O GENOMA DO LAZER NO BRASIL


Cleber Dias



O descanso, a festa, o entretenimento, a diversão, o lazer em suma, são atividades importantíssimas para o Brasil e os brasileiros. Pense nas energias e nos recursos financeiros destinados e consumidos por uma festa de casamento. É preciso valorizar muito o momento e o ritual para dedicar tanto tempo e dinheiro em uma festa que dura um único dia e cuja organização arrasta-se por meses, envolvendo dezenas de profissionais: garçons, disque jóqueis (DJs), cozinheiros, costureiras, floristas, decoradores, fotógrafos, manicures, cabelereiros, cerimonialistas, faxineiros, vendedores, juízes de paz, padres ou pastores, só para citar alguns.


Há também as festas de aniversário, que igualmente contam com salões especializados e toda uma cadeia de suprimento de bens e serviços.


Fora de momentos extraordinários como aniversários e casamentos, há ainda as igrejas, os bares, os restaurantes, os clubes, os studios de pilates, os ginásios de musculação, as academias de dança e natação, os shopping centers, os cinemas, os teatros, os museus, as livrarias, as boates ou danceterias, os hotéis, as pousadas, as agências de viagem, os serviços de transporte aéreo ou terrestre. Haveria de se citar também as lojas de instrumentos musicais ou os professores de bateria, cavaquinho e violão.


Mesmo sem sair de casa, a disposição e a necessidade de buscar meios de lazer e entretenimento dependem do trabalho de milhares e milhares de pessoas, além de consumirem dezenas de bilhões de reais – não se sabe ao certo as somas envolvidas. São programas diversos de televisão, rádio e internet, que além dos equipamentos que precisam ser fabricados para esses propósitos, dependem também da produção dos conteúdos. São talk-shows, podcasts, novelas, filmes, telejornais ou programas de culinária. Haveria de se citar também os brinquedos de crianças, mas também os de adultos, desde bonecas e carrinhos, até vibradores, videogames, livros de colorir ou cervejas artesanais. De diversos modos, o ser humano é um brincalhão, do dia em que nasce ao que dia em que morre.


Se os brasileiros subitamente deixassem de brincar e se divertir, estaríamos diante de uma sociedade muito diferente da que temos hoje. Vários trabalhos não seriam necessários e vários empregos deixariam de existir. Quase paradoxalmente, o lazer depende de muito trabalho. Sem lazer, a nossa existência cotidiana, portanto, seria diferente de um modo até difícil imaginar.


Quantos trabalhadores estão envolvidos nesse esforço monumental de fornecer bens e serviços para o lazer dos brasileiros? Quanto tempo e recursos tudo isso consome? Quanta satisfação tudo isso oferece em troca? Nesse instante, é impossível dizer com certeza.


O conjunto de atividades reunido sob o conceito de lazer é tão amplo e heterogêneo que apenas identificar as atividades que o compõe aparece já como uma tarefa dificílima, quase impossível. Decifrar os mecanismos de funcionamento social, cultural e econômico envolvidos nisso tudo então parece algo inteiramente irrealizável, totalmente fora dos limites de inteligibilidade humana. Mas será mesmo?


Em 1990 deu-se início ao Projeto Genoma Humano, que pretendia nada menos que sequenciar todos os genes e proteínas do corpo humano. Na época, nem sequer se sabia o número de genes e proteínas a serem sequenciados. Seriam mesmo finitos ou poderiam talvez ser infinitos? Hoje sabemos que existem cerca de 25 mil genes, além de 400 mil proteínas. A descoberta tem permitido a confecção de remédios mais eficazes e a melhor compreensão de doenças genéticas, para não mencionar a abertura de um novo horizonte de pesquisas.


Os primeiros resultados do Projeto Genoma Humano foram divulgados em 2001, cerca de 10 anos depois do seu início oficial. O esforço de pesquisa para essas descobertas exigiu o trabalho coordenado de milhares de cientistas, de centenas de laboratórios ao redor do mundo. A maioria desses cientistas não se conhecia e nunca viria a se conhecer. Eram estranhos cooperando diligentemente entre si.


Todos eles, porém, sabiam desde o início que um único cientista, ou mesmo um punhado deles, por mais talentosos e brilhantes que fossem, teriam fatalmente sucumbido diante da monumentalidade da tarefa de tentar mapear todos os genes e proteínas do corpo humano. Juntos, porém, uma comunidade inteira de especialistas abraçou o desafio e executou com relativa rapidez um trabalho global que antes parecia impossível.


Vencida aquela barreira, a imaginação científica ousa desafios cada vez mais elevados. Cientistas trabalham agora em mapear o genoma de todas as espécies conhecidas: animais, vegetais, fungos, bactérias e vírus! Paralelamente, outras equipes trabalham em seguir identificando as espécies desconhecidas, para que logo estejam disponíveis aos que tentam mapear todos os genomas de todas as espécies. Se fosse futebol, chamaríamos de entrosamento, só que numa escala verdadeiramente assombrosa.


Antes de se chocar com a ambição aparentemente desmedida desses cientistas, lembre-se que em 1906 um brasileiro criou um dispositivo movido por um motor de combustão capaz de fazer seres humanos voarem. Cerca de sessenta anos depois, usando um dispositivo capaz de voar e movido por um motor de combustão, um ser humano pisou na lua.

Dada a importância do assunto, nós precisamos de uma espécie de projeto genoma do lazer no Brasil. Economistas como Celia Kerstenetzky, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chamam atenção para a importância da geração de postos de trabalho no setor de serviços para a pequena redução de desigualdade que ocorreu no Brasil entre 2004 e 2014. Até mais do que iniciativas como o Bolsa Família, sempre muito lembradas e celebradas, a criação de postos de trabalhos nesse setor, em ocupações como as de garçons, cozinheiras, manicures, cabelereiros ou atendentes de hotéis, foi crucial para aquela tímida, mas promissora, redução da desigualdade de renda no Brasil.


Dito de outro modo, as atividades envolvidas no eclético setor do lazer podem ser ativos fundamentais para a superação de alguns dos graves problemas que marcam a nossa sociedade. Todavia, a edificação de uma engenheira institucional para explorar mais e melhor esses ativos exige conhecimentos ampliados acerca das dinâmicas de funcionamento desse setor. Temos já a infraestrutura, as ferramentas, os recursos humanos e o estoque de conhecimentos necessários para levar um empreendimento investigativo desse tipo adiante. Só nos falta a necessária ambição intelectual e a disposição ou a capacidade de cooperarmos.


Ao contrário do que tentam nos fazer acreditar a Capes e outros órgãos de fomento, o propósito de uma carreira acadêmica não é o de escrever artigos em inglês para serem publicados em revistas inglesas ou norte-americanos. A finalidade do trabalho acadêmico é muito mais honrada: é a de tentar oferecer respostas, mesmo que provisórias, para perguntas relevantes. E quanto mais relevantes as perguntas, mais complexas também. E quanto mais complexas as perguntas, maior e mais imperiosa a necessidade de cooperação para tentar responde-las. Em se tratando das possibilidades de investigações acadêmicas relevantes, ou cooperamos ou fracassamos.

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