A DICOTOMIA ESQUERDA X DIREITA PODE PERDER O MUNDO

Atualizado: há 2 dias


Wecisley Ribeiro do Espírito Santo


A linha de raciocínio do texto publicado por Cléber Dias, pode ser levada adiante. Ali meu camarada se debruçou sobre o que pode salvar o mundo – a saber, o lazer. Com efeito, dada a seriedade (para empregar uma palavra eufemística) com a qual as polarizações políticas são vividas coletivamente hoje, apenas o lazer poderia salvar o mundo! Aqui, no entanto, me concentro sobre o que pode levar o mundo à perdição. Precisamente, as polarizações. E, em particular, a dicotomia esquerda x direita.



Há duas dimensões centrais e conectadas reciprocamente na correlação estabelecida por Robert Putnam entre o declínio dos associados de clubes de boliche e a degradação da democracia nos EUA. A primeira se refere à coesão social engendrada na sociabilidade lúdica, abordada por Dias. A segunda, sobre a qual me concentro aqui, é o aprendizado lúdico da competição.



Na política, há muita coisa importante e séria demais em jogo. Não é este o âmbito educativo. Há uma contradição em termos nos conhecidos seminários de formação política, promovidos pelos partidos. A formação política deve ser levada a curso, em total ausência dos objetos da disputa política. Debates conjunturais, estruturais, econômicos, ideológicos, curriculares, orçamentários, trabalhistas, previdenciários, urbanos, agrários, compreendem a ruína da formação política de um povo! Antes de entrar no jogo, deve-se treinar muito!



O universo se estrutura, dizia o pré-socrático Empédocles, a partir de duas forças: amor e conflito. Hoje a Física as denomina atração e repulsão. A alfabetização política é o amor; a pós-alfabetização é o conflito com fair play – qual seja, o esporte!



A dicotomia esquerda x direita é encampada amiúde por gente intelectualizada, que gosta de estudar e afeita ao debate. Ao menos nas esferas de liderança. Para poupar espaço e tempo, faço uma generalização grosseira, mas heurística. Há uma correlação estatística inversamente proporcional entre o estilo de vida intelectualizada e a esportividade. Quanto maior as médias de leitura e reflexão, tanto menores tendem ser os índices de participação esportiva.



Não me refiro ao modo de vida fitness, bem entendido, que vem sendo adotado como hábito de promoção da saúde e da estética corporal, mas ao engajamento em esportes competitivos, desde a idade escolar. A oposição entre nerds fracotes e brutamontes alienados constitui o correlato, na escola, do binarismo político esquerda x direita. Talvez por isso, esquerdistas conheçam melhor os caminhos políticos e econômicos do desenvolvimento humano e direitistas conheçam os meios de conquistar adesão social. Se a grande Guerra Fria planetária nos colocava sob o risco permanente de uma catástrofe nuclear, as pequenas guerras frias, travadas em cada escola, nos mantém sob o risco permanente da catástrofe da coesão social e da beligerância política.



O esporte forja disposições práticas e afetivas para viver a derrota com bom humor. Tudo que Aécio Neves precisava para ter evitado a aniquilação política do PSDB! E tudo que a esquerda precisa hoje para permitir que o fascismo decline sob efeito do próprio veneno! Sustentar uma oposição personalista ao representante político da onda fascista – investindo em uma estratégia de impeachment, repito o que já disse alhures – é oferecer-lhe o inimigo indispensável que opera como fator de manutenção de sua base social coesa.



Para vencer no futuro, seria necessário zelar pelas regras do jogo. Importa também permitir, durante o período entre competições (isto é, eleições), que as rivalidades internas aos grupos que sustentam o fascismo se pronunciem para corroer sua coesão – como ocorre nos treinos internos de um time, no qual os atletas se defrontam em ausência de adversários externos. Diante de um opositor, demonstrou o antropólogo Gregory Bateson, dificilmente um grupo se segmenta.


Tenho insistido obsessivamente sobre a unidade complementar constituída pelas tendências à competição e à cooperação. Simplificando um pouco as coisas, estas tendências são conhecidas na antropologia, respectivamente, como princípio da segmentaridade e da reciprocidade. O primeiro descreve os processos de segmentação social – do que a fratura atual da sociedade brasileira oferece um exemplo. O segundo, refere-se à dinâmica inversa de produção de coesão social – tudo o que precisamos hoje para recolocar o debate político nas suas devidas bases civilizadas.



É impossível, no estado evolutivo atual da humanidade, banir da vida social tanto o empuxo à rivalidade quanto à afinidade. Quando educadores tentam excluir a competição pelos portões da frente da escola, ela força a porta de trás. Experimentem organizar o cotidiano escolar exclusivamente com base em jogos cooperativos e observem as rivalidades crescerem nas interações sociais cotidianas. Ao contrário, fomentem a competição irrestrita e se surpreenderão com a formação espontânea de grupos cooperativos, para defesa recíproca.



O esporte é dos poucos fenômenos sociais – talvez o único – que não tenta recalcar estas tendências humanas. Do ponto de vista de esportistas, não existe esse papo de que “política, religião e futebol não se discutem”! A esportividade genuína disputa tudo, com respeito irrestrito ao adversário. Competição e cooperação – ou, nos termos de Empédocles, conflito e amor – não são fenômenos excludentes no esporte. O esporte não tenta, portanto, negar ou ocultar nenhum dos dois. Antes vive-os com temperança.



Se a deterioração da democracia estadunidense pode ser correlacionada com o declínio de sua sociabilidade lúdica, o nascimento da democracia inglesa coexistiu com a esportivização de suas práticas de lazer. É conhecida a este respeito a tese de Norbert Elais e Eric Dunning sobre os nexos históricos entre a parlamentarização e a sistematização do esporte moderno, na Inglaterra. Os dois fenômenos, sugerem os sociólogos, têm origem na pacificação da vida social e política, por meio de concessões recíprocas entre facções políticas rivais e suas respectivas torcidas – quais sejam a sociedade civil, partida em duas metades opostas. O processo civilizador que pôs fim a uma escalada de violência entre ambas, ao menos naquele momento histórico, ofereceu terreno fértil à competição esportiva respeitosa e ao debate comedido de ideias, na política.



As torcidas esportivas têm uma lição política incontornável. Elas nos sugerem que, em lugar de esportivizar a política, o esporte pode ser politizado – com o lúdico cedendo terreno à seriedade exacerbada e estéril. Uma bandeira, um emblema, um escudo em uma camisa, em suma, uma identidade abstrata, coloca ao meu lado gente a quem não conheço e que nunca sequer vi. Me ensina também que, ao lado destes estranhos, e em nome desta camisa, posso transformar uma arquibancada em campo de batalha. E assassinar, exasperado de ódio, gente com outra camisa, a quem não conheço e que sequer nunca vi. Matar o outro, neste caso, corresponde a um ritual bárbaro – mas, mesmo assim, um ritual – de fortalecimento da coesão social da torcida.



Abstrações identitárias podem reunir grupos com base na paixão, mas dificilmente se sustentarão no amor. Sejam elas produzidas por um escudo clubístico ou uma posição no espectro abstrato das lateralidades políticas. Por outro lado, elas nos opõem a grupos com os quais, na ausência de sectarismo (termo que, afinal, sintetiza os processos aqui descritos), poder-se-ia cooperar, senão para produzir o paraíso, ao menos para evitar o inferno. O esporte, como prática de lazer sociologicamente privilegiada, pode salvar o mundo! Mas precisamos urgentemente de mais praticantes e menos torcedores!


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