NOVOS HORIZONTES DA COMPETIÇÃO OLÍMPICA


Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


A Olimpíada de Tókio tem desempenhado o papel de farol a lançar luz sobre grandes dilemas éticos da humanidade, conforme já tivemos a oportunidade de escrever aqui. A começar pelo fato de estar ocorrendo com um ano de atraso e cercada de restrições sanitárias que limitam o público pagante. A liberdade, de ação e de lucro para evocar dois sentidos caros ao modo de vida capitalista, foi duramente golpeada na arena olímpica de 2020 e se reergueu cambaleante em 2021. Agora outro valor da cosmologia hegemônica do mundo é submetido ao escrutínio planetário – a competição ela própria. Gianmarco Tamberi e Mutaz Essa Barshim decidiram compartilhar o ouro do salto em altura, na final que ocorreu em 01 de agosto de 2021, elevando a data a marco histórico – para o bem ou para o mal, conforme as opiniões divididas ao redor do planeta.


A Folha de São Paulo nos brindou com uma amostra da polêmica que ativa as grandes questões em jogo no evento. André Barcinski qualificou-o em sua coluna como uma “vergonha histórica”. Em sua réplica, Katia Rubio argumentou que a divisão da medalha evidenciou que “não é preciso ver o adversário sangrar como em reality show”. A polarização excessiva, no entanto, nos ofusca e dificulta a apreciação das ambiguidades que cercam o ocorrido e que o tornam filosoficamente mais interessante.


O debate não é apenas ético; ele lança luz sobre a natureza ritual do esporte e, por conseguinte, sobre sua relevância como instituição social e como recurso educacional. Os ritos esportivos sempre expressam os valores fundamentais de seus praticantes, de seus sacerdotes e escribas, bem como de suas testemunhas – respectivamente atletas, árbitros, narradores, comentaristas, comitês ollímpicos, federações e torcedores. Conta-nos Lévi-Strauss que quando os Gahuku-gama da Nova Guiné aprenderam o futebol procederam a adaptações curiosíssimas. Sem preocupar-se com a simetria entre o número de jogadores dos times adversários, levavam uma partida adiante por dias, até obterem um empate. Sempre que um lado se encontrava atrás no placar, a equipe que estava na frente cedia jogadores àquela circunstancialmente em prejuízo. De modo que não era incomum ver nove jogando contra treze ou quinze contra sete. O que parece um esporte, conclui o antropólogo francês, não passa aqui de uma estrutura ritual, em que o final é preestabelecido.


Mais curiosa que o próprio jogo dos Gahuku-gama, contudo, é a própria atitude de Lévi-Strauss ao estabelecer um grande divisor entre ritual e esporte. Com efeito, Marshall Sahlins, outro antropólogo filiado à mesma corrente estruturalista, questionou a interpretação de seu colega, argumentando que o esporte é ele mesmo um ritual, que se estrutura a partir dos valores nucleares da vida social, entre os ocidentais tanto quanto alhures. Com a mesma seriedade com que os Gahuku-gama perseguem um empate, o mundo industrial burguês visa a supremacia de uma das partes em disputa.


Diferente do rito esportivo moderno, em que há vitória e a derrota é absoluta, o debate de Sahlins e Lévi-Strauss tem matizes. Como Tamberi e Barshim, os interpretes do esporte concedem em compartilhar certos pontos de vista. Para ambos o esporte dos Gahuku-gama é um rito simétrico e inverso ao esporte como o conhecemos. Enquanto nossos jogos olímpicos estabelecem uma equivalência de saída radical entre as duas partes em confronto, cujo objetivo é a persecução de uma assimetria no resultado (vitória e derrota), os Gahuku-gama não se preocupam com a igualdade do processo, mas do resultado. Estes produzem conjunção entre grupos desiguais na saída; os esportes olímpicos produzem disjunção entre equipes inicialmente equiparadas. Mas, nos dois casos o resultado é ritualmente preestabelecido. Sahlins lembra uma frase do sociólogo Duffy Daugherty: “um empate é como beijar a sua irmã”. Eis a razão para a polêmica acesa com a atitude dos finalistas do salto em altura.


A caracterização do fato como uma “vergonha histórica” tem um espírito muito consonante com a imagem do tabu do incesto alocada ao empate. E, de fato, os argumentos de Barcinski não são negligenciáveis. Informa-nos o colunista que Barshim, que indagou o árbitro sobre a possibilidade de ter dois ouros, havia saltado 2,38 metros há três anos, ao passo que Tamberi saltara 2,39 metros no ano de 2016. Desta feita, ambos superaram os 2,37 metros. Poder-se-ia, pois, supor que a solicitação de Barshim escondia o medo de que seu adversário repetisse a marca obtida há cinco anos. Por outro lado, há também que se ler o caso em sua positividade. Tendo superado em dois centímetros a atual marca, Tamberi anuiu no empate, o que denota humildade grandiosa. Ambos também poderiam estar emocionalmente estafados, como estavam fisicamente – e optaram por preservar sua saúde, o que me parece louvável, sobretudo quando se reside em um país presidido por quem desdenha da vida. Mas, se a evocação de uma eventual covardia de Barshim é leviana, as duas interpretações subsequentes não são menos especulativas, de vez que os processos psíquicos e afetivos dos dois competidores nos são inacessíveis.


