LAZER E LUTA DE CLASSES NA PANDEMIA



Cleber Dias


Repercutiu recentemente a discussão entre o jornalista Gerson Camarotti e o cientista social Demétrio Magnoli, durante o programa Em Foco, da Globo News. O motivo da discussão foi a aglomeração de pessoas nas praias durante o réveillon.


A discussão teve início com um comentário do jornalista Jorge Pontual sobre o assunto, após reportagem que exibiu imagens de aglomerações nas praias. “É completamente irracional”, ele disse, indignado. “Eu não consigo entender essas pessoas. Eu não sei se vocês conseguem. Eu acho que tinha que haver algum tipo de campanha para levar essas pessoas à execração pública”.


Gerson Camarotti, no mesmo sentido, concordando com o colega, classificou o comportamento nas praias como “egoísmo” e ainda estabeleceu uma relação com o “mau exemplo do presidente da república”, que esteve também em aglomerações nas praias nas festas de fim de ano. Por fim, defendendo o isolamento social, apelou para a ciência como argumento de autoridade: “essa é a orientação científica” e a "ciência tem que ser seguida", arrematou o jornalista.


Demétrio Magnoli discordou. O cientista social destacou que as aglomerações de fim de ano eram diversas e não poderiam ser tratadas da mesma forma. Houve aglomerações de celebridades ricas e de trabalhadores pobres, ele destacou. Chamou ainda atenção para o detalhe de que uma das praias exibidas na reportagem era uma das mais populares do litoral de São Paulo, para onde trabalhadores pobres costumam viajar em feriados.


“Essas pessoas que estão aglomeradas nas areias da Praia Grande passaram o ano inteiro se aglomerando nos trens, nos ônibus e nos metrôs porque trabalham em setores que não pararam. E agora elas tinham uma oportunidade rara – ele enfatizou – de ir para a praia e comemorar o ano novo. Eu não acho que elas sejam pessoas execráveis”.


Há três elementos admiráveis na posição de Magnoli: a independência intelectual com que insurgiu contra uma corrente de opinião majoritária, a atenção ao recorte de classe que perpassa o problema e o modo empático como buscou compreender os comportamentos sociais do ponto de vista de quem os pratica – o que é especialmente notável em se tratando de grupos populares, cujos valores geralmente não estão refletidos no conjunto da opinião pública.


Para além disso tudo, o debate na Globo News é ainda perpassado por outros três elementos mais gerais e que de certo modo lhes dá fundamento: um de natureza epistemológica, um de natureza política e outro de natureza cultural ou sociológica.


Debates sobre o coronavírus frequentemente rementem a autoridade da ciência, sublinhando que esta ou aquela recomendação devem ser acatadas porque são “científicas”. Entre incontáveis exemplos semelhantes, foi precisamente o que fez Gerson Camarotti.


Todavia, essas referências esquecem ou desconhecem que a ciência quase nunca é unânime. Ao contrário, a provisoriedade é mesmo uma das suas condições de possibilidade, conforme ensinam os filósofos da ciência.


Embora o debate público sobre o coronavírus tenha sido dominado por uma determinada opinião científica, a de que o isolamento social era e é ainda a melhor medida de contenção do contágio, disso não decorre que inexistam divergências. Uma das principais vozes contrárias a esse consenso talvez seja a de John Ioannidis, que já insinuou que tais recomendações poderiam ser o “maior fiasco científico do século”.

Ioannidis não é um negacionista. Professor de epidemiologia da Universidade de Stanford, ele é considerado um dos dez cientistas mais influentes do mundo. Meses depois de ter iniciado seus questionamentos às conclusões que vinham se apresentando desde o início da pandemia, Ioannidis reiterou seus pontos de vista e até os levou um pouco adiante. Conforme palavras dele em entrevista à Folha de São Paulo, em outubro do ano passado: “Ainda há perguntas importantes sem resposta sobre a Covid-19, mas já avançamos o suficiente para evitar medidas de restrição social o máximo possível. Precisamos admitir que não sabemos se é necessário fechar tudo, ou por quanto tempo”.


Algumas análises empíricas indicaram que a correlação entre medidas de restrição social e a contenção do contágio do vírus era aleatória, isto é, alguns países que praticaram tais medidas conseguiram conter a velocidade de propagação da doença, enquanto outros não. Outras análises, contudo, indicaram exatamente o contrário: todos os lugares que praticaram isolamento social tiveram sucesso no controle da doença.


Na verdade, os dados disponíveis não estão consolidados e há uma série de diferenças nas políticas e nos métodos de medição e testagem adotados por cada país. São precisamente por dificuldades dessa natureza que Ioannidis critica as conclusões que se apresentam como definitivas. No limite, há evidências disponíveis em favor de todas as opiniões. Não é por acaso que dizem que a primeira profissão do diabo foi a de estatístico.


