Educação à distância nas universidades públicas

Atualizado: Mai 27

Cleber Dias


Alguns setores universitários têm objeções à educação à distância. Parte dos fundamentos para essas objeções estão no receio de que a adoção de educação à distância deteriore a qualidade do ensino e que expedientes desse tipo diminuam a oferta de postos de trabalho para os professores. Em que medida esses receios fazem sentido?


Por si mesmo, a educação promovida através de tecnologias de informação pode ser tão boa ou ruim quanto àquela promovida presencialmente. Idealizações diante do ensino presencial devem ser confrontadas com a realidade cotidiana das salas de aula. Professores didaticamente mal preparados ou que conhecem mal o conteúdo que ensinam presencialmente podem deteriorar as possibilidades de aprendizado tanto quanto modalidades de ensino à distância mal estruturadas.


Por outro lado, há vantagens potenciais na educação à distância. Os números de alunos atendidos por esses meios podem ser maiores ou muito maiores do que aqueles do ensino presencial, sem necessariamente exigir custos adicionais extraordinários. O raio de alcance da educação à distância também pode ser estendido geograficamente, na medida em que seus conteúdos podem ser acessados de qualquer lugar. Oferecer mais oportunidades educacionais, para mais estudantes, a custos menores, é desejável não apenas porque amplia o acesso, mas também porque aumenta a eficiência do investimento público em educação. Essa virtual economia de recursos não afeta apenas os cofres públicos, se não também os investimentos privados realizados pelos estudantes e suas famílias, que podem reduzir ao menos parte de seus gastos com despesas que usualmente envolvem a formação universitária.


Há ainda as possibilidades de o ensino à distância permitir planos de estudo mais individualizados, em que cada estudante progride em seu próprio ritmo, superando, finalmente, tradições já bastante obsoletas de que todos devem aprender as mesmas coisas, ao mesmo tempo e no mesmo ritmo. Além disso, o uso de recursos informacionais pode também tornar a experiência de aprendizagem mais compatível com os hábitos de uma geração bastante imersa em ambientes virtuais – o que inclui também os professores, em que pese certa falta de domínio no manejo de tecnologias além dos habituais editores de texto.


A questão dos postos de trabalho é um pouco mais delicada. De um lado, é possível, de fato, que a adoção progressiva de mecanismos de educação à distância gere menos demanda pela contratação de professores, diminuindo, assim, o número de empregos disponíveis nesse setor, o que tende a ser especialmente sensível em instituições privadas, onde contratos de trabalho quase sempre visam apenas o atendimento das necessidades de ensino.


Nas universidades públicas, no entanto, onde as atividades de ensino constituem apenas uma parte das obrigações profissionais da grande maioria dos seus professores, mecanismos de educação à distância poderiam ter outros efeitos – positivos ou negativos, a depender das circunstâncias. Em um cenário otimista, a ampliação desses mecanismos poderia implicar uma redução das jornadas dedicadas ao ensino, na medida em gerassem ganhos de produtividade do trabalho docente. O tempo das jornadas de trabalho dos professores disponibilizadas por esses expedientes poderia então ser revertido em uma ampliação da dedicação às atividades de pesquisa, o que parece crucial para uma elevação qualitativa das pesquisas produzida no Brasil, onde as universidades públicas exercem uma influência muito grande, apesar dessas influências estarem ainda muito concentradas em poucas instituições. Em um cenário mais pessimista, no entanto, esses ganhos de produtividade apenas permitiriam redução do número de professores, nos mesmos moldes que têm acontecido nas instituições privadas de ensino superior.


A efetivação de um cenário mais otimista parece esbarrar basicamente em dois obstáculos principais. O primeiro, mais óbvio, seria a tentação governamental de utilizar os ganhos de produtividade gerados pela adoção ampliada desses mecanismos de educação à distância para diminuir progressivamente o contingente de professores, ganhando alguma margem fiscal para o cumprimento de superávits. É este talvez um dos maiores receios dos que se opõem à adoção do ensino à distância. O segundo obstáculo, mais sutil, seria o próprio entendimento predominante em certos ambientes universitários, que enfatizam a importância do ensino como uma das principais atribuições de instituições públicas de ensino superior.


A superação desses dois obstáculos dependeria em grande medida de um reconhecimento social mais sólido e amplamente disseminado do papel da pesquisa como recurso estratégico para geração de desenvolvimento, tanto entre gestores públicos das políticas educacionais, quanto entre as próprias comunidades universitárias. Pois não é apenas o amalucado Ministro da Educação que dá mostras de desprezar o papel capital da ciência para o desenvolvimento de um país. Mesmo nas fileiras universitárias, vez por outra relativiza-se ou mesmo questiona-se abertamente tentativas modestas de priorizar atividades de pesquisa. Professores que exibam mais engajamento com atividades de pesquisa do que com atividades de ensino, por exemplo, podem eventualmente ser alvo de censuras ou acusações de que são elitistas e fazem pouco caso das salas de aula. A famosa ênfase sobre o tripé das obrigações universitárias, composto por ensino, pesquisa e extensão, também expressa um certo esforço retórico em equiparar esses segmentos de atividades, que em última instância não são exatamente equivalentes – sobretudo aos propósitos de geração de desenvolvimento.


Nem sempre é fácil conciliar essas duas atividades universitárias altamente exigentes, como são o ensino e a pesquisa. Diante do dilema entre priorizar o ensino ou a pesquisa, as universidades públicas deveriam escolher a pesquisa, mesmo que isso implicasse certa redução do alcance das atividades de ensino. Obviamente, a formação educacional em nível superior também tem muitas consequências positivas sobre o desenvolvimento geral de uma sociedade, mas com a diferença crucial de que seus efeitos são concentrados em agentes privados, quais sejam, os estudantes que conseguem acesso ao ensino gratuito fornecido pelas universidades públicas. Já os efeitos da pesquisa são muito mais amplos e gerais, ainda que difusos e por isso mesmo menos evidentes.


Em todo caso, sacrificar interesses difusos e mais gerais legítimos, como são a reivindicação pela ampliação das oportunidades educacionais, o necessário ganho de eficiência de ações estatais e a melhoria qualitativa das pesquisas realizadas no país, em favor do protecionismo de interesses corporativos de uma classe específica de trabalhadores, pareceria politicamente inadequado. Se toda inovação tecnológica tivesse sido preterida pelos riscos de reorganização de antigos mercados de trabalho, talvez ainda estivéssemos vivendo em cavernas e produzindo fogo com pedras lascadas. Há quem preferiria uma vida assim, mas estes possivelmente não devem estar usando internet para ler este artigo.


Quaisquer inovações, sejam de produtos ou de processos, conforme o nome já diz, implicam, por princípio, o confronto com o desconhecido. A ampliação do grau com que se adota o ensino à distância nas universidades públicas poderia ou mesmo deveria ser uma maneira de elevar a produtividade do trabalho didático de seus professores, tentando conciliar duas demandas sociais igualmente legítimas: a democratização do acesso ao ensino superior e o aprimoramento qualitativo das pesquisas produzidas no país. Nesse processo, há sempre riscos e oportunidades. Nada está predeterminado. Talvez seja o tempo de seguirmos as palavras de um certo ex-presidente, que em algum momento dissera que a esperança precisa vencer o medo.

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