É preciso, pois, analisar o caso com os recursos sociológicos, deixando impressões de natureza psicológica para os profissionais que interagem diretamente com os atletas. Como tenho reiteradamente sustentado, o esporte ocupa um lugar intermediário no contínuo que une a guerra bárbara ao debate civilizado de argumentos. Entre o confronto violento, passando pelo esporte e pela arte, até os conflitos verbais da política, da ciência e da filosofia, há um gradiente de sublimação e de autocontrole dos impulsos agressivos. O esporte é uma forma sofisticada de comitiva negociadora dos termos da paz. Como se sabe, as guerras pré-modernas eram precedidas por negociações entre representantes enviados dos exércitos inimigos, que se reuniam no centro do campo de batalha, na tentativa de firmar acordos de paz. Tendo nascido como parte do código dos gentlemen, ao cabo de uma escalada de violência entre duas facções políticas inimigas da Inglaterra que deu lugar a concessões recíprocas pacificadoras, o esporte se converteu em uma tecnologia social homóloga aos processos de negociação medieval. Diferentes destes, entretanto, os encontros esportivos não perseguem a equalização, mas o desequilíbrio das forças. Daí o estranhamento com o desfecho do salto em altura.


Olhemos agora para o evento que nos ocupa, a partir do outro extremo no contínuo proposto – da ciência, da política e da filosofia. Deste ponto de vista, as equivalências estruturais entre a competição esportiva e o debate de argumentos se revestem agora de novo nível de nitidez. Sabe-se que a dialética constitui uma matriz epistemológica inspirada na dialógica. Uma das partes em diálogo propõe a tese; outra, a antítese. O confronto argumentativo deverá levar a uma síntese, mais completa em elementos da verdade porque beneficiada com as virtudes de ambas, tese e antítese, depuradas agora de seus vícios e por isso mesmo reconciliadas. A síntese dialética exige, por conseguinte, um nível de sublimação e de autocontrole das emoções que está ainda ausente na competição esportiva. E, diga-se a verdade, está ausente da maioria dos debates políticos, filosóficos e científicos da atualidade.


Mas, não há como negar, que Barshim e Tamberi foram os pioneiros históricos que produziram uma síntese dialética no esporte. Não se pode negar também, sob risco de leviandade, que ambos levaram a competição aos limites de suas forças físicas e emocionais. Como tantos outros exemplos (dentre os quais o da equipe alemã de ginástica artística, já comentado), aqui novamente a Olimpíada de Tókio dá mostras de que a humanidade evolui, em que pesem os retrocessos políticos episódicos em alguns países.


O esporte oferece um meio de deslocamento das rivalidades para escalas sempre mais distantes, conforme também já vimos. Times de bairro vizinhos rivalizam entre si, mas cooperam contra o outro lado da cidade. E ambos os lados se unem contra outra cidade, que por sua vez se coliga àqueles no confronto com outro estado. Todos os estados de um país, por rivais que sejam internamente, estão frequentemente juntos na competição com nação rival. No limite, o dilema humano consiste em eleger um inimigo comum que motive a união planetária – o coronavírus, a fome, a desigualdade, a injustiça. Com exceção do primeiro, no entanto, os demais compreendem ideias abstratas, com baixo potencial mobilizador.


Mas também se pode deslocar a competição para a escala inversa, do universo íntimo de cada ser humano, onde valores e antivalores éticos constituem dois times rivais. A igualdade, a liberdade, a fraternidade, a justiça, a solidariedade, a democracia, a humildade formam uma equipe; a desigualdade, a escravidão, a violência, a injustiça, a indiferença, o autoritarismo, a vaidade compõem o time inimigo. Se Barshim e Tamberi, naquele domingo olímpico, decidiram ou não deslocar sua competição interpessoal para este conflito interno, levando ao primeiro lugar do pódio a equipe daqueles valores, não saberemos. Mas Tókio 2020, sem sombra de dúvidas, estica a 2021 o ano da renovação que deslocou os horizontes da competição humana para a pequena escala de cada ser – seja na luta microscópica entre anticorpos e vírus, seja no combate interior que cada um de nós, homo sapiens, precisará travar como etapa incontornável da transformação do mundo.

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