A MALDIÇÃO DOS DEMÔNIOS BRANCOS



Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


Nossas atitudes criminosas ocorrem quando tiramos do armário um teratológico monstro emotivo. E, ato contínuo, recalcamos no mesmo móvel a razão autocrítica. Invariavelmente os motores primários disto são orgulho, vaidade e egoísmo. O secundário é a raiva que decorre de qualquer contrariedade aos três primeiros. Cego de ódio, o Brasil se encontra hoje neste transe coletivo do mal!



Temos desprezado nossa melhor oportunidade de elevação ética! Mais que isso, a estamos exterminando! Porquanto a ambição histórica que nutrimos é o mimetismo com os bárbaros da metrópole europeia e, no último século, estadunidense. Nossa alternativa cultural, educacional, sanitária, econômica, ecológica, em suma, civilizatória, é oferecida pelos povos indígenas da Amazônia! Como costuma dizer o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, eles são também alternativas a nós.



Sacrificamos no altar da commodity nossos irmãos da floresta! Perpetramos um genocídio contra 256 povos e um etnocídio contra prodigiosa diversidade linguística, que ultrapassa 150 idiomas! Insistimos em preservar total anestesia dos sentidos para uma das poucas filosofias radicalmente originais, ouso dizer, na história da humanidade! A saber, o perspectivismo ameríndio.



Em toda parte, no tempo e no espaço, encontramos a mesma regular tendência humana à oposição binária “nós”/“outros” da qual derivam múltiplas dicotomias – “bons”/“maus”, “positivo”/“negativo”, “bonito”/“feio”, “morais”/“imorais”, “humanos”/“não humanos”. A intrincada organização entre grupos territoriais, geracionais, políticos, linhagens, clãs e povos, descritos por Edward Evans-Pritchard, no Sudão. Os sistemas e grupos políticos contrastantes e interdependentes da antiga Birmânia, caracterizados por Edmund Leach. A segmentaridade intensiva entre os povos mediterrâneos, relatada por Michael Herzfeld. O narcisismo das pequenas diferenças de Sigmund Freud. O “familismo amoral” de Edward Banfield, evocado por Cleber Dias, em coluna recente deste portal. Em todos estes casos, testemunhamos o recorrente empuxo antropológico à cooperação restrita com o próprio grupo e a oposição aos de fora.



As cosmologias dos povos amazônicos emergem como grande novidade, neste mar de monotonia corporativa! Elas oferecem a abertura de um projeto ontológico inacabado, que confere a toda e qualquer diferença um lugar à mesa. Uma comensalidade antropofágica é o que propõem para nós. Sim, o canibalismo cultural que inspirou Oswald de Andrade nos anos 1920 já respirava a plenos haustos, nestas terras, antes de Cabral. Outrora ele foi animado pela filosofia Tupinambá.



A quem pensar que falo de “comer gente” em sentido literal, lembro que isso é coisa de parlamentar presidenciável, no uso do auxílio-moradia; não dos povos da floresta! Trata-se aqui de identificação com a alteridade e do alargamento cognitivo que disso decorre! Oásis de hospitalidade e nobreza espiritual, o povo Tupinambá foi exterminado pelo europeu enganador! Em um mundo saturado de etnocentrismo, o que poderia ocorrer a uma porção humana que vê no outro um semelhante, diferente no corpo, mas idêntico em espírito? Nada muito diferente do que se passou nos 520 anos que sucederam o encontro.



E, no entanto, nossos irmãos nativos aprenderam rápido a não esperar nobreza similar em corpo branco. Davi Kopenawa, em “A queda do céu: palavras de um xamã yanomami”, tem a grandeza e generosidade de nos direcionar um alerta fraterno e indulgente. O povo branco, “comedor de terra”, está destruindo os alicerces subterrâneos do céu pela mineração, exterminando os povos da floresta, seus guardiões, eliminando os xamãs, embaixadores interespecíficos e operadores da comunicação ecológica.



Para o perspectivismo ameríndio todos os seres são gente – animais, plantas, rios, montanhas, sol, lua, estrelas, espíritos desencarnados. A Cultura Humana (assim mesmo, com maiúsculas) é uma só, apenas a natureza dos corpos varia. Ao contrário de nossa cosmologia há, entre os povos amazônicos, um multinaturalismo e um monoculturalismo. Isso confere a todos os entes uma simetria radical, seja de inteligência, seja de responsabilidade política.



O contraste com nossa própria cosmologia não poderia ser mais diametral! Se, para o perspectivismo ameríndio, todos os entes são humanos, toda relação entre eles é social. Em linguagem marxiana, sugere Viveiros de Castro, não há forças produtivas; apenas relações de produção. Nossa sociedade, ao contrário, fetichizou de tal modo uma concepção material de desenvolvimento econômico que reduziu as pessoas, sobretudo as indígenas, à condição de coisas.



