LAZER E RÁDIO SEGUNDO VELISE MACIEL


Um programa de rádio pode ser um ato de rebeldia e subversão


Cleber Dias


A dissertação “Rádio Inconfidência e Lazer: um estudo de caso do Programa Casa Aberta no contexto do rádio expandido”, de Velise Maciel, investiga os modos como ouvintes de um programa de rádio se relacionam com esse meio de comunicação. A defesa do trabalho, orientada por Elcio Cornelsen, ocorreu no último dia 31 de julho, quando eu e a simpática professora Graziela Mello Viana, estudiosa do assunto, participamos também do ritual.


O trabalho oferece um manancial de informações sobre o assunto, muitas delas inéditas, como é o caso dos questionários respondidos pelos ouvintes ou informações de uma pesquisa do Ibope. As conclusões do trabalho desestabilizam certo censo comum de que consumidores teriam uma postura passiva diante de conteúdos ofertados por meios de comunicação de massa, mostrando como esses indivíduos interagem ativamente diante da oferta de mensagens emitidas pelo rádio, a ponto de forçarem mudanças nas suas programações.


Tão ativa é a postura dos ouvintes, que eles podem inclusive encontrar meios de estruturação de vínculos de pertencimento no aparentemente simples e despretensioso hábito de ouvir programas de rádio. Alguns desses ouvintes estabelecem laços de amizade entre si, extrapolando a esfera compartilhada do programa de rádio e avançando em direção a encontros, festas e outros canais de sociabilidade presenciais. Tudo motivado pelo costume comum de ouvir o mesmo programa de rádio.


Além disso, a dissertação de Velise ainda permite uma crítica sobre formulações conceituais a respeito do lazer, que postulam uma suposta separação entre os tempos de trabalho e não trabalho. A pesquisa de Velise exibe claramente que ouvir um programa de rádio é uma opção que a maioria dos ouvintes empreende em busca de lazer, embora a maneira mais habitual de fazê-lo seja durante o trabalho profissional ou doméstico. O mundo desses ouvintes, diferente de algumas teorias sociais, não comporta dicotomias muito rígidas.

Não bastasse, Velise ainda concilia tudo isso com um relato histórico bastante interessante sobre a Radio Inconfidência, objeto mais específico da sua pesquisa. A investigação histórica conduzida pela autora, que se aproveita bastante bem de outros trabalhos já disponíveis sobre o assunto, além de acrescentar-lhes achados de sua própria pesquisa nos acervos de Belo Horizonte, permite ainda questionar certas afirmações frequentes nos dias de hoje, de que a internet inaugura modos inteiramente inéditos de interação entre público e meios de comunicação. Ao contrário disso, conforme demonstra o trabalho de Velise, esse ímpeto de participação e interação sempre marcou a postura dos ouvintes de rádio.


O texto longo exige certa disposição. São 389 páginas, ainda que 149 de apêndices, em todo caso, extensão pouco usual para uma dissertação nos dias de hoje. A narrativa da dissertação, no entanto, é muito fluída. Na verdade, mais que isso, pode-se dizer que se trata de uma narrativa envolvente e humana, inteiramente afastada da frieza impessoal e tecnicista que costuma caracterizar relatórios de pesquisa.


A dissertação de Velise oferece um relato tocante a respeito dos efeitos da pesquisa acadêmica sobre o cotidiano de trabalho da autora, na função de produtora executiva de uma rádio. O trabalho deixa ver também, ainda que de forma sutil e cuidadosa, parte das dificuldades que cercam o funcionamento de uma instituição pública, como é o caso da Rádio Inconfidência, imersa em reviravoltas do mundo da política.

Em certo ponto, Velise enfatiza as mudanças que o projeto pessoal, acadêmico e profissional de realizar um curso de mestrado desencadeou na vida dela. O que ela não diz sobre o assunto, em direção contrária à dos efeitos de um curso de mestrado sobre os seus estudantes, são os possíveis efeitos da presença de certos estudantes sobre as rotinas acadêmicas da universidade.


Velise é uma jornalista experiente no mercado de trabalho dos meios de comunicação. Ela trabalha na Rádio Inconfidência desde 2005, conforme ela expõe na dissertação. Isto implica que Velise traz consigo para o cotidiano da universidade um conjunto de saberes práticos, acumulados ao longo de 15 anos de intenso exercício profissional, que estão além do que poderia oferecer um conhecimento tão somente livresco e escolástico, como muitas vezes costuma ser o saber acadêmico. Se o contato com debates teóricos pode provocar e estimular uma profissional, conforme destacou Velise, as visões e experiências de uma profissional também podem provocar e estimular o debate teórico. É um jogo de ganha-ganha, vantajoso para todos os envolvidos.

A universidade, todavia, não é para trabalhadores, apesar da retórica em contrário que costumeiramente envolve discursos políticos emitidos por setores da própria universidade. Regra geral, trabalhadores que queiram se aproveitar da rede de estímulo intelectual depositada nas universidades públicas brasileiras precisarão se desdobrar. A universidade não faz concessões e quase nenhum esforço para acolher necessidades próprias de trabalhadores e trabalhadoras – embora faça outras concessões, por outras razões, em favor de outros grupos.


Apenas para início de conversa, as aulas geralmente são em horários quase proibitivos para quem trabalha. Nos círculos universitários, isto costuma ser tratado como um problema dos alunos, como se a ausência de mais trabalhadores também não privasse as universidades de uma constelação de saberes. Além disso, os prazos para a realização das pesquisas na pós-graduação parecem levar em conta apenas os estudantes que têm como única ocupação as atividades do curso de pós-graduação – o que é um luxo para poucos.


A idade média dos estudantes de pós-graduação no Brasil é de 34 anos (dados da PNAD contínua de 2016), período da vida em que a maioria já se encontra profissionalmente ativa e inserida no mercado de trabalho. Se tivesse compromisso verdadeiro com esse público, as universidades deveriam adequar-se a esses perfis, não por altruísmo ou benevolência política, mas para beneficiar-se do saber que esses trabalhadores trazem consigo, adensando, dessa maneira, o ecossistema de inovação que as universidades, junto com empresas e órgãos governamentais, integram ou deveriam integrar.


É neste ponto, porém, que talvez encontremos o fundamento elementar dos obstáculos para a assimilação de agentes do mercado de trabalho nas universidades. Não se trata de hostilidade, preconceito ou má vontade pura e simples. De maneira mais profunda, as tradições universitárias brasileiras são historicamente divorciadas do mundo da produção, razão que explica também parte das debilidades do nosso sistema público de ensino superior. No Brasil, a produção do conhecimento universitário tem servido mais como um ornamento erudito para distribuição de prestígio do que ferramenta pragmática para a resolução de problemas concretos que afligem a sociedade.


Essas adversidades, porém, não são suficientes para impedir que trabalhadoras como Velise se infiltrem nas universidades, se beneficiando e beneficiando o ambiente acadêmico que seria ainda mais vibrante se pudesse contar mais regularmente com a massa crítica dispersa por diferentes segmentos dos mercados de trabalho. Velise e sua excelente dissertação nos fazem lembrar o jargão que tanto circula entre nós: o brasileiro é um bravo e não desiste nunca.

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