O BRANDIDO FEMININO DO FAROL OLÍMPICO


Wecisley Riebeiro do Espírito Santo

Cleber Dias


É difícil compreender em ato a dialética da história. Eis porque tantas vezes a desesperação toma conta daqueles que se empenham na construção permanente da democracia. Quando grupos reacionários ou representantes políticos desequilibrados logram vitória eleitoral – como se passou recentemente com Áustria, Polônia, Hungria, Brasil e EUA, tendo este último superado já o problema – a parte menos serena dos democratas chega literalmente a adoecer, física e afetivamente.


E, no entanto, há razões para crer que as sociedades humanas evoluem no terreno da ética, conquanto de modo lento, não cumulativo e entremeado por retrocessos intermitentes. Daí o caráter dialético do processo. A saliência de que se revestiram as facções políticas ultraconservadoras no mundo recente opera como espelho refletor das questões em jogo na agenda do debate público. Paradoxalmente o espírito da sociedade civil se democratiza de modo mais intenso quando forças autoritárias governam a política, conforme já notaram cada um a seu modo Moacir Palmeira e Charles Tilly. Muita gente antes alheia às polêmicas centrais da vida social decide finalmente estabelecer posição quando “a marcha da insensatez” é levada ao paroxismo, para lembrar a lúcida historiografia de Barbara Tuchman. E a autoanálise possibilitada pela elevação do que há de mais retrógrado ao governo das nações semeia o germe da renovação na esfera das ideias coletivas.


Eis o que ora se passa com as atletas olímpicas, tantas vezes acusadas de alienação. A seleção alemã de ginástica artística substituiu os collants usuais, que acentuam pernas, glúteos e púbis das ginastas por calças até os tornozelos. Tal ato expressou o protesto da equipe contra a sexualização do corpo das esportistas e decorreu do repúdio a outra deformação patriarcal do esporte. No campeonato europeu de Handebol de praia deste ano, a seleção feminina da Noruega foi multada em 1,5 mil euros por ter substituído o biquíni pelo short. Juntos, estes dois eventos pautaram a discussão sobre a objetificação do corpo feminino, não apenas no âmbito do esporte. Nos filmes da Marvel – apenas para tomar um exemplo cinematográfico destinado ao público amplo que inclui, sobretudo as crianças – o Capitão América e o Thor correm com o foco no tronco e na cabeça, ao posso que a Viúva Negra e a Vespa deslocam-se rebolativas com zoom focalizando a pelve.


E pasmem, dentre as mais pré-históricas e fetichizadas mentalidades, há quem tenha reclamado que Lola Bunny, personagem animada dos Looney Tunes não esteja tão “sexy” (sic) em Space Jam 2 quanto no primeiro filme. Contudo, conferir destaque às capacidades atléticas e intelectuais da personagem foi precisamente a intenção do diretor do filme. Malcolm D. Lee enfatizou em entrevista recente que um de seus objetivos com a sequência cinematográfica era precisamente deslocar o foco da sexualização de Lola, presente no filme primeiro, para seu papel de liderança na quadra de Basquete.


Atletas e heroínas compartilham atributos míticos fundamentais, estruturantes dos ritos sociais – por seu turno nucleares para a reprodução ou transformação da política, da economia e dos padrões de sociabilidade. Os seres humanos são dotados de uma estrutura anatomofisiológica e de uma faculdade cognitiva que juntas engendram a necessidade incontornável de admirar ídolos. São elas respectivamente os neurônios espelho e o empuxo à produção de formas ordenadas, dotadas de harmonia. Tais células neuronais são responsáveis pela conservação da experiência coletiva por meio da transmissão social do comportamento individual. Por seu turno, a interseção entre o sensível e o semântico (conforme a definição de estética do antropólogo Howard Morphy) elege as formas dotadas de maior beleza como os principais objetos de emulação pelos neurônios espelho. Os ídolos compreendem modelos privilegiados, eleitos pelos neurônios espelho, modulados pela cultura.


