NOTÍCIAS DO ABISMO

Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


A voz indignada da professora ecoava ainda notas energéticas de otimismo. Era o começo da quarentena e ela chegou a pensar que a Secretaria de Educação não teria meios de impor, no interior protegido do lar, os mil dispositivos de sequestro de seu espírito (voltaremos a ele) vigentes, na escola. O que restara de sua noite de sono, ademais, a havia revigorado. Ao menos em parte. Dir-se-ia até, dado o brio que envergava, que desejou “bom dia” à coordenadora pedagógica com autoridade na fala. O orgulho pelo cumprimento do dever, apesar das condições inesperadas e largamente incompreendidas, lhe autorizava.


O processo de confecção daquele gabarito, contudo, trincara a até então inexpugnável madeira de seu chão. Haveria de conviver com aquela rachadura até o fim do isolamento? Quando poderia receber um profissional que substituísse o piso? Mas, por paradoxal que fosse, o estado do assoalho lhe acrescentava satisfação por ter levado a termo as atividades daquela semana. Nunca sequer cogitou a ideia de lecionar por mediação digital; na escola, seu recurso tecnológico precípuo era o mimeógrafo. Sacrificar uns centímetros do revestimento de sua sala lhe pareceu, pois, preço razoável pelo aprendizado forçado (mas mesmo assim aprendizado) a que foi submetida. Razão pela qual respirava ainda a plenos haustos, naquela manhã, em que pese ter finalizado às duas horas da madrugada sua jornada pedagógica.


Sua residência não passou incólume pela primeira semana de aulas remotas, é verdade. Mas superara o deserto dos editores de texto, das planilhas, das gravações sucessivas de videoaulas, a cada tentativa frustrada mais sucintas para atingir o tamanho necessário ao upload que a plataforma digital exige. Sobretudo, fustigavam-lhe os conselhos dos mais jovens para anexar em suas aulas os cursos ministrados por Youtubers. Raramente tinha tempo para investir em sua formação continuada, com os recursos do YouTube. Aquelas sugestões, além disso, feriam seu orgulho profissional, o qual oferecia uma das mais tenazes causas de satisfação com a extensa carreira no magistério.


No teclado de seu computador não funcionavam cinco letras. Recorrendo ao editor do celular, foi vítima repetida da desconfiguração do arquivo, sempre que tentava embalde importar conteúdo. E, no entanto, lograra entregar completas as tarefas, no prazo preciso. Com efeito, era conhecida entre as colegas como a mais organizada de toda a equipe docente. Tratava-se agora de ministrar as aulas online daquela sexta feira. Meia hora com cada uma das quinze turmas e poderia, finalmente, adiantar a confecção da proposta para a semana seguinte, já no sábado e domingo. Costumava sentir prazer na antecipação; gostava de planejar com antecedência!


Ao cabo de um mês, entretanto, havia desaparecido de sua voz qualquer sinal de autorrealização. O aprendizado com o uso dos aplicativos não transcorreu bem e ela passou a dormir, todos os dias, por volta das duas da madrugada. Não perdera um prazo sequer. Mas a anglofilia brasileira nunca se lhe afigurou tão literal quanto no emprego obsessivo do termo deadline. Agora sete tábuas do piso descolaram-se completamente, evidenciando um cimento esverdeado, de um verde cadavérico.


O telejornal prevê a chegada do Brasil ao primeiro lugar, no pódio da mortalidade mundial, pelo COVID-19. Onde o final deste martírio? Melhor seria se expor ao risco de contágio do que ser condenada a jornadas diárias de doze horas de trabalho, no cômodo domiciliar que antes lhe oferecia revigorantes momentos de distração. Não obstante, em breve, tudo voltará ao normal! Retornará à sala de aula com o mesmo amor às crianças, talvez até maior ainda, nutrido pela saudade. Seguirá educando-as, contra todas as expectativas, até dezembro, quando expira seu contrato, para ser renovado em fevereiro a fim de evitar vínculo previdenciário (o que, aliás, lhe poupou a frustração com expectativas de aposentadoria, cujas condições de possibilidade se encerraram há pouco, no país).


Passam-se quase cem dias. A normalidade não vem. Sua voz quase não mais vem à garganta. Embarga-se excessivamente. Por vezes, oblitera-se por completo. O terno sorriso que estudantes vislumbram do outro lado da tela assume a seus próprios olhos feições retiradas de um filme de Stephen King. Sintomas de uma antiga e bravamente superada síndrome do pânico voltam a lhe visitar. Não sabe como ou onde encontra meios para seguir elaborando impecavelmente este curso EAD, dada a perturbação mental e o déficit energético. Provêm eles das ameaças de corte salarial mediante atraso das atividades, vindas do secretário de educação? Sem dúvida! Viver vale à pena; não deseja morrer de fome! Mas o espírito, naquele sentido latino original de sopro criador, este se esvai, absorvido pela garganta feérica do imenso abismo que rasgou o chão de sua sala de estar.

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