Esta conversão permite ignorar olimpicamente a maior riqueza do Brasil. Isto é, a diversidade cognitiva e filosófica dos povos que nos constituem. Em nome da mineração e das commodities, admite-se de consciência anestesiada aniquilar este tesouro não reconhecido. Um povo que perpetra tal barbarismo, poderá dispor dos recursos naturais de dez planetas, mas estará para sempre amaldiçoado e jamais encontrará a felicidade!


Antes do golpe na democracia de 2016 – marco político de uma bestialização coletiva que já estava em curso, desde as jornadas de junho de 2013 – Viveiros de Castro denunciou a política nacional indigenista. O Estado brasileiro, dizia então o antropólogo, visa transformar o índio em pobre para incorporá-lo nos programas sociais. Desde então, retrocedemos meio milênio em meia década! A Amazônia brasileira vive hoje um cerco de diabos brancos, presididos pelo próprio satanás!



O desafio ético consistiria, ao contrário, em conceber meios de converter o pobre em índio! De fato, com duzentos milhões de indígenas, o Brasil seria a grande potência oiko-nômica do planeta! O prefixo grego tem a vantagem de colapsar economia e ecologia. Dado nosso espírito colonizado e complexo de vira-latas, vale lembrar que "indígena" significa "aquele que pertence à terra". Lévi-Strauss, em “O pensamento selvagem”, nota que uma criança indígena com cerca de dez anos conhece pelo nome centenas de espécies vegetais, com suas respectivas propriedades medicinais, apenas olhando a casca dos caules. Nem a Finlândia, nem a Coréia, têm sistema educacional mais eficaz que o amazônico! Agora imaginemos uma nação continental integralmente indígena operando, digamos, com uma matriz energética fotovoltaica (cujo potencial gerador é trezentos por cento superior ao hidrelétrico, em nosso território)! Uma matriz energética que recapitula a fotossíntese para uma biotecnologia perspectivista! Não se trata, bem entendido, de processamento "sustentável" de fármacos, mas de libertação e expansão energética das virtudes culturais da floresta! A miséria de nossa criatividade decorre do vampirismo mercantil dos brancos, a sorver o sangue do cérebro amazônico!



Os nativos americanos não receberam os europeus como superiores. Com profunda dignidade, até hoje ignorada pelos brancos, eles os receberam como iguais! Enquanto europeus se julgavam semideuses (ordenados, com efeito, pelo próprio Deus), os nativos, lhes destinavam a mesma deferência dispensada às capivaras. Rapidamente, no entanto, viram que os brancos eram, em verdade, onças. Mas o culto da mercadoria demanda sacrifício da humanidade transespecífica da floresta, como decorrência da fome de terra e minério. E as onças assumiram feições demoníacas!



Em artigo recente, Eliane Brum denunciou o desaparecimento de três bebês yanomami, enterrados em local desconhecido pelas mães e pais, por terem morrido de Covid-19. Não há violência mais atroz que se possa perpetrar contra os yanomamis! Os ritos funerários constituem um fundamento central de sua metafísica, a partir do qual se organiza a grande comunidade humana, constituída por vivos e mortos. Os bebês enterrados brutalmente não são indivíduos, como bem notou Eliane Brum; são pessoas relacionais. Como tal, não deixam de existir e, por conseguinte, não podem se separar do corpo coletivo do qual são parte. Depois de cremados, devem ser consumidos no alimento dos parentes e permanecerem para sempre como potência espiritual e substância viva entre os seus! Enterrar os bebês yanomami, do ponto de vista de suas mães, não é diferente de se enterrar o filho vivo de uma mãe branca! A brutalidade deste ato irresponsável e bárbaro é indizível e tem poder para atirar um país inteiro em espessa nuvem de treva!



Ainda está em tempo de remover o véu que encobre a conivência silente do povo brasileiro com o crime em curso, na Amazônia! Não haverá salvação para nossa alma se completarmos a aniquilação desta lanterna ética do orbe que se expressa na filosofia dos povos indígenas!



Kopenawa não poderia ser mais profético! O massacre indígena é um fratricídio e um suicídio! A destruição dos povos amazônicos será o marco de nosso fim. Se eles forem levados à extinção por nossas mãos – das quais as manchas seculares de sangue são irremovíveis – pode até ser que o desaparecimento humano biológico não venha no curto prazo. É provável, com efeito, que a agonia do apego à forma mercadoria seja longa e dolorosa. E será castigo justo! Mas a extinção antropológica; esta será imediata!



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