Capitalismo, racialidade e Pelé


Euclides de Freitas Couto


Ao observarmos as reportagens alusivas às comemorações do 80º aniversário de Pelé, salta aos olhos o número expressivo de abordagens com teor político. Pelé é reconhecidamente o maior futebolista de todos os tempos, fato que é consensual em todos os cantos do planeta, à exceção da Argentina. Como disse Zé Miguel Wisnik, se Garrincha é a melhor metáfora do povo brasileiro, Pelé o transcende, pois não há palavras que possam descrever sua arte.  Nessa semana, em meio à rememoração das suas inúmeras façanhas individuais dentro das quatro linhas, sua conduta extracampo foi motivo de questionamento para alguns dos seus críticos.


Seus críticos debruçam-se sobre o argumento de que, como personagem midiático negro, Pelé deveria ter se valido dos holofotes para pautar o racismo estrutural, que orienta as relações sociais no Brasil e em muitos outros países. De fato, Pelé nunca associou sua imagem às lutas contra o racismo. Pelo contrário: pregava que o Brasil era uma espécie de reino encantado da democracia racial. Que os negros eram respeitados e tinham oportunidades semelhantes aos brancos.  Disse, certa vez, que sua “cor” não havia sido uma barreira para a ascensão social. 


De fato, Pelé não mentiu. Ao longo de sua incomparável trajetória como futebolista, o sucesso precoce e seu merecido reconhecimento social o fizeram uma exceção, se comparado ao restante dos negros oriundos das classes populares. Simplificar o racismo, atribuindo-o apenas à cor da pele, é uma das armas constantemente mobilizadas por aqueles que querem negá-lo. O racismo, como qualquer outra estrutura de preconceito, só pode ser devidamente compreendido se for associado a outras variáveis, como renda, escolaridade, território, gênero etc. No caso do “rei do futebol”, seu embranquecimento social foi diretamente proporcional ao enriquecimento material.   


É bem provável que Pelé não tivesse consciência disso. Ao desconsiderar completamente a situação coletiva da maioria esmagadora dos negros brasileiros, ele apenas tomou sua trajetória de vida como exemplar, construindo uma narrativa de sucesso pessoal, que, segundo ele, poderia “inspirar outros garotos pobres”.  Mesmo que tivesse consciência do seu papel como agente de conscientização, Pelé, desde a década de 1960, foi direcionando sua carreira pelas trilhas do marketing pessoal. Em 1970, o ano do tri no México, Pelé ostentava o título do rosto mais conhecido do mundo. Daí em diante ele diversificou seus investimentos que estavam concentrados no campo do marketing pessoal para diversos ramos de negócio, se tornando um dos futebolistas mais bem sucedidos da sua geração.


Assim, não se pode culpar Pelé por ter se enveredado no mundo dos negócios, que naquela época, não via com bons olhos as pautas identitárias. Se atualmente o movimento antropofágico do capitalismo incentiva o marketing identitário e permite a atletas de ponta como Lewis Hamilton, LeBron James e outros protestarem contra o racismo, nos anos de 1970 o estágio de desenvolvimento do capitalismo e o contexto político brasileiro não favoreciam condutas dessa natureza. Exigir de Pelé a postura de Reinaldo sem apresentá-lo ao Frei Betto, é o mesmo que cobrar de Garrincha a noção espacial de Pelé. Até mesmo os gênios têm seus limites...

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