ARRANJO ECONÔMICO LOCAL: PARA RECONCILIAR OIKONOMÍA COM ESFERA DOMÉSTICA E VICINAL

Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


A origem do termo economia refere-se à administração da casa (oikos). Ao longo da história, no entanto, seu significado transitou na direção de um polo oposto, deslocando-se para a esfera pública, entendida como extra-doméstica. Tanto assim que a universidade terminou por oferecer duas graduações distintas: de um lado, a Economia – até onde pode ver alguém que não conhece seu currículo formal, mas testemunha suas obsessões, dominada pela macroeconomia dos Estados e do sistema financeiro globalizado –; de outro, a Economia Doméstica, cuja tautologia que a intitula se presta a concentrar o foco na esfera privada, negligenciada pela primeira.


Em sentido mais abrangente, a casa da humanidade é o planeta. Aqui a oikonomía se encontra com a ecologia – de mesma origem, oikos + logos, entendida como o estudo da casa. Por global que deva ser a perspectiva ecológica há, contudo, evidências de que os modos de vida locais, de povos e comunidades tradicionais – incluindo suas práticas econômicas – tendem a ser mais sustentáveis que os sistemas financeiros globalizados, como o trabalho de Alf Hornborg tem sugerido.


As cadeias produtivas de larga escala, ao redor do planeta, argumenta este antropólogo, supõem um vasto conjunto de mediações tecnológicas, de comunicação e transporte. Conquanto este sistema econômico planetário venha tendo êxito na expansão da riqueza e da longevidade humana, ele também engendrou, em escala inédita, a desigualdade e a exploração do meio ambiente. Hornborg argumenta que quanto mais numerosas as mediações tecnológicas, decorrentes das grandes distâncias, tanto mais ruídos ocorrem nos processos comunicativos. Daí que, para evocar o exemplo que Ladislau Dawbor costuma empregar, um acionista da Vale S. A., residente no outro lado do planeta, preocupe-se mais com os dividendos que irá receber que com o risco de desastre ambiental, em uma cidade pequena de Minas Gerais. Este problema do ruído na comunicação não decorre da mediação tecnológica indispensável, bem entendido, mas da distância social e geográfica. As formas de vida e práticas econômicas comunitárias, ao contrário, operam frequentemente com os recursos que estão à mão; isto é, recursos locais, constitutivos do ambiente. Há aqui, por conseguinte, mais condições de sustentabilidade.


E, no entanto, pouco se tem feito para o desenvolvimento de práticas microeconômicas efetivas. Pretendo aqui esboçar algumas ideias sobre o funcionamento de arranjos econômicos de trabalho e consumo locais. Trata-se de conceber circuitos de cooperação vicinal para o desenvolvimento econômico endógeno de bairros, em pequena escala. Isso deverá incluir processos de circulação e produção de conhecimento e qualificação humana; mapeamento de ofícios e serviços potenciais do local; emprego da esfera doméstica como unidade de produção; distribuição do trabalho social comunitário; políticas comunitárias orientadas para o fornecimento equilibrado dos serviços locais (no âmbito interno e externo à comunidade); e, para viabilizar todo o resto, associativismo entre vizinhos.


Vale esclarecer que não sou economista de formação e me conto entre aqueles que defendem ser a economia um tema público imprescindível da cidadania. Em qualquer área de atuação, incluindo as ciências econômicas, o profissional que julga ser seu direito monopolístico falar sobre o ofício ainda não compreendeu a vocação. O bom economista, como em qualquer outra especialidade, é aquele que se coloca como educador econômico, em diálogo fraterno e democrático com as partes interessadas – isto é, com os integrantes da sociedade civil.


Para tratar da produção e difusão vicinal de conhecimento e qualificação, há que se enfrentar dilema mais sério: qual seja, a reconstituição de canais de comunicação local. Como disse recentemente o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, a economia é um conjunto de relações. Uma linha de montagem de vestuário ou uma fazenda produtora de café compreendem relações sociais, mediadas por projetos teóricos (que não são monopólio dos intelectuais, todos os elaboramos, ininterruptamente) e por recursos materiais em transformação. Do mesmo modo, um arranjo microeconômico de bairro ou comunitário precisa começar, antes de tudo, com a reconexão das práticas comunicativas do local. Temos hoje, mais que nunca, os meios disponíveis para realização dos vínculos de vizinhança.


A globalização parece compreender gradientes contínuos de escala. Há quem trabalhe em sua própria residência, fazendo coincidir o espaço da produção material e da reprodução familiar. Outra parte da humanidade trabalha em seu próprio bairro. Há quem se desloque mais, trabalhando a treze ou, como é meu caso, a cento e trinta quilômetros de casa. Finalmente, existe também prodigioso grupo cuja labuta cotidiana inclui voltas ininterruptas em torno do planeta. Uns se relacionam predominantemente pelos meios de transporte; outros, por meio das tecnologias digitais de comunicação.


Em todos estes níveis, no entanto, há menos capilaridade da comunicação do que poderia e deveria haver. Quanto mais densidade tiverem as práticas comunicativas, tanto mais complexas podem ser as relações econômicas, nas variadas escalas. O primeiro posso, portanto, é apostar na formação de grupos de comunicação digital na vizinhança. Uma espécie de lastro sociológico digital do associativismo vicinal. Por paradoxal que seja, talvez tenha sido necessário um isolamento social forçado para empregarmos na interação com as pessoas mais próximas as tecnologias digitais que amiúde utilizamos para superar o obstáculo das grandes distâncias.


Uma vez constituídos os canais de comunicação, trata-se de proceder ao inventário das potencialidades econômicas latentes na vizinhança. Quem trabalha com as necessidades básicas da alimentação e do vestuário? Há pequena agricultura? Marceneiros? Vendedores ambulantes? Entregadores? Transportadores? Professores? Há jovens desempregados dispostos a receberem formação inicial para atuar como agentes comunitários de saúde? Enfermeiros? Há desempregados de meia idade dispostos a atuar em processos manuais ou semi-industriais de produção domiciliar?


Simultaneamente ao registro dos potenciais em germe, importa inventariar as demandas. Eis o problema fundamental aqui: como reaquecer a demanda agregada local, ativando como equivalente para a troca o trabalho em lugar do dinheiro (que as pessoas não têm ou, neste momento, não querem gastar)? E como operar um liame entre os potenciais e as demandas locais, de modo a consolidar um conjunto de relações econômicas virtuosas, que garantam a subsistência, em tempos de pandemia, e o desenvolvimento humano, no futuro?


Tudo isso depende da densidade e da intensidade da comunicação. Seria estimulante traçar aqui um quadro detalhado das etapas deste processo. E, no entanto, tal não seria mais que mera elucubração escolástica e exercício imaginativo. Um arranjo econômico comunitário, eis o que quero dizer, nasce necessariamente no bojo de um conjunto de relações comunitárias. É obra de desenvolvimento endógeno que só se realiza, como qualquer relação, com gradação lenta e com respeito genuíno às demandas e ideias êmicas.






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