A EDUCAÇÃO FÍSICA COMO METÁFORA DA ESQUERDA

Atualizado: há 2 dias


Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


Este texto não se destina apenas aos colegas de profissão – isto é, os educadores físicos. Antes, aspira à atenção de todos os leitores interessados no avanço da democracia. A Educação Física é tomada aqui como metáfora dos segmentos sociais reunidos sob a identidade política da esquerda. Pode-se dizer também que ela constitui uma metonímia, um caso particular e privilegiado da esquerda; que apresenta, de modo bastante evidente, as qualidades que caracterizam o todo.



Nas últimas quatro décadas a Educação Física, como campo de pesquisa e de atuação profissional, ampliou sua base teórica e adotou uma perspectiva fortemente transdisciplinar. Mas o fez confundindo aquelas duas vocações que Max Weber tanto esforço fez para distinguir – a ciência e a política. Sem entrar nos argumentos do clássico sociólogo alemão, pode-se sumariar que a ciência opera para elaborar conexões conceituais, ao passo que política procede amiúde à produção de segmentações sociais – ao menos em seu estado atual. Ambas operam com o senso crítico, mas, na primeira, ele atua para lançar luz sobre nexos invisíveis dos fenômenos observados, enquanto, na segunda, faz-se símbolo de distinção entre um grupo de iluminados e uma vasta massa de alienados.



Tendo levado a curso uma autoanálise acerca de sua cooperação com os regimes ditatoriais e antidemocráticos brasileiros, a Educação Física adotou o imperativo dogmático da “expressão obrigatória do senso crítico”, para parafrasear Marcel Mauss. Mas, ao se tornar obrigatório o senso crítico transforma sua natureza e cinge-se com a veste do dogmatismo. Tal como movimentos sociais, partidos políticos e sindicatos, a Educação Física adotou este imperativo moral. Doravante, teve sua faculdade de analisar os fenômenos em sua positividade atrofiada pela ênfase compulsória sobre os aspectos negativos. Não é por acaso que o senso comum reconhece a esquerda como constituída por pessoas “do contra”; do que resulta a imagem de bons moços envergada pelos direitistas. Também não constitui coincidência que os Educadores Físicos tenham assumido, nas últimas décadas, um protagonismo destacado, no movimento sindical – o que constitui o lado positivo desta história mais recente do campo.



Analisemos este empuxo da Educação Física à filosofia negativa a partir do exemplo concreto dos aplicativos de exercício físico. Diante dos lamentos reiterados de colegas, segundo os quais os apps estariam capturando o consumidor dos serviços fitness e subtraindo uma fatia de mercado importante, decidi experimentar estes programas digitais de treinamento. A experiência me sugere algumas reflexões que julgo dignas de interesse mais geral.



Em primeiro lugar, a crítica compulsiva da Educação Física à tecnologia se encontra, de modo quase absoluto, desprovida de base científica. No nível mais elementar, comentam meus colegas que as tecnologias digitais estariam conduzindo a sociedade à sedentarização. Caso operassem com a crítica científica em lugar da dogmática, eles deveriam, antes de tudo, proceder à experimentação. Os aplicativos apresentam duas condições indispensáveis para a promoção do condicionamento físico das pessoas, no mundo contemporâneo: reúnem baterias de exercício de alta intensidade e curta duração. A maior parte deles pode ser completada em até quinze minutos. Além disso, as alterações orgânicas agudas que estimulam oferecem evidências de eficácia no plano das adaptações crônicas capazes de promover a melhoria das qualidades físicas.



Eis, portanto, duas condições que explicam a ampla adesão ao consumo dos apps de exercício físico: eficácia e agilidade. A substituição de um conservadorismo pseudo-humanista e anti-tecnológico por uma atitude científica possibilitaria aos educadores físicos adequar democraticamente seu trabalho às condições de vida de vastas parcelas da população brasileira, marcadas pela escassez de tempo disponível e pelas dificuldades de mobilidade urbana. É precisamente isso que os aplicativos oferecem.