É, pois, no campo do esporte que se erguem agora novos mitos femininos, capazes de inspirar as jovens gerações para a superação de uma mentalidade patriarcal que chega às raias da insanidade, sexualizando personagens de desenho animado. As novas heroínas recusam os trajes impostos por corporações e expectadores subdesenvolvidos no capítulo da sublimação pulsional. Antes, lançam luz sobre o mérito esportivo que sempre amedrontou as pretensões de superioridade física dos machos. Considere-se, por exemplo, o boato apócrifo segundo o qual a Federação Internacional de Tênis teria negado uma solicitação de Serena Williams para competir entre os homens. Como é sabido entre os amantes do esporte, o pedido da tenista jamais teria ocorrido. Mas o valor de um mito reside antes em seu potencial simbólico para revelar afetos culturalmente compartilhados que para registrar a verdade objetiva.


Talvez a sexualização do corpo feminino seja parte de uma estratégia estrutural e inconsciente da dominação masculina para recalcar o medo do vigor combativo das mulheres – incluindo suas qualidades atléticas. Sabe-se, com efeito, que o limiar de dor daquelas que se insiste em classificar como sexo frágil é organicamente superior. Na versão original do filme Liga da Justiça – sintomaticamente rejeitada para os cinemas – as ambições do vilão, Lobo da Estepe, encontram aguerrida resistência das Amazonas (dentre as quais Lola Bunny estagia em Space Jam 2), ao passo que os Atlantis são facilmente massacrados. É que seu príncipe, o Aquaman, cresceu apenas organicamente, preservando estilo de vida adolescente, errando literalmente à deriva, brandindo garrafas de whisky à esmo e atirando-as, vazias, no habitat do povo que abandonou. Na cena final, o Super-homem limita-se à aplicação de um soco no inimigo que, ato contínuo, tem a cabeça cortada pela Mulher Maravilha. Mas aquele pânico inconsciente das mulheres levou às telas um filme protagonizado pelo criptoniano que reduziu a Amazona mais poderosa a coadjuvante.


As pretensas luzes ocidentais classificam a burca e o véu islâmico como traços bárbaros do dogmatismo. Em nosso próprio solo, o etnocentrismo de classe menospreza as roupas femininas neopentecostais. Entrementes, primitivas obsessões sexuais ganham vazão doentia, mediante eufemismos esportivos. E os mais rasteiros interesses econômicos se realizam por meio do estímulo de marketing à infantilização emocional dos homens. Nutrimos o autoengano segundo o qual apenas religiões fundamentalistas impõem o vestuário feminino. E, todavia, mulheres formadas em Educação Física são frequentemente forçadas a optar entre serem contratadas e assediadas com uniformes obrigatórios ou escolherem suas próprias roupas na condição de desempregadas.

Conflitos envolvendo roupas e interesses econômicos, reativados agora em outros termos em Tóquio, atravessam a história das Olimpíadas. Há cerca de 20 anos, lembremos, por ocasião dos jogos em Sidney, era o tenista brasileiro Gustavo Kuerten quem se indispunha com dirigentes esportivos por causa de disputas sobre a marca que estaria estampada em seus uniformes. De um lado, Guga e seu principal patrocinador, a fabricante de calçados e equipamentos esportivos Diadora, reivindicando que o tenista usasse roupas ostentando esta marca. De outro lado, o Comitê Olímpico Brasileiro, patrocinado pela Olympikus, concorrente da Diadora, que firmara contrato para que todos os atletas brasileiros usassem uniformes com esta marca. Carlos Nuzman, dirigente do Comitê Olímpico Brasileiro na época, declarou hipocritamente que lamentava “muito o fato de um tenista brasileiro se curvar diante de uma empresa estrangeira”, dizendo-se ainda preocupado com “o fato de que, no futuro, o atleta possa se tornar escravo das marcas esportivas”, como se a instituição que ela dirigia não fosse. O desfecho da contenda de certo modo dera vitória ao espírito esportivo, pois Guga jogou as partidas em Sidney vestindo uniformes oficiais, mas sem logomarcas de nenhum fabricante.


Nossas Amazonas esportivas talvez não cortem tão rápido a cabeça do Lobo da Estepe patriarcal. Mas, como temos sustentado neste blog, sob inspiração de vasta tradição sociológica e antropológica, o esporte segue constituindo laboratório social privilegiado para a observação das tendências gerais da vida pública. Diferente do que fazem no cinema e na economia, homens terão dificuldades crescentes para relegar mulheres a coadjuvantes, no esporte. As jogadoras de Handebol de praia e as ginastas não erguem espadas fictícias como a Mulher Maravilha; antes, estão a brandir as luzes da chama olímpica.




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