EQUÍVOCOS MARXISTAS SOBRE ESPORTE E POLÍTICA



Cleber Dias


É louvável o artigo de Verônica de Carvalho e Renato Saldanha sobre as relações entre “Estado, mercado e esporte”, recém publicado na revista Licere. Não é comum que estudiosos do lazer se engajem em discussões públicas tão abertamente. Conforme um estudo sobre o padrão de citações na revista Licere (disponível aqui), a maioria dos artigos publicados ali não estabelece nenhum tipo de interlocução entre si, nem elogiosa, nem crítica. Grosso modo, as pesquisas publicadas na revista apenas se avolumam, desprezando contribuições anteriores e fazendo com que a enorme massa crítica acumulada pareça uma eterna tábula rasa.


Verônica e Renato, no entanto, fugindo a esse triste costume, tomaram a sério minhas objeções (aqui) a respeito de uma pesquisa conduzida por eles e ainda se deram o trabalho de sistematizar uma resposta. É uma honraria reservada a poucos, eu sei. Sinto-me então no dever de retribuir a generosidade, fortalecendo essa pequena cadeia de reciprocidade formada por nossas trocas de ideias.


Além de pontilhar críticas aos meus argumentos, Verônica e Renato reiteraram, em outras palavras e de modo mais detido, a estrutura geral da interpretação edificada antes por eles. Nada exatamente novo portanto. Da minha parte, do mesmo modo, também não teria nada a acrescentar propriamente, se não apenas enfatizar alguns elementos que suponho importantes, especialmente se outros decidirem participar do debate, além de tentar remendar um ou dois mal-entendidos.


1. Verônica e Renato extraem uma conclusão precipitada de evidências anedóticas na relação entre governos e esportes. Diferente do que eles afirmam, o fato de muitas estruturas governamentais dedicadas aos esportes ao redor do mundo estarem associadas a preocupações com a juventude não necessariamente indica preocupações com a formação dos jovens. Nomes de estruturas governamentais não indicam propósitos políticos de maneira tão mecânica. A República Democrática do Congo não é democrática, assim como a atual Secretaria Especial do Esporte, do Ministério da Cidadania, talvez também não esteja tão comprometida com a cidadania.


2. Os usos políticos dos esportes têm propósitos diversos. Mesmo quando radicados no campo da formação da juventude, os sentidos sociais assumidos por essas práticas são heterogêneos. Há na interpretação de Verônica e Renato a suposição de que o significado dos esportes é unívoco e está inescapavelmente atrelado ao capitalismo, conforme consagrara o famoso artigo de Valter Bracht, citado por eles, de que a criança que aprende esportes respeita as regras do jogo capitalista. Os esportes, entretanto, são fenômenos sociais polissêmicos, cujo significado depende dos usos a que a prática está submetida em cada contexto particular. Líderes socialistas demonstravam entender isso perfeitamente. O governo socialista cubano, por exemplo, sempre rejeitou a interpretação marxista de que o esporte competitivo é uma prática burguesa e individualista. Assim que Fidel Castro e seus companheiros assumiram o controle político em Havana, engajaram-se em promover a prática de esportes, sob o entendimento de que campeões internacionais, treinados em escolas destinadas especificamente a esse fim, refletiam as possibilidades que o novo regime permitia aos seus cidadãos. Em mais de uma oportunidade, o próprio Fidel chegou a dizer que as três principais realizações da revolução cubana eram a educação, o tratamento médico e os esportes.


3. De modo geral, o marxismo não fora um referencial teórico predominante para as políticas esportivas dos governos socialistas, que basicamente reproduziram o modelo adotado em vários países capitalistas, qual seja, o fomento aos esportes de alto rendimento, em busca de resultados em competições internacionais. Do mesmo modo, conforme bem demonstram Verônica e Renato por meio à referência a estudos dedicados ao assunto, o marxismo também não é um referencial teórico predominante para os estudos do esporte. Todavia, se é este o caso das políticas e também das pesquisas sobre esportes com relação ao marxismo, o mesmo não parece poder ser dito com relação ao “esquerdismo”.


