A ESTRANHA FAMILIARIDADE DO BOLSONARISMO



Cleber Dias


Um dos princípios do pensamento antropológico é o de tentar tornar o estranho familiar, desenvolvendo empatia diante do que inicialmente parece exótico e até bizarro, ao mesmo tempo em que tenta estranhar o familiar, notando melhor aquilo que antes parecia óbvio.


Precisamente nesse espírito, o antropólogo Benjamin Teitelmaum, professor da Universidade do Colorado, publicara recentemente Guerra pela eternidade: o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista (Editora da Unicamp).


O livro analisa as relações entre a recente ascensão política do populismo de direita e o “Tradicionalismo”, uma escola espiritual e filosófica “minúscula”, “complicada”, “eclética”, “radical” e “alternativa”, conforme adjetivos empregados pelo autor.


Em todos os casos mais detidamente analisados pelo antropólogo, há sempre um filósofo ou intelectual ligado ou inspirado pelo Tradicionalismo que cumpre o papel de guru diante de líderes políticos da nova direita antiliberal: Steve Bannon nos Estados Unidos de Donald Trump, Aleksandr Dugin na Rússia de Vladmir Putin e Olavo de Carvalho no Brasil de Jair Bolsonaro. Conforme resumiu Teitelmaum, “raramente testemunhamos uma visão de mundo tão excêntrica e incendiária infundir o pensamento de atores políticos tão poderosos e inspirar uma reinterpretação tão radical da geopolítica, da história e da humanidade”.


Com uma história centenária, ligada originalmente aos nomes do francês René Guénon e do italiano Julius Evola, o Tradicionalismo articula uma visão de mundo que se opõe à modernidade, especialmente no seu desprezo pelo passado e na sua celebração do futuro, onde a religião dá lugar à razão e interesses materiais predominam sobre os espirituais. O Tradicionalismo, ao invés disso, preconiza a busca de verdades atemporais e estilos de vida transcendentais. É uma crítica incisiva ao que é visto como “a podridão do materialismo”.


A desilusão com a própria cultura é o que fez e faz vários dos envolvidos com o Tradicionalismo voltarem-se para religiões do Oriente, onde supõem encontrar a espiritualidade perdida pela modernidade Ocidental. Com efeito, há uma forte afinidade do Tradicionalismo com movimentos ocultistas e orientalistas. Olavo de Carvalho, por exemplo, que fora professor de astrologia na PUC, estivera também profundamente envolvido com o sufismo islâmico. Nessa época, Olavo de Carvalho chegou a liderar uma tariqa em São Paulo (Maryamiyya do Brasil), quando assumiu a posição de muqaddam (um título arábe) e adotou o nome de Sidi Muhammad.


Trata-se de uma visão radicalmente anticapitalista, que critica a escala de valores predominantes nas sociedades modernas, em suas celebrações da produção e do consumo de bens, em detrimento do intangível, do imaterial, da religiosidade e da espiritualidade. São por essas razões que o Tradicionalismo censura a ciência, orientada ao mundo material e ao progresso tecnológico, em detrimento da vida religiosa, orientada ao aprimoramento espiritual.


Critica-se também entidades transnacionais que desarticulam hábitos e costumes tradicionais. Mudanças da vida na pequena tribo para a grande nação e depois da grande nação para a enorme globalização seriam também sintomas da depravação geral que afeta o mundo moderno. Ao invés da cidadania global, o Tradicionalismo celebra a família tribal.


Segundo o argumento Tradicionalista, o modo predominante de pensamento do mundo moderno supõe erradamente que toda a humanidade não só pode como deve organizar todas as culturas e sociedades ao redor dos mesmos princípios, quais sejam, a racionalidade, a ciência, o progresso material e tecnológico, visando a perpétua transformação do presente.


Para o Tradicionalismo, no entanto, esta ambição desmedida é uma afronta ao passado, com claro potencial nocivo de dilacerar a diversidade local e homogeneizar o mundo. Para o Tradicionalismo, o passado ou as tradições não são algo apenas a serem superado, mas preservados. Vem daí o ressentimento com o multiculturalismo, com a imigração, com a ciência, com a globalização ou o “globalismo”, com o feminismo e com o que certos grupos chamam de “ideologia de gênero”.


Todos esses fatores são vistos como elementos de perturbação da ordem e desestabilização de relações mais tradicionais já estabelecidas. Para o Tradicionalismo, a tradição é sempre boa, mesmo quando é desigual, autoritária e violenta.


O que o mundo moderno habitualmente classifica como progressos, o Tradicionalismo vê como retrocessos: a subordinação de tudo à lógica mercantil, a transformação das relações e objetos em meras mercadorias, o culto ao individualismo egoísta e indiferente às necessidades da comunidade, o hedonismo dos prazeres mundanos imediatos e a expectativa de encontrar realização apenas em coisas materiais e não no cultivo de virtudes espirituais.