O apelo à uma certa noção de ciência, supostamente imune à incerteza e impermeável às divergências, tem consequências políticas importantes, na medida em que a autoridade do discurso científico tem servido como desvio para os conflitos de interesses e de visões que atravessam o jogo democrático. Tudo se passa como se as decisões políticas relativas ao coronavírus devessem ser retiradas da esfera política, para serem inseridas nas esferas técnicas da ciência, supondo que aí há apenas uma única resposta consensual para a resolução dos problemas – o que é quase sempre falso, como bem sabe qualquer cientista.

Este é um expediente retórico que tem sido muito comum recentemente, em uma época bastante hostil à política, vista como algo, por princípio, incapaz, corrupto e degenerado. Os debates sobre política econômica, por exemplo, acontecem nos mesmos termos, sugerindo-se que não há alternativas além daquelas apontadas por certos especialistas, que reivindicam o monopólio da verdade e do saber.


Esses expedientes, portanto, trate-se de economias ou de pandemias, são sempre tentativas de evitar que decisões políticas estejam subordinadas ao controle popular, por meio de seus representantes democraticamente eleitos.


Ora, governantes que exercem o poder por terem sido sufragados pelo voto popular são políticos, não epidemiologistas. Eleitores não elegem cientistas; elegem políticos. Por isso mesmo, aos cientistas não cabem responsabilidades por decisões políticas. É desejável que participem, contribuam e apresentem seus pontos de vista. Mas isso deveria ser tudo.


Uma política de saúde, como o próprio nome diz, é antes de tudo política e são os políticos, portanto, quem devem lidera-las. Mais que isso, e talvez por isso, as tomadas de decisão na política precisam considerar outras ordens de preocupações que não apenas as “científicas”, que afinal frequentemente são contraditórias.


Todavia, durante esse longo e tenebroso período, vivemos numa espécie de regime dos epidemiologistas, o que na verdade agrava a situação, ao invés de aliviá-la. Diante da calamidade e movidos por boas intenções, uma parte dessa classe de cientistas julgou que poderia e até deveria governar a sociedade – mesmo que não tenham recebido votos para tanto. Cientistas, porém, são apenas técnicos especializados, sujeitos a toda sorte de contestações, erros e incertezas.


Os gráficos e modelos matemáticos dos epidemiologistas, por mais sofisticados que sejam, não consideram expectativas e interesses mais diversos, ao passo que os mecanismos da política democrática, em alguma medida imperfeita pelo menos, estão sempre preocupados em atender as bases eleitorais que lhes dão sustentação. A arte da política, nesse sentido, é tão ou mais complexa do que a arte da ciência.


No mundo dos epidemiologistas, lojistas, associações de pais de alunos, sindicatos de professores e uma série de outros interesses que legitimamente participam das disputas políticas, geralmente de maneira conflituosa, simplesmente não têm vez. Os epidemiologistas reduzem a complexidade do mundo a uma única dimensão, que é a epidemiológica. Obviamente, ninguém deve lhes criticar por isso, dado que este é o trabalho deles e para isso foram treinados. Obviamente, ninguém deve também subordinar-se acriticamente às suas conclusões, dado que nenhuma classe de cientistas está isenta de erros ou incertezas, tampouco podem reinvindicar serem os senhores da sociedade.


O regime dos epidemiologistas também não leva em consideração nuances de natureza cultural ou sociológica, particularmente o lugar e a importância da sociabilidade e das interações sociais, que parece subestimado ou ausente. A pulsão de vida em direção a atividades de lazer e entretenimento, porém, onde a interação social é mais intensa, é uma necessidade humana fundamental.


Várias evidências reunidas recentemente por neurocientistas – em uma especialidade chamada agora “neurociência social” – exibem como circuitos neurais e estruturas neurológicas como as células fusiformes e os neurônios-espelho capacitam e inclinam os seres humanos a interações sociais. Conforme palavras do psicólogo Daniel Goleman, que resumiu esse conjunto de evidências no seu recente livro, Inteligência social, “fomos programados para nos conectar”.


Mesmo interações sociais rápidas e superficiais, como aquelas que acontecem entre um consumidor e um funcionário no caixa de um supermercado, são capazes de acionar os mecanismos desses circuitos neurais. Mais que isso, dentre todas as expressões emocionais que atuam durante essas interações sociais, o riso é o mais rápido, no que tem sido chamado “o efeito do rosto feliz”. Conforme explica Daniel Goleman, “o cérebro tem um sistema para sentimentos positivos que se mantêm preparado para entrar em atividade. A natureza humana tende a fomentar relacionamentos positivos”.