4. Aqui, é preciso antes destacar as diferenças entre uma coisa e outra. Nem todo marxista é esquerdista, assim como nem todo esquerdista é marxista. Há esquerdistas de todo tipo: marxistas, claro, mas também foucaultianos, eliasianos e assim por diante. Nos modismos do mercado acadêmico brasileiro, há igrejas para todos os credos. Em que pese tais diferenças, contudo, esquerdismo e marxismo guardam uma espécie de afinidade eletiva. Muitos esquerdistas sentem-se na obrigação de se dizerem marxistas, mesmo que não o sejam de fato. Em realidade ou em potência, quase todo esquerdista é um marxista de quermesse. E o esquerdismo o que é afinal? É a doença infantil do comunismo, conforme a célebre formulação de Lênin, referindo-se a ideias políticas vistas por ele como excessivamente radicais, como a rejeição ao dinheiro, por exemplo. No contexto do meu debate com Verônica e Renato, esquerdismo refere-se à adoção dogmática de ideias teóricas pré-concebidas e em alguma medida, direta ou indireta, influenciadas pelo marxismo. Tais ideias são lugares comuns tão solidamente disseminados que perseveram mesmo diante de evidências que as contrariem.


5. A recusa reiterada de Verônica e Renato de ao menos ponderarem sobre o papel do Estado com relação aos esportes, mesmo diante das óbvias evidências que eles próprios apresentam, é sintoma da força de um certo compromisso moral, mais do que exigências de um empreendimento intelectual. A julgar pelos dados disponibilizados por eles mesmos, contudo, discursos a respeito da importância de existir ou não um ministério para os esportes no Brasil são estéreis. Considerando o que se pode aprender da experiência internacional, a existência de uma estrutura governamental desse tipo é irrelevante para a capacidade de utilizar-se dos esportes com propósitos de desenvolvimento social. As relações entre essas variáveis são de fato aleatórias, conforme se vê no gráfico abaixo, que exibe uma regressão entre a existência ou inexistência de estruturas governamentais para os esportes em todos os países coligidos por Verônica e Renato, vis a vis os seus respectivos Índices de Desenvolvimento Humano, reunido por mim na base de dados do Banco Mundial (onde o coeficiente Pearson é -0,18). À esquerda da linha vertical azul, os países que não contam com estruturas governamentais para os esportes, onde encontramos lugares tão diversos quanto aos seus índices de desenvolvimento como Bélgica, Brasil, Angola e Benin. À direita da mesma linha, os países que têm tais estruturas, onde vemos Holanda e Noruega, mas também Nigéria e Sudão do Sul.



6. É verdade que economias de mercado, de fato, dificilmente poderiam universalizar o acesso aos esportes, mas é verdade também que esse objetivo tão ambicioso em parte alguma foi alcançado, tampouco por ações dos poderes governamentais. A oferta de esportes e outros serviços de lazer em geral, em todo lugar, é predominantemente realizada por empresas. Não há nesta observação um elogio, mas apenas uma constatação. A prática de esportes nas escolas talvez seja a única e principal exceção a essa regra geral, mesmo assim, restrita a crianças e jovens em idade escolar. O equívoco nas ressalvas com relação ao potencial das economias de mercado servirem como instrumento para ampliação do acesso aos esportes e recurso político para estratégias de desenvolvimento está na postulação de uma falsa oposição entre Estado e mercado. Ações dessas duas entidades, entretanto, não competem entre si, mas se complementam, ou deveriam se complementar. O Estado, afinal, é crucial para o processo de acumulação e nenhuma dinamização econômica pode se realizar sem políticas públicas adequadas. Assim, a precariedade dos mercados de lazer e esporte no Brasil, em grande medida incapazes de ampliar e atender a demanda por esses serviços, conforme atesta a limitação dos que podem acessá-los, tem relações com a relativa incapacidade do Estado favorecer o processo de acumulação nesse setor, que de modo geral segue pequeno e pobre. Além de não favorecer o processo de acumulação nesse setor, o arcabouço institucional do Estado brasileiro inibe, desestimula ou até impede o seu pleno e abrangente desenvolvimento econômico. Usualmente, lembremos, o Estado persegue, proíbe e criminaliza atividades culturais e de lazer populares com grande potencial econômico quase sempre agenciadas por pequenos circuitos empresariais informais. Conforme bem captara as insubstituíveis palavras de um líder comunitário do Rio de Janeiro, registradas pela tese de doutorado de Diogo Nascimento (disponível aqui), o único agente que destrói espaços de lazer em favelas é o Estado. Como alternativa, o país pode e deve contar com estruturas institucionais capazes de favorecer mais amplamente os inúmeros agentes econômicos que já existem e já atuam precariamente, mas com grande potencial, no setor de esporte e lazer. O Brasil não está condenado ao subdesenvolvimento e ao papel de mero fornecedor de pé de obra e de público consumidor para o mercado internacional do futebol. Existem alternativas, mesmo sem uma revolução paradigmática e sem precedentes que ponha abaixo o edifício da ilógica civilização materialista em que vivemos.