A obsessão moderna com a ciência, isto é, com o exame da realidade imediata que nos cerca, é apenas mais uma forma de reiterar o materialismo e o desapreço por princípios que transcendem o mundo físico. Conforme palavras de Olavo de Carvalho, “a sociedade não pode ser baseada no que chamam de dinheiro, ciência e tecnologia. É absurdo. Sem nenhum contato com Deus, estamos perdidos”, disse o brasileiro.


“O que temos agora”, lamenta-se no mesmo sentido Steve Bannon, “é um sistema em que escravos da China fabricam bens para os desempregados do Ocidente”.

A oposição diplomática à China defendida por Steve Bannon e outros Tradicionalistas, como o ex-chanceler brasileiro Ernesto Araújo, ex-aluno e discípulo de Olavo de Carvalho, fundamenta-se, em última instância, no diagnóstico de que a manutenção da ordem capitalista internacional atual, com todas as suas consequências sobre a vida material e espiritual, depende do sucesso econômico chinês. É o próprio Steve Bannon quem resume o assunto:


“Os globalistas estão totalmente ligados ao sistema mercantilista totalitário dos chineses. A China é o motor econômico que move tudo. Sem a China, o sistema não funciona; é ela que o impulsiona. Todo o sistema é um passo para maximizar os lucros e sua consequente geração de riqueza por meio da China”.


Segundo ainda preceitos do Tradicionalismo, a história é cíclica ou circular, repetindo-se e voltando a repetir-se de tempos em tempos. Esses ciclos tendem sempre a piorar o universo e a condição humana, em uma leitura fatalista e bastante pessimista.


Como tudo é cíclico, o único caminho para a melhoria é a degeneração total, ponto a partir do qual emerge um retorno a um ciclo anterior, melhor e mais honrado. O colapso e a destruição fazem parte do ciclo. Nossa sociedade e o seu modo de organização estão predestinadas ao colapso. Mais que isso, a ruína é o único meio disponível para abrir caminho para a regeneração. A catástrofe final, portanto, é um mal que vem para o bem. Por isso mesmo, a política inspirada pelo Tradicionalismo apresenta-se como antissistema e fala tanto em destruição, muito mais do que em construção.


As fases ou etapas que constituiriam os ciclos da história é um assunto que suscita divergências nos círculos Tradicionalistas. Grosso modo, porém, esses ciclos tendem a ser vistos como estruturados em quatro fases: a primeira e melhor, seria uma Teocracia, onde Sacerdotes ocupam posição de mando na sociedade, orientando à comunidade em direção à uma vida dedicada à religião e à espiritualidade. O segundo, descendo já um degrau nessa hierarquia de ciclos históricos, seria um Estado Militar, dominado por Guerreiros dedicados à guerra. A terceira, ainda mais degenerada, seria uma Plutocracia dominada por Comerciantes. A quarta e última, ponto final de uma longa descida aos infernos, seria a Idade Sombria (ou Kali Yuga, na expressão em sânscrito), dominada por massas de escravos, que conseguiriam impor seus valores distorcidos, corrompidos e pouco elevados ao conjunto da sociedade.


Há nessa anatomia sumária do Tradicionalismo um roteiro para analisar o bolsonarismo. Vários episódios controversos do governo ganham nova luz quando vistos pelo prisma do Tradicionalismo: as críticas aos carnavais, as rusgas com a China, o desprezo pelas recomendações científicas. Ao contrário do que se afirma frequentemente, o bolsanarismo conta com um sistema estruturado de ideias ao seu redor, mesmo que o seu principal líder ou a maioria de seus apoiadores não o saibam exatamente.


Ridicularizar essas ideias parece fácil. Difícil é tentar compreendê-las, circunscrevendo-as em suas próprias lógicas. Como bom antropólogo, contudo, é exatamente isso o que faz Benjamin Teitelmaum, mas não sem conflitos. Ele menciona alguns dos dilemas éticos e intelectuais com os quais se confrontou com honestidade ao longo da pesquisa. Como prosseguir com um trabalho assim, ele se pergunta, tendo que admitir e até eventualmente apreciar ideias tão excêntricas, cujas consequências políticas, além disso, são tão imprevisíveis?


Superado o choque do contato inicial, porém, um sistema de pensamento organizado vai se revelando. Pouco a pouco, na medida em que vai se entendendo os modos de pensar subsumidos nisso tudo, o que antes parecia apenas uma excentricidade repugnante, revela traços não apenas compreensíveis, mas até familiares, eu acrescento por conta própria. Pois se há incoerências nas ideias da filosofia Tradicionalista, elas não são necessariamente maiores das que se encontram em outros sistemas de pensamento.


