício empresarial!" "Não poderia aceitar a culpabilzação de si pela questão social e ambiental da água, quando o capital especula com recursos naturais e contamina rios, reservas e mananciais!" "Não negligenciaria aquele momento de recreação e terapia, enquanto a indústria era absolvida, sacrificando os recursos aquíferos do planeta no altar do deus dinheiro!"


Há alguns meses, entretanto, o reservado para o banho tem feito jus ao nome por oferecer terreno a aguerrida batalha espiritual. Dir-se-ia uma luta de boxe, no boxe, em disputa do próprio boxe. De um lado, a fera irascível do vício por prazer e seu rugido egóico a reclamar mais meia hora de massagem eletrificada da água quente; de outro, a consciência lhe denunciando grave crime de verter água embalde (gostava dos trocadilhos e duplos sentidos, este não poderia ser mais apropriado). A argumentação lógica cedia espaço à empatia. Não se encontrava, com efeito, naquele preciso momento, um quarto da humanidade privado do acesso à água potável? Não faltava saneamento básico à metade da população mundial?


Desde o princípio, a educação foi processo lento em sua trajetória! Assemelhava-se antes a função de histerese que mera morosidade. Mas vinha obtendo êxito na luta da evolução pessoal. De equipamento de lazer a objeto de reflexão ética, de Ágora a Coliseu; sua interpretação do chuveiro se transformava, acompanhando as mudanças na interpretação do mundo. Nos últimos meses, duelara com monstros e, no entanto, jamais se sentiu tão feliz como agora! Aquele mesmo banheiro já havia sediado algumas noites das bruxas. Mas naquela manhã luminosa o sol cruzava o vitral para compartilhar com a água a tarefa de aquecer seu rosto radiante.


Súbito, adentra, pressuroso, seu molequinho de cinco anos. “Papai eu vou fazer xixi. Já está em avalanche”. “Sinta-se à vontade, meu filho!”, foi sua resposta. Jamais estariam ambos em silêncio numa tal ocasião. De modo que puseram-se a conversar. O ensejo oferecia segundos adicionais sob a água cálida.


O halloween já era, agora eu sou um cara feliz

Pois acabar com isso foi a melhor coisa que eu já fiz

Sem doces ou sangue eu vou curtir

Fantasmas, zumbis tudo vai sumir

Ninguém vai sujar com papel o meu jardiiiiiiim!


Cantarolava o menino, do lado de fora, sua ópera favorita do Capitão Cueca. Sem dúvida, filho e pai sintonizavam a mesma alegria magnética, posto que se uniram naquele concerto matinal, cantando a plenos pulmões, para desespero dos vizinhos, talvez. O pai, contudo, se mantinha um tom abaixo, como quem deseja oferecer uma moldura sonora para dar ênfase à voz do filho.


O halloween já era, o... halloween já era!

E agora eu sou um cara feliiiiiiiiiz!


“De novo, de novo, de novo”, emendou o garoto com seus reiterados apelos ao pai para repetir uma brincadeira, sempre que se divertiam daquela maneira. Naquele preciso momento, entretanto, a exultação do pai era maior! Como sempre, aprendia muitíssimo com os filhos. E o dueto de vozes havia lhe ensinado algo precioso: o significado profundo do verbo “educar”. Procurou todo o tempo manter-se em segunda voz e pôde com isso testemunhar o filho erguendo seu tom para proclamar a própria felicidade. Pode um educador encontrar maior realização?


O filho iniciou sua canção de vontade própria. Autônomo, diriam os pedagogos profissionais. A adesão do pai, seu engajamento nas questões de interesse da criança, elevou o contentamento de ambos. A subsunção sonora da voz paterna à do filho caracterizou os devidos papéis que oferecem condição indispensável de qualquer relação educativa digna do nome. Educador protagonista e educando coadjuvante são duas contradições em termos! Conceder o primado da ação ao interlocutor é compreender a fundo a natureza gentil da lógica da dádiva que se encontra na base de qualquer produção genuína de vínculo social; e sem a qual dificilmente haverá interação educativa.


No canto solo é preciso saber ouvir a própria voz. Em um dueto, quem faz a segunda voz deve ouvir, sobretudo, a voz do companheiro. Na relação entre pais e filhos, como na relação professor/estudante, as crianças e os adolescentes podem ainda se encontrar em fase egocentrada. Mas os adultos já devem ter passado disso! Espera-se que a relação educativa ofereça espaço para os jovens erguerem suas vozes. Do contrário, pode haver ensino, mas dificilmente haverá aprendizagem e, muito menos, educação!


O bom treinador físico corre cinco centímetros atrás de seu atleta e a seu lado. Essa distância quase imperceptível opera como um sinal de igualdade radical, ao mesmo tempo em que confere pequena vantagem ao segundo, invertendo simbolicamente a hierarquia entre ambos. Jesus Cristo, mestre dos mestres, lavou os pés de seus discípulos. O professor que não compreender esta dinâmica ontológica das interações educacionais humanas deveria cogitar a possibilidade de procurar outra profissão. Especialmente no Brasil, onde há tanta coisa em jogo, nesta seara. Quanto mais desigual um povo, tanto mais relevante a escola.


O menino saiu batendo a porta atrás de si, tão rápido quanto entrou. Cruzou a cozinha com entusiasmo imenso – este deus criador da infância que famílias e escolas crucificam no madeiro pesadíssimo das lições abstratas, ministradas por professores e pais que não cedem o protagonismo aos pequenos. Ganhou o quintal com a sorte de quem desenvolve seus potenciais, fertilizado pelo amor, sem sequer desconfiar dos ensinamentos que concedeu ao pai. Este, de sua parte, rejuvenescido, seguiu os passos do filho, desligando o chuveiro.

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