7. Meu elogio à extinção ao Ministério do Esporte (aqui) não decorre das intenções dos grupos políticos que conduziram esse processo, mas sim das consequências efetivas ou pelo menos potenciais que essa medida teve ou pode ter. Essa é uma nuance importantíssima. O pensamento esquerdista geralmente avalia o contexto ou a “conjuntura política”, conforme o jargão da tribo, considerando intenções declaradas ou deduzidas dos atores políticos. Assim, a criação do Ministério do Esporte, supostamente motivada pela intenção de promover a inclusão social e combater as desigualdades, é prontamente elogiada e arduamente defendida, não obstante as principais iniciativas daquele órgão, por todo o período em que esteve em atividade, terem sido a transferência de recursos para os chamados esportes de alto rendimento e o investimento na construção de instalações para megaeventos. Para o pensamento esquerdista, porém, não importam as consequências práticas das políticas; importam as intenções.


8. Esse modo de pensar é carente do que os historiadores chamam de “disciplina do contexto”. Segundo os rigores dessa disciplina, o contexto nunca é um dado clarividente, mas algo complexo, que exige demonstração circunstancial detalhada. Assim, o entendimento de que o atual contexto brasileiro está caracterizado por "políticas ultraliberais" não é apenas um fato incontornável, mas uma interpretação, que como todas as interpretações, exige a exposição de argumentos de prova e verificação, além de estarem sujeitas as habituais contestações. Dentre várias outras possibilidades, poderia ser dito também que o mesmo contexto é caracterizado por profunda crise fiscal, resultante das crescentes transferências governamentais para grupos privilegiados e politicamente bem posicionados, como as federações esportivas, por exemplo. Se os meus comentários sobre as políticas brasileiras de esportes de fato falham em fazer referências ao contexto, não estou sozinho nesse desacerto.


9. O compromisso político com o desenvolvimento brasileiro não se confunde com o esforço em reificar ideias de autores europeus. Aqueles que discordam ou apenas questionam certos dogmas teóricos não estão aceitando a realidade tal como ela é ou abandonando projetos de transformação. Nem tudo que difere deste ou daquele dogma deve ser tomado como conformismo. Nenhuma corrente teórica tem o monopólio do pensamento crítico e os caminhos para o desenvolvimento são em grande medida indeterminados. Com efeito, diferente do que acreditam marxistas ou esquerdistas mais fanáticos, ninguém tem a chave que decifra todos os enigmas da sociedade. Não se trata, portanto, de um problema de motivação individual, em que os de boa fé e coração puro estariam em luta contra os traidores da causa. Além disso, a escala e o significado teórico das realizações intelectuais atribuídas pelos marxistas à obra de Marx são em grande medida baseadas em extensas e intensivas omissões, distorções, exageros hiperbólicos e até mesmo falsas interpretações, desenvolvidas, sobretudo, entre as décadas de 1880 e 1910, cujo resultado é o que Gareth Stedman Jones, em seu último livro sobre a vida de Karl Marx, muito apropriadamente intitulado Grandeza e Ilusão, classificou como uma “mitologia de proporções monumentais”. As palavras do próprio Marx, registradas já em 1870, em carta a seu genro Paul Lafargue, talvez devessem ser levadas mais a sério: "Je ne suis pas marxiste".


10. As ideias são muito importantes para um adequado diagnóstico da nossa realidade, bem como para a posterior edificação de um projeto político em favor do nosso desenvolvimento. Uma coisa dessa monta, contudo, não se pode alcançar com a mera importação de modelos teóricos edificados em outras épocas e contextos. Nem seria preciso repetir as contudentes e conhecidas palavras de Keynes sobre a obra de Marx: “um texto econômico obsoleto”, “cientificamente errôneo” e “desprovido de interesse ou aplicação ao mundo moderno” (em Essays in Persuasion). Melhor apelar a Raúl Prebisch ou Celso Furtado, para quem os países desenvolvidos são ricos, enquanto os subdesenvolvidos são pobres, sendo que a riqueza dos desenvolvidos decorre da capacidade de suas economias acumularem capital. Ao rejeitarem esse primado elementar das economias capitalistas, os programas políticos dos esquerdistas condenam os países subdesenvolvidos à pobreza, ao mesmo tempo em que conseguem a proeza, pouco surpreendente, de se afastarem das aspirações populares. Pois o povo, obviamente, não está, nem pode estar, interessado em demonstrar que as profecias de um filósofo alemão do século 19 estavam certas afinal. O povo não vive de teorias.

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