O ERRO ESTRATÉGICO DA LUTA CONTRA BOLSONARO



Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


Este texto destina-se aos irmãos de esquerda. Tem, mais especificamente, como público alvo aqueles que se dedicam a combater a figura de Bolsonaro, e sua interminável verborragia, em lugar de se concentrar no essencial, isto é, frenar suas ações concretas. Este é um erro estratégico que tem o efeito paradoxal de fortalecer o (des)governo. Em decorrência disso, bem intencionados opositores terminam por prestar, sem se dar conta, um desserviço ao projeto de um país justo, solidário e democrático.


Nosso adversário emprega uma tática de guerra. Seu exército se fortalece em presença de um inimigo – a saber, a esquerda. A incompreensão desta dinâmica faz retroceder a causa e produz efeitos colaterais deletérios à saúde mental de muitos defensores da civilização. De fato, enfrentamos uma situação paradoxal, que exige autocontrole das emoções. E, por mais belo que seja o convite ao combate frontal de Eduardo Alves da Costa intitulado “No caminho com Maiakóvski”, precisamos mais que nunca de Sun Tzu: “triunfam aqueles que sabem quando lutar e quando esperar”.


Sem dúvida, estarão todos se indagando neste momento acerca de uma série de incontáveis abominações. Como calar quando bolsonaristas adentram hospitais para quebrar equipamentos que salvam vidas? Quando debocham do luto de um pai e uma mãe que prestam homenagem ao filho que se foi? Quando, em total inversão da realidade, desdenham com arrogância de quem busca as luzes da ciência, sustentando teses medievais? Quando agridem mulheres, gays, negros? Quando retiram todas as proteções aos trabalhadores? Quando instituem um futuro de miséria para os idosos? Quando celebram o genocídio e racismo estrutural perpetrado nas favelas? Quando regurgitam atrocidades econômicas que no estado atual do planeta só sobrevivem no Brasil? Quando batem no peito em defesa da pátria, enquanto vendem até o Planalto para o Tio Sam? Quando defendem a família, enquanto espancam esposa e filhos? Quando colocam um racista na Fundação Palmares, um granadeiro na Economia e um tropeiro de boiada no Meio Ambiente? Quando, em nome do Cristo, mandam matar, roubar e destruir?


Não é civilizatório denunciar essas aberrações? As aberrações e, sem dúvida, seus autores, sim. Na maior parte dos casos, criminalmente. Mas seu mandante do Planalto, não! A seu respeito, como de resto, do granadeiro e do tropeiro, importa desconstruir, de modo frio e técnico, as ações. E, tão importante quanto, deixar suas personas na penumbra de nosso foco.


A tática engenhosa de Bolsonaro consiste em acordar todos os dias buscando superar o nível de barbárie do dia anterior! Ao fazer isso, incita seus adversários a brandirem contra ele as armas mais feéricas, obtendo dois efeitos articulados. Em primeiro lugar, coloca-se como vítima da intolerância. Como a relação entre esquerda e povo trabalhador se pautou, por muito tempo (desde o encerramento das experiências lideradas por Paulo Freire e das Comunidades Eclesiais de Base), na arrogância, de um lado, e no ressentimento, de outro, ele não tem dificuldade em emplacar a mentira. A tese segundo a qual as instituições viciadas não o permitem governar constitui a expressão institucional disso.


Em segundo lugar, fortalece a coesão e fidelidade de seu séquito. Ao ser o mais iníquo do bando, ele autoriza a saída de toda a iniquidade do armário, oferecendo prazerosas oportunidades catárticas aos recalcados. E fazendo-se vítima de um “algoz intolerante”, ele mantém sua base unida. Isso explica a impressionante resiliência dos 30% que o apoiam. O movimento “somos 70%”, por exemplo, lhes cai como uma luva, na medida em que confere aos bolsonaristas a condição de minoria.


É indispensável compreender estas operações! Elas convertem opressores incubados por décadas em oprimidos. Quanto mais brutais suas ações, mais se sentem na condição de injustiçados. Heróis ungidos pelo céu, acuados e resistindo, em nome de Deus, da família e do Brasil.


Analisemos a lógica de fundo a partir do núcleo duro deste grupo – qual seja, aquele que se situa na interseção entre a milícia e o neopentecostalismo. Há uma teologia belicosa que reivindica o título de cristã como uma espécie de escudo legitimador, mas que na prática confere ênfase a uma interpretação literal do Antigo Testamento. Nele se encontra o relato de inumeráveis guerras entre o povo judeu e seus vizinhos, com encorajamentos reiterados de Yahweh. São incontáveis as promessas proféticas de que os inimigos dos filhos de Abraão cairão a seus pés. Para manter a coesão social de um povo bárbaro, dividido em doze tribos, a infinita sabedoria da providência divina fez multiplicar os inimigos.


O antropólogo Gregory Bateson estudou as condições de possibilidade de manutenção da coesão de grupos sociais ou de sua dissolução – que ele chamou de cismogênese. Uma das variáveis capazes de reverter uma tendência cismogenética é o advento e manutenção de um inimigo externo. Pode-se brigar reiteradamente com um irmão, mas na maioria das vezes uma agressão vinda de fora do círculo familiar evoca imediatamente a fraternidade interna. No esporte, as rivalidades entre os atletas de uma mesma equipe são vividas enfaticamente nos treinos. Basta, contudo, iniciar um jogo com a equipe rival para que elas sejam suspensas em nome da cooperação, sob pena de derrota.


Eis o que fazem os milicianos neopentecostais. Seu elemento de coesão social não é o Cristo, cuja mensagem de amor e caridade fere frontalmente o culto ao ódio que praticam. O que os mantém unidos em defesa de seu representante no governo federal é satanás, este opositor externo que se incorpora sempre nos outros, fora da igreja. Não por acaso, um dos muitíssimos nomes desta abstração é "Inimigo". E a própria profusão de denominações é, neste caso, uma função da flexibilidade da entidade e fungibilidade de seu hospedeiro. Com efeito, as duas características principais de satanás são estas: 1- ele alimenta o orgulho da igreja porque situa a fonte do mal fora de “nós”; e 2- ele se incorpora nos “outros”, isto é, nos inimigos, posto que o Senhor dos exércitos já os expulsou do meio de “nós”.


A esquerda tem desempenhado, indefesa, o papel de hospedeira de satanás. Sua justa indignação oferece aos milicianos neopentecostais a objetivação material do inimigo do povo eleito. Por raivosos e fratricidas que possam ser internamente – e exemplos disso não faltam, no governo e entre seus fiéis –, a esquerda oferece o antídoto a sua cismogênese, conforme nos ensinou Bateson. Combater frontalmente Bolsonaro é um grave erro estratégico!


Aos defensores da civilização, da igualdade, da liberdade, da fraternidade, da justiça, da democracia, dos direitos humanos, das mulheres, das vítimas do racismo estrutural, da comunidade LGBT, do meio ambiente, do planeta; a estes cabe a proclamação universal da ciência e da razão! Na Saúde, na Educação, na Economia, na Ecologia, na Ética. Às instituições democráticas cabe desempenhar seu papel no sistema de freios e contrapesos – o que, aliás, vem ocorrendo. No mais, é deixar que Bolsonaro se intoxique com o próprio veneno; o que já teria chegado a termo se a repetição monotemática de Eduardo Alves da Costa abrisse espaço a Sun Tzu.

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