IGNORÂNCIA É A CRENÇA DOS OUTROS



Cleber Dias


Um indígena adoece e o xamã da aldeia é chamado. O xamã então afirma que a doença é provocada por demônios, possivelmente evocados por feitiço de alguma inimizade. A cura pode ser alcançada apenas por meio de cânticos do xamã. Sua capacidade de conectar-se com o mundo dos espíritos o habilita a conhecer os cânticos capazes de afugentar demônios e interromper feitiços. Ele é um sacerdote com acesso a conhecimentos extraordinários, que apenas os xamãs mais experimentados e com longuíssima formação espiritual podem possuir.


Parece uma superstição ridícula? Tente observar de maneira mais ampla.


Longe daquela aldeia, um homem da cidade adoece. Tem estado triste e melancólico. Já não tem ânimo ou disposição para quase nada. Os sintomas indicam ser uma doença da alma. O homem resolve então procurar ajuda de um especialista, que na cidade não é um xamã, mas um psicanalista. A cura dessa doença será processada por meio da fala, desde que adequadamente intermediada pelo psicanalista, conhecedor de segredos da alma que apenas especialistas como ele têm acesso. É forçoso reconhecer certas afinidades entre o psicanalista e o xamã. O psicanalista também é uma espécie de sacerdote, com acesso privilegiado a conhecimentos extraordinários, que apenas especialistas experimentados e com longa formação podem possuir.


Toda sociedade tem seus sacerdotes, que são indivíduos com acesso a saberes inacessíveis a maior parte da comunidade. A eficácia dos conhecimentos administrados pelos sacerdotes depende em certa medida de fé e de confiança.


A ciência de que agora tanto se fala também tem seus contornos sacerdotais. A compreensão da ciência como uma crença simétrica a todas as outras não pretende desacreditar a ciência, nem nenhuma outra crença qualquer. No entanto, na medida em que a ciência seja vista como uma crença socialmente compartilhada, aceitar suas recomendações depende de fé e confiança, como é sempre o caso diante de quaisquer crenças.


Parece fácil acusar de ignorantes os que não praticam o isolamento social, não usam máscaras adequadamente ou acreditam em curas mágicas sem comprovação científica, como a cloroquina ou outros remédios do tipo. O conjunto da sociedade, contudo, não organiza, nem nunca organizou suas vidas cegamente subordinadas aos desígnios da ciência. Nem sequer os cientistas o fazem. Muitos cientistas, afinal, também praticam e adotam em seus cotidianos crenças de outras ordens, como orações, unguentos, garrafadas, rezas brabas, cirurgias espirituais ou procedimentos para alinhamentos de xacras. Acaso essas práticas e as pessoas que as adotam, que incluem também os cientistas, seriam também ignorantes? Não do ponto de vista que adoto aqui.


Na verdade, pensando bem, logo constatamos que não é nada surpreendente que acreditem em cloroquina. O ser humano é um crente e precisa mesmo de algo em que acreditar, seja um Deus ou uma ciência. As pessoas acreditam em tudo, desde que seja suficientemente conveniente.


Parece exagerado? Tente observar de maneira mais ampla.


No mito fundador do cristianismo, o mundo e tudo o que há nele foi construído em sete dias por um Deus todo poderoso, que lá pelas tantas decidiu também criar o homem e depois a mulher. Fez um boneco de barro e deu um sopro para encher-lhes de vida. No início, parece ter gostado das criaturas, embora depois tenha se decepcionado. As criaturas não se mostraram obedientes, ao ponto de precisaram ser punidas com a expulsão do paraíso onde viviam. Como castigo, foram ainda eternamente condenadas por Deus ao trabalho na Terra. Ao comer uma maçã, sempre me pergunto se teria mesmo valido a pena. Tudo isso por uma maçã?


Ato contínuo, Deus enviou seu filho à Terra para salvar as criaturas antes punidas por terem comido uma maçã. Para enviar seu filho à Terra, Deus engravidou uma mulher magicamente. O Filho de Deus tinha poderes extraordinários, como a capacidade de ressuscitar, curar doentes, abrir mares, andar sobre as águas e o meu preferido, transformar água em vinho. Bilhões de pessoas ao redor do mundo acreditam em tudo isso.

Parece uma superstição ridícula? Tente observar de maneira mais ampla.


A ciência e os seus mundos de elétrons, inconscientes, células, vírus e bactérias não são menos fantásticos. Tal como todas as crenças, a ciência também depende de sacerdotes com acesso a saberes secretos, acessíveis apenas a eles, apenas depois de uma formação longa e geralmente penosa, a que os cientistas, em particular, chamam doutorado. É a minha crença preferida.


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