Por outro lado, eles apresentam uma limitação séria – não operam com um sistema de alavancas abrangentes, que permitiria exercitar simetricamente os grupos musculares anteriores e posteriores. No fundo, eles não fazem mais que reunir exercícios já disponíveis no repertório motor do senso comum, com um encadeamento rítmico que estimula o aumento da frequência cardíaca, em níveis sub-máximos elevados. Os músculos das costas são invariavelmente prejudicados em benefício dos anteriores, com este acervo – o que pode levar a desvios posturais deletérios, no longo prazo. Estas limitações deveriam compreender, no entanto, a brecha deixada pela tecnologia à atuação humana do educador físico caso ele substituísse o rancor negativo pela positividade da investigação científica.



No campo da saúde afetiva, há também uma miríade de associações entre tecnologia e depressão (ou problemas semelhantes) que carecem de evidências sólidas. A chamada linha de pesquisa “sociocultural da Educação Física” se limita aqui a um inventário não apenas enviesado, mas também subnutrido da produção acadêmica em ciências humanas aplicadas à saúde. Especulações filosóficas matizadas, dotadas de rigor e, portanto, dignas de interesse em seus próprios campos de investigação, são incorporadas aqui sob a forma de caricaturas elementares, empobrecidas de qualquer nuance original. É assim que, por exemplo, se enfatiza as interessantíssimas considerações do filósofo italiano Franco Berardi – segundo o qual a tecnologia pode nos conduzir a um processo de descorporalização das relações sociais pela mediação digital e, por conseguinte, a uma geração afetivamente empobrecida – desprezando-se pari passu os reencontros que as redes sociais possibilitam. Tudo se passa como se estas plataformas de sociabilidade digital oferecessem, por assim dizer, um backup dos vínculos sociais de afinidade que construímos – muitos dos quais, de outro modo, seriam esquecidos na efemeridade do tempo vivido. De um lado, simplifica-se processos afetivos complexos e ambivalentes em jogo no uso da tecnologia, de outro, ignora-se também quase integralmente os achados da neurociência que evidenciam um incremento da cognição por meio da interação entre cérebro, corpo e dispositivos digitais.



A negação dos apps de exercícios resulta, na Educação Física, dos mesmos hábitos cognitivos a partir dos quais a mediação digital das aulas, neste período de quarentena, é negada pelo movimento docente. Trata-se de um pensamento que substitui a parte pelo todo, tomando os defeitos particulares dos processos de interação entre humanos e tecnologia por suas únicas características definidoras. Os professores que assim pensam condenam-se, por isso mesmo, à incapacidade de adaptar suas aulas às demandas existenciais das novas gerações. Ao desprezar a tecnologia, menosprezam um bem cultural absolutamente central nos modos de vida da juventude contemporânea. Fazendo isso, negligenciam os principais “temas geradores” a partir dos quais poderiam cooperar com o estudante na produção de conhecimento significativo – isto é, relevante do ponto de vista das questões em jogo para o estudante ele mesmo. Se substituírem o comportamento de seita pelo interesse genuíno frente aos hábitos de consumo cultural de seus estudantes, educadores físicos, em particular, e professores de esquerda, em geral, estarão trocando uma preocupação abstrata pela contribuição genuína à saúde física e afetiva da sociedade.



Mas o caso dos aplicativos ilustra um drama ainda mais profundo da Educação Física e da esquerda. A conversão paradoxal do exercício da crítica em atitude sectária paralisa qualquer movimento genuinamente renovador da sociedade; na política, na economia, na cultura, na educação. Não se produzem grandes acordos, indispensáveis ao exercício da democracia, a partir da ênfase na divergência. Qualquer positividade técnica presente nos programas dos grupos políticos adversários, convertidos em inimigos pessoais, é assim sacrificada no altar da idolatria ideológica. Perde-se com isso, mais do que amigos – o que já é péssimo! O que se inviabiliza aqui é a imprescindível coesão que faz de um povo algo mais que uma mera reunião de mônadas! Quando o foco do pensamento humano lança luz sobre o negativo, é impossível retirar da penumbra o que há de bom na vida!


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