O livro de Teitelmaum não vai tão longe, limitando-se, do início ao fim, a uma análise do Tradicionalismo. Todavia, o estudo antropológico da cultura e das crenças dos outros costuma ter como consequência uma redescoberta crítica e reflexiva das nossas próprias culturas e crenças.


Nesse sentido, é forçoso admitir, não é apenas o Tradicionalismo que critica a sociedade moderna, o capitalismo, o individualismo, o materialismo consumista, a mercantilização da vida, os efeitos da globalização, a dilaceração de tradições, o gigantismo impessoal das relações sociais e a corrosão dos laços coletivos de comunhão comunitária, buscando, em contrapartida, a construção de uma outra ordem social radicalmente diferente.


Qualquer observador isento pode notar semelhanças entre o Tradicionalismo e o Esquerdismo, não obstante as diferenças que os separam.


Ambas as ideologias rejeitam a sociedade em que vivemos e pretendem destruí-la a fim de criar uma ordem supostamente muito melhor. Em particular, ambas criticam a ganância e o apego obsessivo a objetos materiais. Ambas supõem também que uma nova ordem surgirá inevitavelmente depois de uma crescente degradação. Como resultado dessa convicção, ambas buscam formas de acelerar o processo de decadência ou de “exposição das contradições do sistema capitalista”, conforme o jargão marxista, com a esperança de que disso resulte logo a aurora dos novos tempos. É o bom e velho quanto pior, melhor.


Ambas supõem ainda que há uma classe de indivíduos especialmente dotada e capaz para assumir o comando da nova e aprimorada sociedade que está por vir: os Sacerdotes para o Tradicionalismo e a Classe Trabalhadora para o Esquerdismo.


Sem surpresa, alguns argumentos do Tradicionalismo atual, mobilizados pela direita populista, buscam fundamento em escritos acadêmicos de autores ligados à esquerda progressista, a ponto de se confundirem com eles. Há um inusitado chão comum para esses grupos.


Segundo esses argumentos, o uso da razão em busca de verdades objetivas é apenas um mito inventado por homens ocidentais brancos como expediente para dominação racial, patriarcal, eurocêntrica e heteronormativa. Segundo esses argumentos, verdades objetivas não existem e todas as ambições que cercam a ciência e seus métodos não são mais que “colonialismo epistemológico”.


Uma vez que verdades objetivas não existem, cada grupo ou comunidade pode e deve ter direito ao seu próprio regime de verdade. Do mesmo modo, a adequação de uma afirmação não depende da pertinência do seu conteúdo, que afinal não pode ser racional e objetivamente confrontado. Verdades, como os fatos, são relativas, diria Aleksandr Dugin ou um seguidor qualquer de Michel Foucault, que às vezes o segue sem saber. A adequação ou inadequação de uma afirmação depende apenas do “lugar de fala” de quem a anuncia.


Tudo isso está contido no Tradicionalismo, mas não apenas. Qualquer um que já tenha entrado em contato com ideias e ambientes Esquerdistas recentemente conhece também esse repertório.


“Historicamente, a supremacia branca venerou a ideia da objetividade e usou a dicotomia ‘subjetividade versus objetividade’ como meio de silenciar as pessoas oprimidas. A ideia de que existe uma única verdade – a ‘Verdade’ – é um constructo do Ocidente europeu que está profundamente enraizado no Iluminismo, um movimento que descreveu pessoas negras e marrons como sub-humanas. Esse constructo é um mito e a supremacia branca, o imperialismo, a colonização e o capitalismo são seus descendentes”.


Essas não são palavras de um Tradicionalista, embora pareçam, mas de uma organização antirracista (citadas por Douglas Murray, em A loucura das massas).


Com tantas e tamanhas afinidades, restaria por explicar porque eleitores ou militantes de grupos ou partidos de esquerda veem a si mesmos como tão radicalmente diferentes dos apoiadores do populismo de direita. Não deixa de ser estranho. Pois até na presunção de superioridade moral esses grupos se assemelham. Ambos veem a si mesmos e as próprias ideias como os únicos representantes legítimos das únicas e melhores soluções políticas possíveis para os problemas de um país. Todo o resto é mal intenção ou ignorância bestial. Não há espaço para dissidência aceitável e divergência honesta.


Como ensina e exemplifica o livro de Teitelmaum, estigmatizar antes mesmo de tentar conhecer é preguiçosamente fácil. Difícil é ouvir e tentar compreender. Talvez seja hora do lugar de fala ceder ao lugar de escuta.

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