DA MICROPOLÍTICA À MICROREVOLUÇÃO



Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


O colonialismo acadêmico entronizou Foucault por sua descrição das interações sociais microscópicas perpassadas por relações de poder. Mas não conferiu à Antropologia da Política brasileira méritos equivalentes. Há aqui interessantíssimos desdobramentos etnográficos, na interseção entre a hipótese micropolítica foucaultiana e o poder no sentido mais clássico, estatal do termo.



Os projetos de pesquisa desta linha, coordenados por Moacir Palmeira e Mariza Peirano, demonstraram os nexos políticos de múltiplas esferas da vida social, até então não relacionadas com as questões de Estado. Religião, brigas de família, intrigas e fofocas, grupos de carnaval e interações cotidianas drasticamente transformadas pelo “tempo da política” – isto é, o processo propriamente eleitoral – entraram definitivamente para a lista das variáveis condicionantes do poder e do Estado. Se estas pesquisas nos ajudam a entender a dinâmica do conflito político em sua capilaridade, elas também capilarizam nossa responsabilidade ética, como cidadãos.



A sociedade que queremos se constrói a partir do primeiro passo. Qual a motivação que nos faz tocar o pé no chão, ao acordar? Qual pequeno projeto para os movimentos inaugurais do corpo, a cada despertar? Que energias mobilizar? Porque não aplicar, com o mesmo objetivo grandioso, a famosa frase leninista ao segundos iniciais de nossa manhã: quê fazer?



Meditar nos dois bilhões de pessoas que não têm acesso à água potável e na metade da humanidade que carece de saneamento básico, quando adentrar o banheiro. No trabalho executado pelo padeiro, bem antes de nascer o sol, ao morder o pão. Nos trabalhadores rurais e industriais que tornaram possível o copo de café, sobre a mesa. Nas operárias têxteis e nas costureiras (sim, majoritariamente mulheres) que maternalmente coseram as roupas – senão com o amor de mãe, ao menos com a mesma renúncia à própria vida em benefício da confecção do vestuário. No trabalho escravo que frequentemente subjaz à produção do calçado.



Certo, atenção e reflexão sobre estas realidades invisíveis, subjacentes a nossos ritualismos matinais, pode não alterar as desigualdades e injustiças latentes. Mas nos coloca no estado de espírito necessário para viver o dia nascente, adicionando nossa energia à sinergia da justiça e da fraternidade.



A evolução da “ética universal do ser humano”, como a denominou Paulo Freire, pode progredir em milímetros. E penso que esse grande mestre, criador da aprendizagem significativa, não irá se importar caso a chamemos hoje de ética universal das criaturas. Esta expressão oferece a vantagem de condensar as ambições humanistas mais abrangentes, no cuidado com uma flor.



É possível e viável produzir pequenas ações de consequências extraordinárias! O bater das asas de uma borboleta, no Japão, produz um tornado no Atlântico e, também brisas refrescantes na América equatorial. Ora, lavar a louça utilizada pela companheira, arrumar a mesa e as camas, varrer a casa, lavar o banheiro, não mobilizam, todos estes procedimentos, mais energia que o voo de um lepidóptero?



Os homens governaram a política e a economia até aqui. E fracassamos olimpicamente! Substituir a mulher na reprodução da vida doméstica (esta esfera milenar de opressão de gênero) é uma contribuição humilde para que elas nos substituam na política. Falo de condição necessária e não de condição suficiente, bem entendido. Trata-se de lembrar que os dispositivos de poder que perpetuam as desigualdades entre homens e mulheres se objetivam cotidianamente na pia da cozinha, no lodo do banheiro, na vassoura e nas piadinhas, infelizmente também cotidianas, elaboradas com estes materiais!



Cada oportunidade que se nos apresenta de fazer um pequeno bem, quando aproveitada, leva-nos adiante e nos restitui energias incalculáveis! Nos exercícios ginásticos produzimos lesões microscópicas no tecido muscular que, quando da recuperação, tornam o músculo mais forte. O sacrifício do prazer imediato estimula o acúmulo de um adicional de proteínas contrácteis e uma supercompensação de substratos metabólicos. Os serviços microscópicos prestados a quem convive conosco compreendem a musculação do senso ético, do vigor psíquico, da resiliência e do sentido existencial.



Quando, pelo contrário, perpetramos pequenos atos egoístas e contrários à ética, alimentamos disposições para a ação que são deletérias. Para o próprio corpo e psiquê, isto é, para o eu, para as demais pessoas próximas de nós ou, ainda, em escala mais abrangente, para um povo inteiro, um país, a humanidade, a vida no planeta. Tudo depende das consequências em cadeia do ato e do acesso aos meios de exercício do poder de cada um. Mas, por menor que seja a capacidade de destruição material e simbólica de uma pessoa, seu diminuto desrespeito aos consensos éticos humanos, acrescenta algo às ondas corrosivas que embotam o projeto de uma sociedade justa e democrática.