Uma das explicações para a existência desses mecanismos está na biologia evolutiva. A sociabilidade foi uma estratégia de sobrevivência fundamental para a espécie humana. Destituídos individualmente de força e velocidade, diante de um ambiente cheio de seres mais fortes e mais velozes, a cooperação social foi um dos principais recursos humanos na luta pela sobrevivência. O próprio processo evolutivo, portanto, moldou a biologia humana para a interação social. Assim, a festa na praia, o churrasco com a família, o encontro no boteco é mais do que apenas uma escolha egoísta; é de certo modo o contrário disso: é o atendimento coletivo de um chamado da natureza.


O ser humano, de fato, é um animal social e nada disso é menos científico do que quaisquer outras considerações. Conforme bem colocara Magnoli em seu debate na Globo News: “Não existe só uma ciência chamada epidemiologia. Existe uma outra ciência chamada sociologia e uma outra chamada antropologia”.


No registro jornalístico do que é científico, porém, bastante parcial e seletivo, apenas atividades com propósitos econômicos têm justificativa e razão de ser. Conforme as reveladoras palavras de Gerson Camarotti, em resposta às ponderações de Demétrio Magnoli, “uma coisa é trabalho e sobrevivência, outra coisa é festividade”.


Inadvertidamente, o jornalista vocalizou um conjunto de valores, no mais das vezes inconscientes, que perpassam o imaginário brasileiro a respeito de seu próprio povo. Segundo os valores desse imaginário, o povo é mera força de trabalho, tal como bestas de cargas, cujo único propósito na vida deve ser o de trabalhar até a completa exaustão física e degradação moral, sempre visando a satisfação de seus senhores. Sua função é produzir, como dizia Darcy Ribeiro, "não o que querem e precisam, mas o que lhes mandam produzir".


Tal como sempre, aqui o povo aparece ainda concebido e tratado como um objeto: sem vontades, sem desejos e sem escolhas, apenas um instrumento a ser usado, seja para a produção, seja para a política.


A despeito do que pensem e digam, contudo, o Brasil não fez e não fará um lockdown, por mais que esperneiem os epidemiologistas e as classes médias bem educadas. Diferente do que se diz usualmente, isto não se deve apenas a estupidez do presidente da república, ainda que isso possa ter desempenhado algum papel. O povo não é uma marionete a ser livremente manipulada, ao contrário do que prescrevem essas imagens preconceituosas a respeito das classes populares.


De maneira muito mais profunda, a impossibilidade de se realizar um lockdown amplo e rigoroso, tal como prescrevem muitos epidemiologistas e subscrevem quase todos os jornalistas, é apenas a expressão prática de um conjunto de limitações estruturais, que envolvem também disposições culturais e subjetivas de amplos setores da população, que político ou cientista nenhum pode contornar no curto prazo. Ao invés de prescrições idealizadas, seria mais sensato discutir o que de fato pode ser realizado diante das condições objetivas da realidade brasileira.


Estrangeiros em sua própria pátria, porém, a aristocracia da quarentena, refugiada nos seus sítios e home offices, parece ignorar que o Brasil não é a Nova Zelândia. Indiferentes na maior parte do tempo aos sofrimentos dos pobres, as elites brasileiras dissimulam agora ter se lembrado que essa gente existe. Devemos nos perguntar se esta súbita preocupação com o destino do povo é de fato solidariedade, como se insinua, ou apenas medo de ser contaminado por um vírus mortal, cujos vetores podem estar nos que habitualmente lhes servem, mas que precisam ou apenas teimam em se aglomerar.


Amplos setores da população, por seu turno, parecem ignorar as recomendações vindas de cima. Porque deveriam dar ouvidos a quem usualmente lhes explora, oprime e humilha? Não haveria inteligência nessa desconfiança diante das ordens contraditórias que vêm dos senhores: "# fica em casa, exceto se for para trabalhar no restaurante que prepara minha comida ou para entregar os meus pedidos realizados nos aplicativos"? Acaso as famílias que pedem comida por telefone ou pela internet não têm fogões em suas casas?


Como que percebendo o pavor das elites, esses grupos parecem querer assombrar lhes os pesadelos, não com palavras, mas com ações: "estamos aglomerados, possivelmente entraremos em contato com o vírus e logo estaremos na sua casa, limpando, cozinhando, consertando ou entregando; o vírus também vai te alcançar".


É uma rebelião silenciosa, sem cartazes ou passeatas, mas muita cerveja e descontração. É o retorno sociológico do recalcado. É a amarga vingança dos excluídos – amarga, como todas as vinganças.


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