EMICIDA E O ELÃ VITAL DE SUA ODE AO ELO


Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


O documentário de Emicida que há pouco estreou na Netflix, com direção de Fred Ouro Perto, "AmarElo: é tudo pra ontem", faz uma ode ao vínculo! Conecta tudo; não deixa ponta solta. Arte, cosmologia, política. Colapsa dicotomias e oposições binárias. Reúne nossa diversidade exuberante. Mais que literal, territorialmente.



Ocupa a arquitetura do Teatro Municipal de São Paulo. No proscênio; não apenas nas escadarias. Promove o encontro do rap, adotado no Brasil pelo samba, com a catedral da arte moderna. A exemplo da história sempre narrada à meia boca que agora conta às claras, realiza a antropofagia de Oswald de Andrade.



Executa melodias com uma mansuetude que eleva a patamares inéditos a potência aguerrida do Hip Hop. Tem MPB, Bossa Nova, Chorinho, Pop Rock, Samba, Funk, Soul, Black Gospel. Mas tudo junto, sem os rótulos. Sem segmentações. Apenas elos. Conectividade. Impossível preservar qualquer fio de distinção entre erudito e popular, depois de AmarElo!



Para falar do filme é preciso pretender criar linguagem, posto que é isto que testemunhamos por cerca de hora e meia na tela. Falta-nos categorias para a síntese cultural que se expressa ali! Emicida não elogia elos; prova que eles existem a despeito de tudo! A despeito da diáspora forçada, das correntes, dos corpos abandonados no Atlântico, do cativeiro, do descarte pós-abolição, da política de branqueamento, do encarceramento por vadiagem, do genocídio.



AmarElo lança luz sobre nexos históricos. Muito mais que narrativos, impugnam o silenciamento do passado. É como o cais do Valongo a brotar em plena revitalização branca e gentrificante da zona portuária do Rio de Janeiro, ao cabo de século e meio de germinação subterrânea.



A película nos revela outro Emicida, além do músico. O jardineiro. Aquele que conhece os contornos potenciais do jardim, no toque das sementes. AmarElo é já uma flor de rara beleza e impacto paisagístico. Destas que alteram não apenas a paisagem, no sentido estético, mas o território, na acepção política. Uma flor que expele pólen, encanta olfatos e modifica mentes.



Mas o filme é também semente. A música e a poesia que exibe fazem brotar uma brasilidade genuína, sempre existente, sempre reunida e, no entanto, poucas vezes vista nos templos colonizados da arte. E o amálgama desta brasilidade é a negritude. Gravitar na órbita da negritude, como núcleo da identidade nacional, é o movimento primordial de todos nós, negros e brancos, que sonhamos com um Brasil bonito e democrático! Evidenciando elos Emicida nos oferece um diagnóstico das causas de nossas derrotas históricas. Inspirado por Exu, ele quebra grilhões do passado a golpes de microfone no presente.

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