A UFMG NUNCA MAIS SERÁ A MESMA


Cleber Dias


De frente para a entrada da Avenida Abraão Caram, jaz o Verdinho, restaurante tido por muitos como boteco, cujas grades vermelhas desmentiam o próprio codinome. A confusão entre o nome e as cores acrescentava mais um pitoresco paradoxo à vida social e cultural de Belo Horizonte, cujo vocabulário admite a tudo chamar de trem, exceto o trem propriamente, a que os nativos chamam metrô. Visitantes ocasionais, vindos de outras paragens, usualmente não entendiam e se mostravam mesmo perplexos com a confusão. Nunca fiz o mínimo esforço para tentar explicar. Ao contrário, reforçava-a. Com o fim das atividades do já saudoso boteco, porém, dou cabo ao encanto do mistério e revelo suas entranhas.


No princípio de tudo, reza a lenda, fez-se o verbo e as grades eram verdes. Certo dia, contudo, segue a lenda, uma fábrica de refrigerantes, patrocinadora oficial da Copa do Mundo, ofereceu pintar as grades do lugar gratuitamente com as cores da marca. Os proprietários do bar acharam boa a oferta e aceitaram-na, contrariando o estereótipo que a gente de Minas é tradicionalista. Com isso, dizíamos entre os habitués, os proprietários do Verdinho davam provas de sabedoria, reconhecendo que a cultura é dinâmica.



Com o encerramento das atividades do Verdinho, que não resistiu aos efeitos da pandemia, não são apenas os gostosos pasteizinhos servidos nos sabores errados o que se perde. Com o Verdinho, afora a saudade dos bons momentos, esvai-se também um ponto relevante de uma rede outrora densa de interação e sociabilidade. Suas mesas já foram palco para comemoração de muitas defesas bem-sucedidas de teses e dissertações. Índio, o simpático garçom do lugar, já testemunhara e às vezes até participara de muitos debates acalorados, onde cada um dos lados em conflito alimentava a ilusão de conhecer, sem margem a dúvida, a solução definitiva para os problemas do Brasil. Quanto mais vazias as garrafas, mais firmes as certezas. Em meio a essa alegre sociabilidade etílica, ideias boas ou ruins foram já rascunhadas ali.


Estudiosos dos ecossistemas de inovação reconhecem que as possibilidades informais de convívio e sociabilidade são parte fundamental do processo criativo. Quanto maior, mais denso e mais diversificado e interdependente forem os ambientes onde se desenrolam tais interações, maior tenderá a ser também a sua capacidade de fomentar novas ideias. Para usar metáfora de Terry Clark, conhecido sociológo norte-americano e professor da Universidade de Chicago, o ambiente de um ecossistema inovador deve assemelhar-se a uma espécie de máquina de entretenimento.


Como parte desses ecossistemas, universidades não se limitam, obviamente, a salas de aula. Mais ainda, aulas, no sentido convencional e obsoleto do termo, talvez sejam até bastante irrelevantes. Conforme temos aprendido, aulas no ensino superior podem acontecer de muitas formas que não apenas no formato tradicional a que estamos habituados.


Todavia, uma interação intelectual mais sólida e perene, para o que as aulas são apenas uma espécie de pretexto, é mais difícil ou talvez impossível sem o convívio presencial. Pontos de encontros presenciais, informais e voltados para a celebração lúdica são de fato indispensáveis para um ambiente assim. Certas redes de cooperação de programadores e outros entusiastas das tecnologias de informação chegam ao extremo de organizarem congressos cujo único propósito é oportunizar o encontro presencial através de uma grande e divertida festa.


De modo menos radical, Sérgio Adorno, em sua famosa tese sobre a formação dos bacharéis do Brasil no período imperial, mostrou como esse processo formativo não residia fundamentalmente na formalidade do ensino-aprendizagem ou das relações didáticas dentro das faculdades. Para muita além das salas de aula, que eram em muitos aspectos precárias, o exercício do jornalismo, da literatura ou do teatro serviram como espaços sociais fundamentais para a formação intelectual das elites dirigentes do Brasil Imperial.


Em 1840, transcorrido doze anos da fundação da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, um estudante registrou por escrito que a palestra literária nos clubes e tabernas da cidade era às vezes mais útil que o próprio estudo. Assim, esferas da vida mundana alheias às instituições de ensino e onde uma das principais características estava justamente na sua agitação controvertida, impunham-se como recurso indispensável não apenas para o entretenimento desinteressado, se não para a própria formação acadêmica dos futuros bacharéis.



Com efeito, em parte alguma a diversão esteve em oposição à vida acadêmica. Na verdade, a festa é o complemento indispensável para a criatividade e o bem pensar. A teoria antropológica do excedente (surplus theory) postula que apenas com a abundância de alimentos obtida por meio da invenção da agricultura – lá pelos idos dos anos 12.500 antes de Cristo – foi possível aos humanos liberar parte da sociedade do trabalho de subsistência para se especializarem em atividades estéticas, intelectuais ou espirituais, dando origem então ao que chamamos civilização. Sem meias palavras, o lazer seria literalmente a base e o elemento fundamental da cultura – conforme famosíssimas formulações de Johan Huizinga ou Josef Pieper.


Nesses termos, o fechamento de um boteco não é um acontecimento tão trivial quanto podem erradamente supor alguns desavisados. Uma fábrica de cultura, um templo da civilização, um vestígio imemorial e atualizado da capacidade humana de trocar ideias através do convívio festivo fechou as portas. É sempre uma notícia triste, além de prejudicial ao burburinho e efervescência necessários para uma vida intelectual plena.

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