A pregação da violência contra a criança pelo novo ministro da Educação se baseia no pressuposto equivocado de que “um tapinha não vai matar”. Ora, nenhum assassino nasce com suas disposições ao homicídio completas. E do mesmo modo que os primeiros movimentos rudimentares do bebê já esboçam sua mímese afetuosa dos movimentos da mãe e do pai, o primeiro “tapinha” destes contra aquele já são portadores do equívoco que pode devastar uma vida. A saber, que a violência tem eficácia para substituir o diálogo, na resolução de um problema. Se este postulado orientar a relação entre mães, pais e filhos, corre-se o risco do filho orientar a sua relação com o mundo, nestes mesmos termos. E a economia das soluções dialogadas, durante a infância, por parte do pai e da mãe, pode lhes custar trabalhos severos e noites intermináveis de aflição, no futuro!



Se reiteradas, práticas egóicas se sedimentam em vícios difíceis de remover. Por vezes, a capacidade de objetivar o erro desaparece, posto que recalcada no inconsciente. De Pavlov, Watson e Skinner e a psicologia comportamentalista até Bourdieu e a sociologia disposicional, ficou estabelecido que a repetição produz o hábito. E o hábito se incorpora – literalmente, se inscreve no corpo. A repetição de um gesto, comportamento, atitude ou pensamento, sensação ou sentimento, se converte em uma espécie de instinto adquirido, segunda natureza ou reflexo condicionado. Quando chegar o momento de tomar grandes decisões, será o próprio senso ético, inteiro, que estará encerrado e inacessível, na nave blindada de um coração de pedra!



Tal como o efeito borboleta, há um efeito mosca, que propaga, multiplica exponencialmente e, pior, naturaliza a sujeira. O niilismo ético dos pequenos egoísmos tem poder para afundar a humanidade na lama mais viscosa! Estudemos a história nacional de cada país e veremos que a escravidão, duas guerras mundiais, a Guerra Fria, genocídios múltiplos e a degradação do meio ambiente têm seu motor primário no fenômeno descrito por Freud como “narcisismo das pequenas diferenças”.



Que não me entendam mal! Meus momentos de mosca são tão predominantes quanto raros os de borboleta! Não escrevo sobre o que vivo, mas sobre uma utopia que me faz caminhar. E não proponho mais maniqueísmos! Noto apenas que a ética se ancora em fenômenos objetivos. Há leis físicas que a estruturam. A terceira lei de Newton é clara, a este respeito: a cada ação corresponde uma reação de igual intensidade, com vetor invertido.



Todas as nossas atitudes têm efeito bumerangue. A maneira como me relaciono com as demais criaturas engendra inevitavelmente uma jurisprudência; abre um precedente para que eu receba o mesmo tratamento que dispensei. A natureza nos ensina, com o processo de envelhecimento e a sucessão de gerações, que a mudança nas relações de poder entre vítima e agressor é sempre uma incontornável questão de tempo. E mesmo o mais forte dos homens deveria encarar a verdade elementar de que seu poder um dia dará lugar à fraqueza, e que não precisará sequer de opressores humanos para lhe dobrar os joelhos, posto que a força da gravidade lhe abaterá inexorável!



Nossas ações repercutem no mundo concreto. Nossos pensamentos e sentimentos são disparados energeticamente e repercutem no campo eletromagnético de nosso corpo. Isso não é misticismo; é Física! Herbert Schwabl e Herbert Klima, em artigo de 2005, relatam a emissão ultra-fraca de fótons (UPE) pelos sistemas biológicos. A Biologia quântica tem notado que as células são igualmente dotadas da capacidade de absorver estes fótons. E que, do mesmo modo que acessamos todo o conhecimento disponível na internet, por meio do campo eletromagnético do planeta, os organismos vivos se comunicam energeticamente. Nossas emoções supostamente íntimas provocam alterações nos padrões de tônus muscular de nosso corpo, nossa face e modificações no olhar. Quem de fora testemunha tais mudanças pode não objetivar as motivações profundas, mas participa e compartilha conosco de domínios linguísticos não verbais, involuntários e inconscientes.



Pode-se chamar isso de vibração. E, permitam-me enfatizar uma vez mais, não me refiro a fenômenos metafísicos ou sobrenaturais. Por vibração entendo movimentos microscópicos e imperceptíveis. Os pequenos benefícios que fazemos ao mundo – desde plantar uma flor ou dar bom dia a um estranho, até arrumar a casa ou executar o trabalho sob responsabilidade de quem o negligencia –; tais benefícios, mesmo quando não sensibilizam ninguém além do próprio sujeito da ação, produzem neste o reflexo condicionado da ética. E o prepara para as decisões de maior gravidade e escala.


Não nego a necessidade fundamental de combater o bom combate à frente dos grandes valores da igualdade, liberdade, fraternidade, na esfera pública mais abrangente. Não me encontro aqui, na arena digital, enunciando argumentos? Mas lutar no âmbito dos objetivos grandiosos sem aplicá-los às interações cotidianas pode fazer de nós antes hipócritas que revolucionários. Reitero o que escrevi outrora: quando não incorporamos as disposições correspondentes, “tom de voz, expressão facial, linguagem gestual denunciam a arrogância, mesmo quando a linguagem verbal fala de democracia”. Para criar um novo mundo, justo, solidário, democrático, equitativo, importa vibrar na frequência certa! E esta frequência é um reflexo condicionado construído com pequenas atitudes orientadas pela ética universal das criaturas!


98 visualizações2 comentários

Formulário de Inscrição

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn

©2020 por Temperança política. Orgulhosamente criado com Wix.com